Não há mal que sempre dure

Requião acha que o Paraná do século XXI é mais avançado que o do século XX porque muitos paranaenses dispõem hoje do conforto da geladeira e da válvula hydra.

Na verdade, Requião e seus feitos não passam de figuras de ficção. Ele deixa o governo do Paraná sete anos depois de fruir todas as delícias do patrimonialismo e entrega ao sucessor interino um Estado sem projeto, sem plano, sem uma grande obra sequer, sem a solução de nenhum dos problemas que apontou como prioridades de sua gestão.

Não há mal que sempre dure, diz o ditado popular. Neste caso específico, é bom dizer que o efeito perverso da passagem pelo governo ainda vai durar algum tempo. Entre outros, o de ter criado uma atmosfera de ignorância e desconfiança que afastou os investimentos externos.

O Paraná perdeu competitividade porque os investidores ficaram sem coragem de aplicar na terra do governador que transforma tudo em polêmica para disso extrair proveitos de divulgação e confirmação de sua imagem de nacionalista chinfrim, tanto faz se o Paraná perde e seu povo amarga o atraso.

Nossa versão esquisita do bolivariano Chavez deixa o governo e o Paraná sem caminho diante de uma eleição que poderá redefinir seu futuro. E poderá fazê-lo da melhor forma possível se formos capazes de mudar a rota. Por enquanto, ao que tudo indica, não somos. Grandes entendimentos exigem uma sociedade unida em torno de uma visão comum da democracia, do desenvolvimento e do progresso e lideranças representativas.

Não se solicitam complexos ideários, basta um punhado de pensamentos e princípios e a vontade de realizá-los. Mas por enquanto o Paraná está órfão, não somente de governo, mas também de quem haveria de representá-lo em suas mais diversas camadas.

Somos uma sociedade profundamente dividida por desequilíbrios sociais insuperáveis, a curto e médio prazos, e não será o pânico da inflação que nos vai levar até a contemporaneidade do mundo. Mais sete meses terão de passar antes da eleição de um novo governador para que ganhemos uma oportunidade de sair do buraco.

Parece pouco, mas há situações que precisam ser encaradas de maneira nova o mais rápido possível. A crise da segurança pública, por exemplo, se agrava sem governo no leme. Um desastre marcado pelo aumento da criminalidade, estimulado pelo vácuo de poder, como se diz, crise de autoridade.

O físico Torricelli encontraria por aqui as condições ideais para uma experiência que não extravasou a teoria, a do perfeito vazio. Tendo como pano de fundo o sorriso estampado no rosto de cada um de seus secretários que se locupletam no poder.

 

Talvez não seja um líder

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Roberto Requião. Foto: Reprodução/site cronicasdacachaca.wordpress.com

Verdadeiros líderes, dizia John Kenneth Galbraith, têm compromisso com os interesses e os anseios mais profundos de uma sociedade. Galbraith falou pensando em Franklin Delano Roosevelt.

Já o governador Requião tomou, impávido, o caminho oposto. Em sete anos provou que só tem compromisso com os seus próprios anseios e interesses, entre os quais inclui a felicidade geral da parentela. Talvez não se trate de um líder.

Requião pretende ter realizado um governo transformador, modelo para todas as sociedades do planeta que pretendam superar a miséria e o atraso. Na verdade, passou os últimos sete anos a fazer a mais desavergonhada propaganda vazia de si mesmo e de seu desgoverno.

De todo modo, com a desfaçatez que o caracteriza, compareceu à Assembléia Legislativa e fez um extenso balanço de seus feitos. Faltou apenas garantir que erradicou a AIDS. De resto, tratou como realizadas as promessas vãs, do fim do pedágio à construção de rodovias paralelas ao circuito pedagiado.

Há, no entanto, coisas mais espantosas. Terá o Paraná condições de registrá-las? Talvez, só mesmo seu secretário Benedito Pires, que fica por perto. Requião, neste fim-de-feira, declara-se incompreendido e isolado. Sentimentos desse tipo não são incomuns em pessoas fatigadas, física ou psiquicamente; e Requião repete que trabalha como um cão.

É um esforço danado, dia e noite, garante ele. E aos domingos ainda se obriga a receber os áulicos de diversas extrações, da camarilha doméstica e fraternal aos companheiros de cavalgadas rústicas. Sem contar que pode aparecer ainda o pessoal do chamado núcleo duro, dos Delazari ao Pires, passando pelo mano Maurício.

Não é mole, como se diz. Daí não serem surpreendentes, embora preocupantes, alguns sintomas de que Requião vive, às vezes, uma realidade própria em um mundo à parte. Vejamos.

Há momentos em que Requião parece ter perdido a noção do tempo. Em uma passagem afirma governar há 11 anos, em outra fala em sete anos, e o certo são sete anjos e três meses contínuos desta vez. Além disso, costuma falar que lhe faltam nove meses de mandato, mas aí a coisa não dá certo, sendo claro que o vice Orlando Pessuti não pretende ser mero preposto de Requião e vai governar o Estado com vontade própria.

A memória, eis aí um problema muito sério. Requião esqueceu que com o apoio do PT, do PSDB e do DEM ele cometeu todos os pecados de seu governo. Com a cumplicidade do PT fez um governo desastrado, incompetente e eivado de denúncias de corrupção que já passaram para a história dos casos mais cabeludos cometidos no Paraná.

Basta citar um como exemplo, o da compra das televisões laranjas pelo então secretário de Educação Maurício Requião, o mesmo que ainda insiste em ocupar uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas para julgar sua próprias maracutaias.

 

Já vai tarde

Requião governou impondo-se pelo medo. Mas com o fim de seus poderes, também termina o temor reverencial que lhe dedicavam políticos, empresários, intelectuais e especialmente a chamada esquerda funcionária, tropa cooptada por Requião entre setores que um dia compuseram a antiga militância da esquerda para lhe dar apoio e saudá-lo com palminhas na escolinha das terças, programa de televisão na emissora estatal que ele usou e abusou para destratar inimigos e falar bem de si mesmo.

Hoje, Requião pensa duas vezes onde vai nas grandes cidades com medo das vaias. É o fim para um governante que a esta altura dos acontecimentos só ganha as ruas protegido por formidável aparato policial. Requião, como se sabe, sofre o fascínio do poder de polícia.

Há tempos ele se aninhou gostosamente nos braços do sistema de poder local tão bem representado pelo aparato policial. Mas nem esse é capaz de assegurar a Requião que só terá aplausos e que as faixas de protesto vão desaparecer de sua frente nas suas incursões pelo interior, que faz em helicóptero dos bombeiros adaptado para seu uso pessoal enquanto falta um aparelho para transporte rápido de vítimas de acidentes.

Requião vem atravessando várias experiências constrangedoras. Das vaias de agricultores aos quais Requião respondeu com a famosa “enfia a faixa no rabo”, às vaias que recebeu durante a visita do coronel Hugo Chavez, seu herói venezuelano.

Por onde Requião transita o tempo esquenta perigosamente. Graças à invulgar capacidade de semear a inquietação à sua simples passagem, Requião já não fica totalmente despercebido, mesmo quando procura fugir ao assédio de manifestantes, como aconteceu recentemente em Londrina.

Desde o ano passado, a corrida sucessória largou e ninguém mais liga para ele, que se obriga a chamar a atenção como se fosse um rapazola tolo, que ofende quem puder pelo twitter, que não lhe exige mais do que 140 caracteres em uma frase.

O Paraná afunda, mas de Requião o que se vê são apenas os gestos useiros de quem espreme todas as vantagens dos últimos dias de poder. São umas tantas mazelas da corte, e a garantia de cargos de confiança para os parentes e amigões do peito, que, a par das vaias, mantém Requião no noticiário.

A comédia caminha para o epílogo e o presidente só cabe mesmo no papel de quem, invariavelmente, não escapa à assuada.

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