O imbróglio da sucessão

Os cidadãos que ocupam a ribalta da política nativa, de Alvaro Dias a Paulo Bernardo, de Requião a Gleisi Hoffmann até Osmar Dias e assemelhados só conseguem imaginar movimentos e saídas experimentados no passado próximo e remoto, e às vezes repetidos como caricaturas.

Mas o tempo ficou propício à desmistificação. Vivemos um momento de revelação. Faltam partidos ideologicamente definidos e modernamente concebidos, conforme se demonstra até pelo fato de que, às vésperas da campanha eleitoral dispomos de candidatos que não sabem se vão com a direita ou com a esquerda.

O senador Osmar Dias, por exemplo, é um deles e diz com emocionante candura que o importante não é a legenda ou o partido, ou mesmo o grupo. Importante é ele mesmo e seu programa de governo.

Pois, pois, na outra banda está seu irmão, Alvaro, que jura de pés juntos que tem um acordo firmado com Osmar de nunca se enfrentarem numa batalha eleitoral. Não ficaria bem irmãos disputando o mesmo naco de poder, dizem eles, como se a política e o poder pudessem se  resolver pelo código de boas maneiras da família.

Por esse entendimento, Alvaro deduz que se for candidato pelo PSDB, Osmar imediatamente vai retirar sua pretensão no PDT e passará a apoiá-lo. Consta que Osmar pensa o mesmo, mas no sentido inverso. Mas essa não é a única contradição nesse imbróglio familiar.

Alvaro Dias é o crítico mais contundente de Lula e de seu governo. Osmar é membro ilustre da base de apoio de Lula e de seu governo. No entanto, afirmam que entre eles não há o que possa colocá-los em trincheiras opostas. E se não há, como explicar essa unidade política de posições tão divergentes?

Os tucanos pró-Beto sugerem que o acordo passaria pela renúncia do senador à pré-candidatura em favor de cargo de destaque no próximo governo se os tucanos vencerem a eleição presidencial. “Quem admite este tipo de solução, não me conhece”, afirmou Alvaro.

Percebe-se que o senador Alvaro Dias cuida de sua imagem ao mesmo tempo que negocia sua saída deste imbróglio. Diz que não desiste de pleitear a candidatura ao governo em troca de ofertas de ministérios ou posição de comando na campanha presidencial tucana.

“Não sou picareta. Não faço negociação desse tipo e ninguém na direção do partido iria me ofender fazendo este gênero de proposta”, disparou o senador, em resposta às conjecturas sobre os termos do acordo que estaria sendo alinhavado pela direção nacional entre ele e o prefeito de Curitiba.

 

Em preto e branco

Vivemos, ainda, em preto e branco. Enquanto o drama tucana de desenrola, fala-se em coligações de centro, juntando centro-direita, centro-esquerda, centro-centro. O PT espera que Osmar Dias não se acerte com a direita para tê-lo como genuíno candidato da esquerda. Uma curiosidade: cadê a direita? Ninguém sabe. É igual visitar um cemitério. Onde estão enterrados os cafajestes?

Uma coisa é certa: o Paraná, com todas as suas debilidades no campo da política, vai encerrando uma fase marcada por uma geração cujo maior representante é um clown que procura se manter à tona fazendo piadas no twitter.

Requião já vai tarde e também cuida de construir a melhor imagem para a sua administração desastrosa. Acredita piamente que o povo é bobo e acredita em tudo que ele diz. Gaba-se de ter conquistado três mandatos pelas urnas através desse método que mistura mentira e desfaçatez.

Mas até as mentiras de Requião tem perna curta. Ele tascou um auto-elogio perante os deputados no plenário da Assembléia Legislativa e a reação foi imediata. Pau na desfaçatez do Duce do Canguiri.

O líder da oposição, deputado Élio Rusch, do DEM, um entusiasta da candidatura de Osmar Dias, confrontou com números o discurso que Requião fez durante a abertura dos trabalhos do Legislativo.

“O Paraná pintado pelo governador, em seu exacerbado e cansativo pronunciamento, só existe no virtual, porque a realidade está bem diferente”, afirmou o deputado.

Rusch lembrou que em 2002, durante a campanha para o governo, o então candidato Roberto Requião afirmou que construiria 200 mil casas até 2006. Agora o governador mudou o discurso. Disse no pronunciamento da última terça-feira que foram atendidas 250 mil famílias pela Cohapar.

“250 mil famílias não são 200 mil casas”, rebateu Rusch. “Considerando a média de quatro pessoas por família, a Cohapar teria construído no máximo 60 mil moradias. Em agosto de 2009 a Cohapar divulgou que tinha entregue pouco mais de 30 mil. Desta forma, não haveria tempo hábil para que a Cohapar construísse as outras 30 mil. Mesmo assim ficaria longe das 200 mil prometidas até 2006”, completou.

O deputado apontou também a utilização do salário mínimo regional para iludir a população, de que o Paraná possui o maior salário regional do país. Apresentou valores de salários base recebidos por servidores públicos, que ficam muito abaixo do piso estabelecido no Paraná.

“Requião faz cortesia com o chapéu alheio. Não é o governo do Paraná que paga o mínimo regional proposto, e sim os empresários e empregadores domésticos. Se ele quer realmente se vangloriar que o Paraná tem o maior salário regional, que equipare o vencimento básico dos servidores a este valor”, disse.

 

Arrogância do Requião

Roberto Requião. Foto: Moreira Mariz/ Agência Senado

Roberto Requião. Foto: Moreira Mariz/ Agência Senado

Requião discursou na reabertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa. Nada de novo. A mesma coleção de slogans e o chorrilho de lugares comuns da discurseira tipo esquerda bolivariana.

O lero e a arrogância foram os costumeiros. Ataques ao neoliberalismo, ao governo anterior – que é o dele mesmo, mas que ele faz de conta que é o de Jaime Lerner – e elogios aos supostos investimentos nos interesses dos menos favorecidos.

“Progredimos bem além do que achávamos possível”, cravou logo de início. E foi em frente. Contou lorotas sobre os avanços sociais e quase foi ás lágrimas ao falar do trator solidário. Pois, pois.

Vai ser difícil para Requião e sua trupe manter a versão oficial. Ontem, ainda, o Duce do Canguiri foi obrigado a contestar as declarações do ministro Paulo Bernardo, que insiste em culpar Requião pelo atraso e pela modéstia das verbas e das obras do PAC no Paraná.

Bravatas é que não faltam. Requião perdeu a compostura e mandou um desafio mal-educado para Bernardo através do twitter, o seu brinquedo preferido: “Convido o (ministro) Paulo Bernardo para discutir comigo o PAC na Escola de Governo, (transmitida pela) TV aberta ao vivo”, escreveu Requião.

O resto é o vício relatorial. Números, índices, versões oficiais sobre uma infinidade de obras grandes, médias e pequenas, tudo recheado de elogios a si mesmo e ao seu governo.

Este foi o último discurso de Requião no papel de governador na abertura dos trabalhos do legislativo. E não há grande diferença entre este e o que fez há sete anos, pois sobram engodo, arrogância, lorotas e farpas contra os adversários antigos, que ele insiste em apresentar como culpados pelas mazelas que o Paraná sofre desde que ele assumiu o cargo.

 

Tucanos se encaminham

Requião pensou salvar seu governo e seu futuro com um golpe de sorte. Tratou de ajudar a indicação de Alvaro Dias pelos tucanos, como pediam os seus irmãos. Não deu certo. Discretamente, e cedendo a pressões do próprio partido, o governador de São Paulo, José Serra, aumentou as articulações para montagem dos palanques tucanos que darão sustentação à candidatura à Presidência.

Serra recebeu o prefeito de Curitiba, Beto Richa. Os dois se reuniram no gabinete, no Palácio dos Bandeirantes, para discutir o palanque tucano no Paraná, um dos Estados onde está o maior nó para o PSDB.

Além de ter dois pré-candidatos ao governo – Richa e o senador Álvaro Dias -, o partido trabalha para conseguir, pelo menos, a neutralidade do senador Osmar Dias (PDT), pré-candidato cortejado pelo PT para dar palanque à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O encontro entre Serra e Richa, no entanto, consolidou a tendência de lançar o prefeito candidato.

Diante disso, só resta a Osmar Dias duas opções: desistir da candidatura e candidatar-se a senador ou se abraçar com o PT e outros partidos da base de apoio do presidente Lula. Mas nem isso é tão simples como parece.

 

Gleisi não abre mão

A pretensão de Gleisi Hoffmann cria obstáculos para os tucanos. Vencida a vaidade e a pretensão de Gleisi Hoffmann, muito pouco faltaria para que o PT feche o seu acordo com o PDT.

Osmar Dias revelou que os entendimentos com o PT do presidente Lula avançaram. E muito. “Mas é preciso não tropeçar nessa aliança que não é apenas para disputar uma eleição”, ponderou.

Osmar Dias conta que dois pedidos foram encaminhados ao presidente Lula pelo PDT. O primeiro é o da indicação de Gleisi Hoffmann para ser a candidata a vice em sua chapa. Escolha natural. Gleisi pode ajudar a fortalecer a candidatura de Osmar Dias em Curitiba e na região metropolitana, justo a área onde ele é mais fraco.

A teimosia de Gleisi Hoffmann em ser candidata ao senado talvez seja o maior obstáculo para a construção dessa aliança tão desejada pelo PT e tão necessária ao PDT.

Gleisi reafirma que não quer ser vice, quer ser candidata ao Senado. Tem certeza de que nunca as suas chances de vitória foram tão amplas. Desistir desse projeto pessoal para adotar outro, de coadjuvante, não está em seus planos.

Tudo bem, como costumam repetir as almas parvas. Ninguém duvida de que o presidente Lula pode convencer rapidamente Gleisi Hoffmann a mudar de idéia. Em nome do interesse partidário e do projeto presidencial de Dilma Rousseff ele pode derrubar vaidades e pretensões pessoais de Gleisi e transformá-la na vice de Osmar Dias.

O outro pedido de Osmar Dias foi prontamente aceito. O presidente Lula garantiu que virá ao Paraná quantas vezes forem necessárias para alavancar a campanha eleitoral da chapa Dilma e Osmar.

Como se vê, a aliança do PDT com o PT nativo está a beira de se realizar. É possível dizer que vencida a resistência de Gleisi Hoffmann, o acordo estará feito.

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