Contra tudo e contra todos

Beto Richa se elegeu governador contra tudo e contra todos. Enfrentou a mais forte frente política de que se tem notícia no Paraná desde a fundação. Derrotou Osmar Dias e, com ele, duas máquinas poderosas dos governos federal e estadual, aí incluídos os grupos econômicos que se articularam para manter privilégios e negócios nas duas instâncias.

 

Não foi fácil. Beto encarou Lula, Dilma, Gleisi Hoffmann e o PT. Desafiou Pessuti, Requião e o PMDB. A quase totalidade da mídia não escondeu que torcia por Osmar Dias. Na própria trincheira teve a traição de Alvaro Dias. E para completar o quadro de adversidades, todos os institutos de pesquisa erraram do começo ao fim da campanha eleitoral. Sempre contra ele.
Esse quadro abre a possibilidade de mudança de ciclo político no Paraná. Mudança que pode ser tão profunda e ampla quanto aquela que Ney Braga estabeleceu no início dos anos 60 e José Richa vinte anos depois, nos anos 80. Se assim for, significará a adoção de novas políticas, de programas e principalmente de novos métodos. Além da necessária substituição de pessoas que vem ocupando cargos de direção há décadas.
Afinal, Beto Richa re­presenta a substitui­ção de uma geração inter­mediária que vai saindo de cena até por força da idade. Seus principais representantes se agruparam na trincheira oposta. Roberto Requião, Alvaro Dias e Osmar Dias expressam essa geração de políticos que surgiu nas entranhas do PMDB no movimento pela democratização e aí se estabeleceu. O que bastaria para mostrar que se trata de uma geração liliputiana, quando muito de pequenos grandes homens que carregaram consigo a horda de parentes, amigos, colegas de turma e assemelhados.
Embora Alvaro seja tucano, Requião do PMDB e Osmar do PDT, não há grandes diferenças entre eles a não ser os estranhamentos pessoais quando disputam o poder. De resto, muito se parecem. No pouco conteúdo e no estilo autoritário.
A superação dessa turma pode significar, entre outras, o início de uma fase na política nativa mais civilizada e livre do raciocínio bipolar desenvolvido nos anos em que o mundo se dividia entre os defensores do regime fardado e o resto que aspirava a volta à democracia.
É provável que os cidadãos do futuro, daqui a cem ou duzentos anos, olhando para trás e apreciando essa turma, se surpreendam com a gritante mediocridade que a caracterizou no poder e fora dele. Do confronto permanente com o léxico ao infeliz costume de resolver tudo através do nepotismo. Tudo significa a própria aspiração de conforto e poder de cada um deles.

 

Remover o entulho

As prioridades para o início de governo são as questões que exigem intervenção de emergência, diz Beto Richa, preocupado com o que vai receber de herança da administração peemedebista. Não é pequeno o desafio. Em oito anos, Requião e sua trupe conseguiram deteriorar a máquina do Estado ao ponto de comprometer a qualidade de serviços públicos essenciais, como a segurança pública, a atenção à saúde e a educação.
“Temos a saúde pública preocupante e a segurança caótica. Precisamos aumentar o efetivo policial, contratar médicos, equipamentos para hospitais regionais”, afirmou Beto Richa, em sua primeira entrevista coletiva. Além disso, terá que pensar nas finanças, que andaram capengando por força de orientação tributária que reduziu a arrecadação. E terá que cortar despesas, a começar pelas supérfluas, que são imensas num Estado que mantém milhares de cargos em comissão para os quais Requião nomeava cabos eleitorais.
“Vamos melhorar o gasto público, fechar as torneiras do desperdício, dar um choque de gestão e enxugar a máquina administrativa, para que tenha o tamanho do Paraná que queremos fazer”, disse Beto Richa. Sabe que vai enfrentar resistências. Governo, entre nós, tornou-se imenso negócio, que movimenta diariamente milhões de reais e que emprega (planturosamente) dezenas de milhares de pessoas, apenas em seus escalões superiores. Quantos diretores têm as estatais Copel e Sanepar? Quantos economistas, técnicos e assessores de alto nível?
E as corretagens de seguros, as comissões, os contratos, as encomendas? O negócio estatal é tão grande, tão rendoso, envolve tanta gente, está tão bem enraizado na estrutura política do poder, que só corre um risco, tornar-se grande e custoso demais para o Estado que o alimenta.
Pois Beto Richa terá que encarar essa estrutura com a disposição de mudá-la radicalmente, mesmo que tenha que mexer nos interesses estabelecidos até mesmo de políticos que o apoiaram. Ou nada vai mudar e sua trajetória política será curta e insossa.
Ele terá pela frente um Paraná gordo, oficial e oficioso, que explora e oprime o país real, magro e sofrido, embora certamente ainda capaz e produtivo. Em outra época, Aníbal Curi disse certa vez que nossos grandes fazendeiros são gigolôs de vaca. Pois essa gente, esses beneficiários e mandarins, empreiteiros e banqueiros, são os gigolôs do Paraná.

 

O sucesso da corrupção

Na verdade, o segredo do sucesso dessa gente que cerca o governante para obter benefícios do Estado, é simples. As estatais, quando mal administradas, gastam mais, pagam mais prêmios, mais comissões e corretagens, fazem acertos e negócios mais vantajosos para os que negociam com elas. Administrar mal um desses mastodontes não é apenas uma tentação e uma tendência: é uma arte. É uma festa. O Paraná é um estado alegre.
Imaginam a ansiedade dos grupos interessados em abocanhar algumas PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas. Ou em ampliar os empréstimos consignados em folha de pagamento para os funcionários. Ou, ainda, fornecer material para qualquer das secretarias. Esse pessoal geme de ansiedade e põe a funcionar seus neurônios para descobrir por onde entrarão no novo governo para tomar o que puderem. Eles já estão por lá há muito tempo e sabem exatamente onde se localizam os caixas, as verbas, as obras, as maracutaias. Está na praça um cidadão querendo renovar as televisões alaranjadas compradas pela Secretaria de Educação. Oferece comissão melhor do que a paga na primeira compra.
De resto, continuam empanturrando a gente de mentiras. Os donos do poder no Paraná nestes últimos oito anos sempre mentiram muito, mas agora atingem o sublime. Talvez se trate do resultado de uma feliz combinação de cabeças criativas com almas caridosas. Sela com o intuito de cobrir os fatos com o manto diáfano da fantasia para nos poupar de sustos exorbitantes. Só que o manto entregue por Requião está esgarçado e roto.
Anote-se que foi incrível o esforço empreendido pelos publicitários domésticos de Requião para vender um Paraná que não existe para nós mesmos, que sofremos diretamente os efeitos do péssimo governo que tivemos. A começar pela insegurança pública, que atingiu índices nunca dantes experimentados nesta pacata província que se tornou paraíso de traficantes por conta da falta de polícia.
Esse pessoal não brinca em serviço. Requião sempre disse que tinha a solução de todos os nossos problemas no bolso do colete no mesmo momento em que todas as nossas mazelas cresciam e nos levavam ao caos.

 

O blá, blá, blá cansou

O interessante dos resultados das urnas, que expressaram a decadência da popularidade de Requião, é que revelam a decadência também do político típico da geração que Beto Richa substituirá agora. O distinto público cansou do discurso vazio, do blá, blá, blá, cheio de promessas que não se realizam. Requião, Alvaro Dias e até mesmo Osmar Dias, epígono desta geração, são políticos habituados a convencer a população através de discursos que, muitas vezes, se reduzem à profundidade do slogan.
Na verdade, um político, um administrador público, uma alta autoridade militar ou civil, assim como os locutores de televisão e de rádio, são em geral pessoas (perdoem os locutores) mais cheias de palavras do que de ideias.
Isso, em si mesmo, nada teria de extraordinário se não fosse a característica essencial dos meios de comunicação que obrigam as pessoas a falarem, mesmo quando obviamente não têm nada a dizer.
Basta ligar um aparelho de TV em Curitiba ou em Nova Iorque, para perceber que um microfone, quando espetado sob o nariz de uma pessoa, é um maravilhoso instrumento capaz de esvaziar até mesmo os cérebros vazios.
O importante é produzir palavras e satisfazer o apetite do pequeno aparelho e encher o tempo e o espaço, antes que algum outro o faça. Políticos, administradores, generais, médicos, até mesmo simples populares, ou falam ou perdem a voz.
O que parece necessário é evitar que o uso exagerado (e forçado) as degenere e transforme de uma vez nessa espécie de terrível tóxico que hoje tonteia e desorienta a grande maioria das pessoas, um pouco por toda a parte.
Pois o paranaense urbano, mais informado, que votou em Beto Richa, cansou da geração que só discursa e pouco faz. Beto Richa terá que substituir a política do discurso vazio pela eficiência de uma gestão que se avalia pelas obras. O resto é conversa fiada.

 

 

Um comentário

  • Contra tudo e contra todos? Quem?

    Dá pra entender que vocês não quiseram revelar, mas um meio de comunicação deveria se dizer isento e isso, vocês não poderão dizer. O que será que vocês falaram do massacre aos professores, protagonizado pelo Beto Richa?

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