Acabou

Acabou. O ciclo marcado pela hegemonia de Roberto Requião de Mello e Silva na política paranaense chegou ao fim. Ele ainda respira. O mandato de senador conquistado com dificuldades lhe dá uma sobrevida como ator coadjuvante de pouca importância e nenhuma credibilidade entre os bípedes providos de neurônios nesta área do planeta. Com Requião, se encerra também o ciclo de toda a uma geração que tomou o poder na virada para a democracia e que agora se retira sob vaias, sem luar e sem violão. Dessa turma fazem parte o senador Alvaro Dias, seu irmão Osmar Dias, recém derrotado na disputa do governo, e os áulicos que os acompanham. A figura referencial de oposição à esta banda, Jaime Lerner, também saiu do jogo. Os tempos são outros e os atores principais agora são da geração de Beto Richa e Gleisi Hoffmann.
O que a história guardará deste período de Requião que impôs ao governo do Paraná longo jejum de inteligência? Há controvérsias. Os humoristas lembram imediatamente de cenas de desequilíbrio emocional como aquela em que Requião mandou os agricultores enfiar suas faixas de protesto no rabo. Literalmente.
Seu desrespeito pelas pessoas e pelas instituições revelou-se em incidente também gravado por uma câmara de televisão. Requião gostava de abordar mulheres intimidadas pela figura do governador para perguntar se elas traíam o marido, deixando-as em profundo constrangimento. Seria o suficiente para iniciar um estudo de grave desvio de personalidade.

 

Requião significa um atraso de pelo menos duas décadas infames

Aqui também há divergências. Os diagnósticos sobre a psicopatologia de Requião são muitos: Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno Bipolar, Hiperatividade Perversa, Esquizofrenia (vê opositores imaginários), Transtorno de Personalidade Borderline, Síndrome de Frare e mais uma dúzia de classificações. Tantas que o povo simplificou tudo com a expressão Maria Louca para definir Requião. E parece perfeito.
Apelidos não lhe faltam. Do infame trocadilho Reiqueijão a Kadafi ou Duce, uma infinidade de ápodos lhe foram conferidos, mas nenhum conseguiu sintetizar tão bem todos os seus desvios de comportamento como o popular Maria Louca que se vê em inscrições nos muros e nas referências do povo ao falso caudilho.
Outra lembrança dos humoristas é a da gafe típica de quem vive a simular que tudo sabe para esconder a ignorância. Em ridicularia acentuada pelo exibicionismo, Requião mastigou um punhado de mamona diante do presidente Lula que o salvou da intoxicação fazendo-o cuspir o veneno. Cena definitiva sobre a estultícia captada pela televisão e divulgada no mundo.
Por aí vai. Requião protagonizou tantas cenas de bufonaria que ao final já não merecia respeito. Tanto que ao deixar o governo foi esbofeteado em duas ocasiões. Bastou que a sua guarda pretoriana se distraísse para que o desafeto Rubens Bueno lhe desferisse um direto no queixo que o deixou grogue, em cena presenciada por uma centena de políticos que estavam no aeroporto de Campo Mourão à espera de Beto Richa.
Não bastasse o primeiro soco na cara, repetiu-se a dose quando Requião foi agredido pelo diretor comercial do porto de Paranaguá, João Batista Lopes dos Santos, o João Feio, em um restaurante do Pontal do Paraná, no litoral do Estado. Em ato político com plateia de 600 mulheres, Requião ofendeu o sucessor Orlando Pessuti. João Feio tomou as dores de seu chefe e deu dois tapas na cara de Requião, que chamou a guarda para proteger-lhe na fuga.

Epígono de Chávez

Os cientistas políticos preferem avaliar o comportamento de chefete populista de Requião. Lembram que o homem tem parecença tragicômica com Benito Mussolini e todos os líderes dessa catadura que procuram o poder pela ligação direta com as massas, sobrepondo-se às instituições políticas que procuram destruir ou lançar na vala das suspeições.
Requião gosta de pensar que corresponde no Brasil ao presidente Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, e seu orgulho foi ter ajudado a eleger o Bispo Lugo presidente do Paraguai. A companhia é perfeita. Requião reforça seu discurso de esquerda com a frequente citação da Carta de Puebla para agradar setores guiados pela Teologia da Libertação na Igreja Católica e satisfazer a esquerda nativa que precisa de discursos para acalmar a consciência e justificar a submissão em troca de cargos públicos.
Ao desmontar as instâncias partidárias para assumir o comando pessoal da horda, Requião abandonou também as referências naturais na escolha de quadros para preencher as principais funções de comando dentro e fora do governo. Como sói acontecer com os tiranetes da tradição latino-americana apoiou-se no nepotismo como única referência sobre a qualidade dos homens que o seguiam. E o Paraná viu que Requião tinha uma extensa família, toda ela albergada na máquina estatal, muitas vezes a ocupar cargos que exigiam capacidade muito superior ao que os irmãos, primos, tios e tias puderam oferecer.
Isso explicaria em boa parte o desastre administrativo de Requião. Em 12 anos, nenhuma obra significativa. Nenhum marco transformador. Nada, a não ser a autolouvação permanente do caudilho que ocupou boa parte de seu tempo à propaganda política. Para isso não teve escrúpulos. Lançou mão dos instrumentos de comunicação do Estado, ampliou-os e deu-se ao prazer de usá-los para enxovalhar os desafetos e proporcionar um espetáculo deprimente todas as terças feiras, em seu talk-show chamado de escola de governo em que figurava como apresentador e principal entrevistado diante de uma plateia submissa, cordata, instada a bater palminhas sempre que o próprio Requião ou seu contrarregra dava o sinal.
Requião revelou-se um patriarca generoso. Nomeou mais de uma centena de parentes e para a mulher e os irmãos deu cargos vistosos no primeiro escalão. Para justificar a nomeação incompatível de parentes em cargos que exigiam preparação intelectual ou técnica, Requião defendeu-os invariavelmente com a tese do notório saber. Assim, um psicanalista de curta formação transformou-se “no melhor administrador de portos do planeta”. Eduardo Requião assumiu a superintendência do porto que agora está sob intervenção do governo federal. Além dos descalabros que merecem investigação sigilosa da Polícia Federal, Eduardo Requião quase levou o porto a fechar, por falta de dragagem e outras incompetências.

 

Mais grave foi o uso contínuo da mídia oficial para desancar jornalistas, jornais, desafetos e ameaçar promotores públicos e procuradores do Estado para submetê-los à sua vontade

No momento, a curiosidade que Eduardo desperta tem a ver com um rocambolesco caso policial que pode levá-lo para a cadeia, segundo alguns juristas nativos. Denunciou à polícia o roubo de R$ 350 mil e indicou a ladra, sua empregada doméstica. A empregada descobriu o esconderijo desse dinheiro e muito mais no fundo falso de um guarda-roupa. Só foi descoberta porque passou a gastar mais do que lhe permitiam as posses e o curto salário. Pois, pois, agora a polícia quer saber a origem de todo esse dinheiro.
O outro irmão de Requião, Maurício, o caçula, tem problemas parecidos para explicar aos juízes e ao distinto público. Um dos escândalos que mais repercutiram no Paraná foi a revelação, em 2007, da compra de milhares de televisores de cor laranja para serem instalados em todas as escolas do Paraná. O preço unitário por cada televisor foi muito superior ao de aparelhos vendidos no comércio de Curitiba. Isso sem se levar em conta que em compras do Estado o preço do produto cai pela dispensa do ICMS e porque é lógico que compras em grandes quantidades o comprador sempre recebe descontos e vantagens.
A oposição provou a falcatrua indo às compras. Adquiriu um televisor, pagou por ele, mostrou a nota fiscal como prova do absurdo. É bom sublinhar que a licitação foi feita por pregão eletrônico, no apagar das luzes de 2006 e que a empresa ganhadora foi também a que mais contribuiu para o fundo de campanha de Requião.
Hoje, Maurício Requião luta para se instalar numa das cadeiras do Tribunal de Contas, mal havida em manobra flagrada pelos adversários e que por isso mesmo é pendência judicial nos tribunais superiores de Brasília. O cargo seria a sua salvação, avaliam os advogados.

A culpa é da imprensa

Diante de denúncias como essas que envolveram diretamente os seus irmãos, Requião desenvolveu uma forma de contestar e desviar o foco da discussão. Invariavelmente diz que tudo não passa de mentira da imprensa. Por que razão a imprensa mentiria sobre a honestidade dele e de sua família no poder? Ora, porque ele não estaria dando aos jornais e demais veículos de comunicação o dinheiro que seus antecessores deram.
Aliás, Requião nunca responde sobre a denúncia. Sempre desloca a discussão para outro ponto e se põe a desmoralizar quem denuncia. Não é manobra nova nem original, mas o pior é que ainda funciona.
Quando não consegue intimidar os jornalistas, Requião parte para a agressão. Em 2006, logo após as eleições, convocou uma grande coletiva de imprensa para insultar os próprios jornalistas, os donos de jornais e tudo o que tivesse a menor semelhança com o jornalismo. Estava irritadíssimo com o resultado da eleição que quase lhe rouba o cargo de governador. Venceu por diferença mínima de dez mil votos contra Osmar Dias, obscuro senador do interior e seu ex-secretário da agricultura.

 

Devemos reconhecer que nesses anos todos Requião nos empanturrou de mentiras

Muitas vezes sua agressividade vai além dos impropérios. Mais de uma vez agrediu jornalistas, em ocasiões, bom ressalvar, em que estava sob a forte proteção da guarda pessoal. Em Londrina, tentou arrancar o dedo de um jornalista que lhe fez perguntas incômodas sobre ele e sua família em cargos públicos. Em Curitiba, tentou atingir uma repórter que conseguiu se esquivar da grosseria.
Mais grave foi o uso contínuo da mídia oficial (rádio e TV educativas) para desancar jornalistas, jornais, desafetos e ameaçar promotores públicos e procuradores do Estado para submetê-los à sua vontade.
O pior de Roberto Requião, hoje senador eleito da base alugada, setor PMDB, guichê do Paraná, foi a frustração de um projeto modernizador que aproximaria o Paraná da contemporaneidade do mundo, segundo acreditavam os militantes libertários de sua geração. Perdeu-se a chance. Requião significa um atraso de pelo menos duas décadas infames, pois o Estado ainda terá de fazer esforços de recuperação, sem contar os prejuízos para a economia do Paraná, que perdeu investimentos decisivos por conta da resistência de Requião para aceitar capitais de fora.
Ficaram as ruínas resultantes de uma administração desastrada. Hospitais sem equipamentos e sem pessoal. Escolas degradadas. Política educacional que devolveu o Paraná às cavernas. E o caixa vazio. Toda a propaganda sobre o equilíbrio financeiro do Estado não passava de balela. Na verdade, devemos reconhecer que nesses anos todos Requião nos empanturrou de mentiras. Com a desfaçatez típica dos populistas de periferia.

 

 

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