A chance da modernidade

O Paraná tem chances de sair da experiência de governo populista e autoritário com súbita habilitação à contemporaneidade do mundo. Enfim, na eleição de outubro poderemos abrir, nós todos e cada um, uma porta decisiva.

Nunca esteve tão claro o quadro da disputa do poder estadual. Vivemos o fim de um ciclo que insiste em se alongar. Não é sem razão que os conservadores da atual ordem se reuniram no mesmo barco em torno da candidatura do senador Osmar Dias, do PDT. Lá estão Requião e sua família, Orlando Pessuti e seu PMDB, o PT e seus congêneres.

De outro, forças que almejam a mudança se organizam sob a liderança do ex-prefeito de Curitiba, Beto Richa, do PSDB. Tucanos, liberais, sociais democratas, socialistas antiautoritários se unem para tentar inaugurar nova época sob o signo da liberda de e da promessa de um período de expansão da economia e consequente prosperidade.

Trata-se de escolher entre a política herdada do populismo e do estatismo e a modernidade representada pela adoção de práticas que ampliam a participação da sociedade e de respeito às instituições democráticas. Em jogo, a modernização da própria estrutura do Estado que ainda é submetida a uma burocracia esclerosada e esclerosante.

Cada povo tem o governo que merece, mas desde que tenha aprendido a lutar por ele. Não é o nosso caso. Instituições políticas equilibradas e firmes são necessárias porque os chefes de governo não podem ser sempre invariavelmente bons, competentes e justos. Nós sabemos muito bem disso, depois dessa longa experiência sob o governo de um déspota nepotista.

Na verdade, a democracia não pretende garantir a escolha invariável de bons governantes; ela apenas torna os maus menos desastrosos e fornece à sociedade os meios para defender-se eficazmente deles.

Eis aí, num Paraná atormentado pelo autoritarismo mais chinfrim, o que devia bastar para fazer burgueses, operários, intelectuais, padres e políticos pensarem duas vezes, em vez de não pensarem nenhuma.

 

O poder dos bárbaros

Parece simples, mas há obstáculos que não são de somenos para encerrar este ciclo e iniciar outro que nos garanta a mudança de métodos e nos livre de vez da praga populista. Para ficarem no poder, os políticos que desfrutam dos benefícios concedidos ao pessoal da terceira idade fazem qualquer negócio.

O poder, para os que lá estão há anos, é uma maravilha. Propicia emprego e oportunidades para a parentela e os amigos, socorro para outros e enriquecimento rápido para os apaniguados. Isso quando não se envolvem escândalos que revelam fortunas escondidas no guarda-roupa e vexames tais que rebaixam o Paraná a uma das províncias mais atrasadas do país no plano político.

Curioso Paraná o nosso. Somos tidos como exemplos de eficiência e produtividade em diversas áreas, a começar pelo agronegócio. E, no entanto, temos no poder um sistema centralizador, fechado, estatista, que encontrou meios de inflar desmedidamente um agrupamento político muito parecido com ele próprio, ao menos em termos ideológicos.

O núcleo formador do PMDB de Requião que nos governou nos últimos oito anos é de origem populista e nacionalista. Doutrinariamente é estatizante, centralizador, xenófobo e, por tradição, relutante no combate às mazelas do corporativismo e seus congêneres. Estas são características de um grupo relutante às mudanças. Que se recusa a admitir inovações. Conservador, portanto.

Mas há esperanças. As forças modernizadoras, que devem sustentar a perspectiva da modernização, se reúnem desta vez em torno de um político jovem, experiente, claro nas ideias e nos compromissos e que começa seus discursos com a promessa de um novo jeito de governar que é a confrontação com a maneira de governar de Requião, seu PMDB e sua família.

Beto Richa não promete mais que o respeito a regras democráticas de convivência, mas sabemos o quanto isso é importante para a vida política nativa depois de anos sob a governança de um anacrônico caudilho autoritário. “Um novo jeito de governar significa, principalmente, estar aberto para o diálogo, para ouvir as pessoas, sem grosserias e truculências. Também vamos valorizar o servidor público, com adoção de gestão pública de resultados, e reorganizar a máquina administrativa do Estado, com maior presença no interior e melhoria na qualidade dos serviços, além de aumentar a transparência e o controle social do Estado, aproximando governo e cidadão.”

Só isso justificaria um novo tempo. Beto Richa representa a primeira geração de políticos formada sem as peias do autoritarismo. Seu discurso recuperou palavras e valores que ficaram esquecidos durante todo o tempo marcado pela ditadura e suas consequências. Por isso mesmo sofre restrições da velha guarda, dos políticos que ainda dividem o mundo e as ideias em dois lados apenas e não conseguem funcionar quando há mais de uma ideia na cabeça, condição de inteligência, segundo Scott Fitzgerald.

 

Beto não promete mais que o respeito a regras democráticas de convivência, mas sabemos o quanto isso é importante para a vida política nativa depois de anos sob a governança de um anacrônico caudilho autoritário

 

Equívocos da esquerda

A banda conservadora que prega o estatismo e faz do populismo sua ideologia e sua prática, procura ganhar ares de vanguarda por agregar em sua periferia a esquerda nativa ou parte dela.

Acontece que a esquerda nesta área do planeta é capaz de muitos equívocos. Curte, por exemplo, a certeza de que Requião é um timoneiro da revolução socialista, líder inconteste das massas proletárias e coisas tais que só tem sentido quando traduzidas para a linguagem dos movimentos nacionalistas da primeira metade do século passado.

Essa gente se enche de brios e palavras de ordem quando o candidato tucano, Beto Richa, diz: “não serei condescendente com a invasão da propriedade”. Ora, pois, o MST com sua política de invasões, desta vez apoia Osmar Dias, que já foi seu algoz, mas que agora se enturmou na mesma banda com a esperança de vencer as eleições com a contribuição de todos aqueles que ele combateu durante décadas.

Neste assunto da agricultura e reforma agrária, que Osmar Dias considera sua especialidade, Beto Richa decidiu jogar com a máxima clareza, enquanto seu adversário enfrenta os constrangimentos e pressões da turma que o acompanha.

Beto tem declarado: “Incorporamos propostas da FAEP ao nosso Plano de Governo, inclusive a principal delas, a criação de uma Agência de Desenvolvimento do Agronegócio, além da instituição de um organismo de controle sanitário, que fortalecerá a luta pelo Paraná livre da aftosa sem vacinação, luta com a qual nos comprometemos. Vamos investir em projetos agroflorestais e no potencial agroindustrial de cada região a fim de diversificar as atividades do setor e ampliar a renda do agricultor, reforçando a competitividade das cadeias produtivas com inovação tecnológica (especialmente em biotecnologia) e capacitação, alavancando o crédito rural e o seguro-agrícola. Vamos investir forte na melhoria da infraestrutura de transporte e logística, o que inclui a recuperação e drenagem das estradas rurais, a criação de alternativas ferroviárias, o diálogo com as concessionárias para redução do pedágio – e o cumprimento dos contratos – e a ampliação dos trechos duplicados.”

Imaginem a irritação da esquerda que apoia Osmar Dias. Essa turma transforma qualquer debate de ideias em luta de classe e se depender dela tudo vira propriedade estatal.

A estultícia vai mais longe. A esquerda acredita que o voto do analfabeto ou aos 16 anos a favorece. Engana-se. A esquerda para ser contemporânea do mundo deve brigar por melhores salários, justa distribuição da renda e, como consequência, instrução para todos.

Quanto aos púberes, deixemos que amadureçam como propunha Nelson Rodrigues e como se faz onde a civilização pegou e o povo deixou de apanhar há algum tempo. Para perceber, inclusive, que quem pôs fogo em Roma foi a turma do imperador, não foram os cristãos.

 

As obras necessárias

Há anos o Paraná não realiza obras estruturais. A economia depende da infraestrutura construída há décadas. Nos dois últimos governos do PMDB isso se agravou. Requião recusou recursos federais importantes, como o necessário para a ampliação do porto de Paranaguá, que se tornou um dos grandes gargalos da produção.

É urgentíssima a dragagem do canal e a construção do cais oeste, além da adoção de tecnologia portuária mais avançada e uma gestão ambiental que harmonize as novas obras portuárias com a natureza, para evitar que se repita a interdição do porto pelo IBAMA.

O governo do PMDB fez discursos de intenções sobre a melhoria das condições da vida rural. Mas de prático, nada aconteceu. Richa acredita que será essencial investir na melhoria da vida rural, com ações integradas de educação, capacitação, moradia, saneamento e segurança, além de políticas específicas de apoio à agricultura nos seus diferentes segmentos, aí incluídos o agricultor de subsistência e o pequeno empreendedor rural, que está conectado ao agronegócio.

Nos planos, a ampliação da rede de estradas estaduais e a manutenção permanente de estradas rurais e rodovias sem pedágio. Mas o Estado precisa de obras estratégicas como aeroportos, novas rodovias de ligação, ampliação da malha ferroviária e outras tantas obras que vão depender também da capacidade do governo estadual fazer projetos e defender recursos para ele no governo da União.

O Brasil, diz a lei, é uma República Federativa. Mas o importante não é que isso esteja posto no papel e seja ensinado às crianças nas escolas. O importante é que, entre nós, a Federação é uma consequência e uma condição da liberdade.

O Paraná é o estado do sul do país que menos recebe recursos da União. Consequência de governos como o de Requião que jamais conseguiram articular uma frente em defesa dos interesses do Paraná. Nem mesmo para resolver as pendências onerosas da privatização do Banestado.

Richa demonstrou em sua carreira capacidade maior para articular forças em favor de projetos que são claramente do interesse do Estado e de todos os cidadãos. Foi assim que conseguiu aprovar projetos e realizar obras com os recursos obtidos através do governo federal que lhe seria hostil do ponto de vista político.

 

O programa social

Richa terá que se dedicar a profundas mudanças em áreas deterioradas e que causam aflição permanente na maioria absoluta da população. A segurança é um exemplo. Requião deixou que o contingente das polícias militar e civil caísse de tal forma que hoje seria necessário realizar concursos imediatos para a contratação de contingentes enormes de policiais militares.

O Paraná se transformou em rota do tráfico, a droga (especialmente o crack) corre solta em todas as camadas sociais e a criminalidade articulada com o tráfico impõe recordes de homicídios por 100 mil habitantes.

“É meu compromisso combater o tráfico de um lado, de outro criar centros de atenção para usuários de drogas, especialmente o crack, que se tornou uma praga nacional, destruindo famílias e roubando o destino de jovens e adolescentes. Em nosso governo, a saúde, efetivamente, terá 12% dos recursos do orçamento do Estado”, garante Richa.

Outra área que necessitará de atenção imediata é a da saúde. A meta de Richa é levar a saúde para mais perto das pessoas, apoiando os municípios na construção e reforma das unidades básicas. “Vamos criar centros regionais de especialidades nas 22 regiões do Estado, com profissionais capacitados e recursos da telemedicina; centros de atenção à pessoa idosa (hoje não há nenhuma política estadual de saúde para a terceira idade); a criação do programa “Mãe Paranaense”, reproduzindo as boas práticas do “Mãe Curitibana”, que reduziu os índices de mortalidade materno-infantil e foi adotado em Pernambuco e na cidade de São Paulo também com absoluto êxito; a criação da rede de atenção às urgências e emergências, com atendimento integrado.

Tudo isso terá que acon­tecer ao mesmo tempo em que a reforma do estado para modernizá-lo e reduzir custos absolutamente desnecessários em algumas áreas quando faltam em outras. A luta contra a burocracia será um capítulo à parte. “Hoje tudo indica que já temos burocracia demais para as nossas posses. Será preciso desmontar o sistema que amplia constantemente a máquina burocrática”, diz Richa.

Como se vê, o Paraná está maduro. O momento é propício. O que falta é a compreensão da maioria de que o ciclo atual se esgotou e com ele a atual forma de governar. A partir daí, o Paraná poderia discutir e fixar livremente o seu destino. E não há razão para crer que o faria com menos tino e responsabilidade que os seus atuais preceptores.

Deixe uma resposta