Cuidado, eles estão à solta

Preparem a sua paciência. Eles estão mais uma vez nas ruas. Cuidado. A qualquer momento você pode ser atacado por um ou por vários ao mesmo tempo.

Os sinais imediatos para identificá-los são o sorriso armado, permanente, certo ar de subserviência quando explicam suas teses, a atenção inusitada quando você fala, além dos galanteios, elogios, enfim, todo o arsenal de bajulação e conquista.

São os candidatos. Abraçam velhinhas, comparecem a todos os eventos que reúnam mais de cinco pessoas, de festa de igreja a formaturas, beijam criancinhas, lançam perdigotos sobre os bebês, fazem bilu-bilu, sorriem para as mães, gastam elogios para as moças, chamam os mais novos de meu jovem, distribuem santinhos e se transformam nos insuportáveis chatos de galocha da política nativa que aparecem um ano sim outro não nos períodos eleitorais para tentar conquistar o voto que lhes dará um mandato.

Em outubro deste ano, os paranaenses vão eleger 54 deputados estaduais, 30 deputados federais, dois senadores, um governador e seu vice, e o presidente da República. Milhares disputam essas vagas que dão acesso ao poder e suas maravilhas, que incluem prebendas e sinecuras para os parentes, agregados e cabos eleitorais, benesses, comissões, negócios, enfim, tudo aquilo que o poder pode proporcionar aos políticos da catadura que caracteriza a maioria dos nossos nesta área úmida do planeta.

Há mais. Além dos candi­datos você terá que suportar o cabo eleitoral, que é o chato de galochas sem pedigree. “Você já escolheu seu candidato?”, será a pergunta a atenazar a nossa paciência em 2010. Atenazar (ou atazanar) significa apertar com tenaz, ou seja, mortificar, aborrecer, importunar, torturar.

Ano eleitoral é ano de torturadores políticos. Não cometa a asneira (comportar-se como um asno, burro, jumento) de revelar seu candidato a um desses torturadores. Se coincidir com o dele, você receberá tapinhas, sorrisos, abraços e, quem sabe, alguma promessa de duvidoso valor moral. Se não coincidir, você será brutalmente atazanado pelos chatos de galochas.

 

O chato de galochas

As galochas dos chatos políticos não são os revestimentos de borracha usados antigamente, nos dias de chuva, para proteger os calçados do barro (o tal chato de galochas era o que entrava nas casas sem tirar as galochas, sujando tudo). O chato político calça num pé a galocha do fisiologismo e, no outro, a galocha do maniqueísmo. Depois, sai pela cidade sujando tudo.

“Você perdeu uma ótima chance de ficar calado”, disse uma senhora a um desses chatos, nas eleições passadas, quando ouviu uma série de desaforos sobre o candidato que ela escolhera para votar.

O cabo eleitoral chato de galochas depende deste ou daquele candidato para continuar mamando numa das tantas tetas suculentas e fartas do poder público (que é público mais no nome de batismo do que na vida real). Ele luta por cargos e carguinhos, e não pela sua cidade. Age movido mais pelo bolso do que pela consciência (fisiologismo).

Além da abordagem direta, o chamado corpo a corpo feito pelo próprio candidato ou pelos seus prepostos que são os cabos eleitorais, seremos todos bombardeados por horas de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Tempo dado aos políticos, pago pela viúva e usado para ampliar o festival de besteiras que assola o país, como diria Sergio Porto – Stanislaw Ponte Preta que tanta falta nos faz para registrar em crônicas a política de nosso tempo.

Um político, um governante, assim como os locutores de rádio e TV (perdoem-me os locutores) são em geral pessoas mais cheias de palavras do que de ideias. Isso nada teria de extraordinário, se não fosse a característica essencial dos atuais meio de comunicação que obrigam as pessoas a falarem, mesmo quando obviamente não têm o que dizer.

 

Abraçam velhinhas, comparecem a todos os eventos que reúnam mais de cinco pessoas, de festa de igreja a formaturas, beijam criancinhas, lançam perdigotos sobre os bebês, fazem bilu-bilu, sorriem para as mães, gastam elogios para as moças, chamam os mais novos de meu jovem, distribuem santinhos…

 

Propaganda eleitoral

Se você duvida dessa capacidade dos candidatos nativos de falar muito sem dizer nada, observe a televisão. Basta ligar um aparelho de TV aqui, em Paris ou Nova Iorque para perceber que um microfone, quando espetado diante do nariz de um candidato, é um maravilhoso instrumento capaz de esvaziar até mesmo cérebros vazios. Calar-se seria uma derrota e a perda da oportunidade que o candidato mais almeja, o de falar para muita gente por meio da mídia.

O importante para os candidatos é produzir palavras; é satisfazer o apetite do pequeno aparelho e encher o tempo e o espaço com promessas e lugares comuns antes que outro aventureiro o faça. Políticos, especialmente candidatos, ou falam ou perdem a vez.

É óbvio que a censura não seria a melhor solução para essa espécie de sangria desatada. Mas, quem sabe, o racionamento? As sociedades civilizadas limitam o tempo de trabalho das pessoas, tornam obrigatórias as férias anuais e os dias de descanso semanal. Por que não impor um regime semelhante ao menos nos meios de comunicação coletivos, isto é, compulsórios?

Um professor da Universidade Federal do Paraná, na área das ciências sociais, defende a tese de que podia-se determinar também a criação de espaços diários, exclusivamente destinados à música e às imagens, sem palavras, para compensar os enfadonhos soporíferos, espaços destinados à propaganda eleitoral gratuita.

 

Basta ligar um aparelho de TV aqui, em Paris ou Nova Iorque para perceber que um microfone, quando espetado diante do nariz de um candidato, é um maravilhoso instrumento capaz de esvaziar até mesmo cérebros vazios

 

Candidato pensa?

Dizia o inglês John Ruskin que, para cada cem ou duzentas pessoas que falam, apenas uma pensa. E que, para cada mil pessoas que pensam, apenas uma sabe realmente ver o que tem diante dos olhos. Ruskin, grande admirador de Turner e de Santo Agostinho, foi um apaixonado observador das coisas da natureza e um crítico severo do capitalismo de seu tempo.

Ele morreu em 1900, aos setenta anos de idade, mas não é difícil imaginar o que teria a dizer deste início de século, tão diferente de seu universo vitoriano. Com efeito, o nosso mundo moderno parece ter sido inventado para contrariar Ruskin.

De tal maneira estão organizadas as coisas, que as pessoas que falam são estimuladas e favorecidas, desde que não pensem. Enquanto que, na maioria dos países, aqueles que realmente enxergam mais longe não se arriscam a dizer o que pensam, por medo de verem surgir, diante dos seus narizes, não um microfone, mas um juiz questionando-lhe as ideias e acusando-o de difamação.

Tempo de segunda ordem, diria Joseph Brodsky, poeta russo. É certo que há avanços inquestionáveis que libertaram a humanidade de doenças, de pragas e que ampliaram a expectativa de vida de multidões em todo o planeta. Em compensação, como diria Octávio Paz, recuamos sobre nossos próprios passos e preenchemos o mundo de vulgarizações e de indigência do espírito.

 

O povo é ingênuo?

Essa gente acredita que o povo é ingênuo, desmemoriado, pacífico e facilmente induzido a dar seu voto em troca de promessas que os candidatos a mandatos políticos não economizam. São capazes de prometer da cura da AIDS ao calçamento da rua da periferia. Ou uma nova fórmula para o bolsa-família que atenda todas as expectativas, inclusive a gratuidade de motéis e a felicidade imediata.

Não se enganam. O povo tem confiado em figuras que agora aparecem nas longas listas da “fichas-sujas”. Um exemplo histórico? O falecido demagogo Adhemar de Barros dizia em suas campanhas eleitorais: “Nem esquerda, nem direita; para frente e para o alto”. Eleito, assumiu o governo e organizou uma companhia de aviação para servir ao seu partido.

Consta que o povo, em qualquer latitude, pode ser de humor instável. Consta também que os homens, em situações análogas, agem de forma semelhante. Nas circunstâncias e segundos os padrões de nossas instituições político-eleitorais, as massas nativas portaram-se dentro dos padrões, quer dizer, quase sempre sofreu em silêncio e elegeu costumeiramente os demagogos mais despreparados para a vida pública, o que é apresentado pelos senhores políticos como mais uma prova da natureza pacífica da maioria que habita o Paraná.

Mas deixemos os pequenos. Num mundo de segunda ordem, também a História acaba sendo representada por atores de segunda ordem: Requião é exemplo clássico. Evo Morales e Hugo Chavez são outros da mesma extração dos populistas nacionaleiros.

Talvez o mal da história contemporânea seja parecer-se tanto com esses modernos meios de comunicação que a registram e que, como ela, não podem parar, não podem emudecer. E por que não seria assim? Afinal, a História também é uma obra nossa.

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