Dico Kremer e os privilégios do olhar

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Com exceção de alguns excêntricos, hoje ninguém mais duvida que a fotografia é arte. Nem sempre foi assim. Baudelaire em sua crônica do Salão de 1859 escreveu que a fotografia só pode ser humilde servidora das artes e da ciência.

Curiosa cegueira do gênio. Baudelaire via na câmara fotográfica o substituto da pintura. Equívoco que por muito tempo ajudou a construir a compreensão de que a fotografia, ao ocupar territórios da realidade visível que até então eram exclusivos da pintura, relegou-a a se autorreferenciar.

Com o avanço da fotografia, a pintura teria deixado de ver o mundo para explorar as essências, os arquétipos e as ideias. Tornou-se pintura da pintura. Cubismo e abstracionismo. Distanciou-se dos domínios que Baudelaire chamava “do impalpável e do imaginário”. Pintura daquilo que vemos de olhos fechados.

A realidade não tardou em desmentir a teoria de Baudelaire e seus epígonos. Os fotógrafos, ao explorarem os mundos da abstração e dos sonhos, ao interferir no resultado captado pela câmara, passaram a fazer sua própria arte. Única.

Depois de um século de discussão, a crítica voltou ao ponto de partida. Não para condenar a fotografia à maneira de Baudelaire, que a via como pobre sucedâneo da pintura, mas para exaltá-la como arte nascida da mesma tradição.

Diante das fotografias de Dico Kremer temos a dimensão da arte e do artista que a produziu. Não é necessário conhecê-lo como eu o conheço com suas inquietações literárias que vão de Proust a Joyce, de Saramago a Machado, ou de suas incursões filosóficas em várias línguas, para perceber que um homem sensível, herdeiro da cultura ocidental, usou a lente fotográfica para subverter a objetividade com uma poética que alterna exposição e recolhimento, o visível e o invisível.

Pobre Baudelaire. Irritado com os poderes da reprodução imediata da fotografia, esqueceu que atrás da lente fotográfica há um ser humano, uma sensibilidade e uma fantasia. Um ponto de vista como esse que somente fotógrafos como Dico Kremer conseguem descobrir.
Nesta pequena mostra da extensa obra de Kremer há temas e objetos cotidianos. Há imagens colhidas durante suas andanças pelo mundo, como a da esquina em uma rua de Veneza em que a igreja se defende com um cartaz onde o pároco pede encarecidamente “non lordare su muri della chiesa”.

Há também fotos de estúdio e Kremer é considerado excelente fotógrafo de publicidade porque domina como ninguém o ambiente, a luz, os contrastes, a perspectiva. Mas entre suas melhores fotos de estúdio estão as que fez de seus amigos. A de Paulo Leminski, sentado no chão, nu, tornou-se antológica. É dele também outras fotos do mesmo Leminski, de quem era um dos amigos mais próximos.

Das fotos de gente que compõe sua galeria de afetos, há uma que é verdadeira epifania da presença feminina. Sua mulher, Carmen Lucia, a cachorra Witch e a filha do coração Giovanna. Fotografia feita num final de tarde, quase sem luz, quase improvisada, que conseguiu reter a expressão de felicidade que ilumina a cena simples, doméstica, as três na escadaria diante da casa do fotógrafo.

São fotos carregadas de significados obtidos pela composição, pelo ângulo, pela felicidade no momento do registro. Ao mesmo tempo, estas fotos são enigmas em branco e preto. Calado mas eloqüente. Sem dizê-lo aludem a outras realidades e, sem mostrá-las, evocam outras imagens.

A fotografia de Dico Kremer é arte poética porque ao mostrar-nos algo, remete-nos a outra dimensão. Estabelece a comunicação contínua entre o explícito e o implícito, o já visto e o não visto.

O que é eterno, por exemplo, na imagem do poeta Paulo Leminski? Nu, ele nos olha. Nós o olhamos enquanto ele nos encara. Talvez o eterno dessa foto esteja nisso, o olhar-se, o ser olhado, o olhar. A claridade, a luz nos olhos que perguntam, questionam, contemplam, compreendem.

Ver. Iluminar. Iluminar-se. Dico Kremer nunca pretende contar uma história. Ele nos mostra realidades fixadas em uma fração de tempo capturada para sempre. Revelação do instante. Instante de revelação. Por isso a sua fotografia é arte e nos alumbra.

 

 

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Dico Kremer. Foto: Ricardo M. Garcia

 

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