Eu vendo orgasmos

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A mulher que conhece a intimidade dos poderosos do Paraná abre o jogo

 

Ninguém conhece tantos segredos de alcova de beneméritos, ricaços e figurões paranaenses quanto Mirlei de Oliveira. Não por acaso, o simples soar do nome da principal cafetina do Estado nos últimos 30 anos ainda causa calafrios em círculos influentes, gabinetes de megaempresas e corredores dos três poderes. Cada aparição dela em Curitiba – como na segunda quinzena de novembro, quando participou de audiência do processo que responde por tráfico internacional de mulheres, na Justiça Federal –, é cercada de certo alvoroço, de um temor que verdades constrangedoras venham à tona e maculem quem sempre cultivou imagem de respeito. “Se eu falar tudo que sei, acabo com metade dos casamentos do Estado”, gracejou a Baronesa do Sexo – apelido que, por sinal, diz odiar.
Hoje morando em São Paulo, cursando faculdade de Direito e alegando dificuldades financeiras, Mirlei não contou tudo o que sabe a Ideias, em entrevista concedida a este signatário e ao editor Fábio Campana na cinzenta tarde de 17 de novembro, uma quarta-feira, na sede da revista, pouco depois da audiência judicial. Mas revelou em cerca de três horas de conversa, com sua verborragia sinuosa característica, algumas das confidências picantes que pretende reunir em um livro autobiográfico, ainda em fase de projeto.
A “Chácara da Mile”, como era conhecida, no bairro Alto Maracanã, em Colombo, por duas décadas concentrou a fina flor da prostituição de luxo da capital paranaense. Por lá passavam políticos, empresários, notáveis da cena local e endinheirados em geral, atraídos pela qualidade do, digamos, cardápio oferecido pela dona do bordel. “Se o cara é um bom cliente, vou arranjar o melhor. Sei qual é a mulher mais bonita e a que faz bem feito, qual conversa bem e qual não tem estria nem celulite”, contou. Para seduzir as melhores garotas, ela cobrava 30% do valor do programa, porcentagem inferior à que diz ser habitual no mercado do sexo. Por vezes, como forma de agradar uma competente subordinada, abdicava da comissão.
Além das moças da casa, Mirlei oferecia serviços sexuais de atrizes, modelos famosas e capas de revistas masculinas, que vinham de avião do Rio ou São Paulo exclusivamente para satisfazer algum cliente mais exigente (e, claro, abonado). Caprichava no ambiente e servia regalias como uísque 21 anos. Fluente em inglês, por ter morado quatro anos na África, atendia bem executivos e empresários estrangeiros. E procurou se aproximar de autoridades como policiais de alto escalão, deputados e juízes, que a permitiam tocar o negócio sem dissabores. Assim, fez fama e fortuna – ela calcula que no auge do empreendimento, em meados dos anos 90, chegou a faturar R$ 5 mil nos dias mais movimentados.

 

“Transar e gozar não é crime nenhum, é uma necessidade de todo homem. É como comer”

Nessa época, o dinheiro corria mais solto no mundo da alta prostituição. Sem os mecanismos de controle de caixas 2 e contas públicas disponíveis na atualidade, e nem o Big Brother da era do celular e das câmeras por toda parte, era fácil, e tentador, despejar lucros (muitas vezes ilícitos) no colo das profissionais do sexo.
No começo dos anos 90, Mirlei chegou a fornecer 70 garotas para uma festa de arromba em um motel da cidade. Enviava com frequência até 20 de seus melhores ‘produtos’ a uma ilha de Santa Catarina, onde um conhecido empresário curitibano, já falecido, presenteava juízes de diversas varas. Também animava reuniões de autoridades federais em Brasília.

 

Segundo gabinete

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Mirlei de Oliveira, a Baronesa do Sexo, quer trocar a cafetinagem pela advocacia e escrever um livro.

Não foram poucas as personalidades locais que já desfrutaram seus serviços. Sempre exigindo que os personagens não fossem identificados, ela contou por exemplo que o político C. (iniciais, daqui por diante, fictícias), de grande expressão local, perdeu a virgindade aos 15 ou 16 anos com uma garota agenciada por ela, num apartamento em São Paulo. Outro político, F., muito conhecido por aqui, alvo de antigas insinuações indecorosas, teve a reputação defendida pela cafetina. Um proprietário de veículo de comunicação em Curitiba era habitué da chácara e participava de festinhas regadas a cocaína. Ainda mais assíduo era o empresário N., ligado ao futebol, cujo grande fetiche era as mulheres famosas. “Foi um dos que mais colocaram dinheiro por lá, me ajudou até a comprar a chácara. É um grande amigo e uma pessoa incrível”, disse ela. Ligação bem mais íntima ela teve com o delegado aposentado J., que já ocupou alto cargo na Polícia Civil. “Fui apaixonada por aquele homem”, contou.
Os irmãos R., empresários curitibanos, um deles já falecido, também gozam de prestígio com Mirlei, os quais considera homens íntegros e corretos. “O S. (um dos irmãos) era adorado pelas meninas. Transava bem, terminava (o programa) em 20 ou 30 minutos e não ficava enchendo o saco depois”. Outro freguês habitual fazia duas exigências: não queria mulheres com aplique nos cabelos nem seios turbinados por silicone. Por outro lado, o estereótipo do mau cliente, na visão de Mirlei, é o usuário contumaz de droga, do qual traçou um curioso perfil. “Quando o drogado tá no começo, o p. fica duro por horas. Depois de cinco ou seis anos, não levanta mais. E se continua usando, depois de velho começa a dar o c.”, teorizou.
Já o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca nunca fez questão de esconder sua proximidade com Mirlei – certa vez, quando era deputado estadual, pronunciou-se em defesa da cafetina e contra a polícia na Assembleia Legislativa. “Foi o homem mais inteligente que conheci”, afirmou Mirlei, que disse ter ficado encantada com o acervo artístico e literário da casa do ex-prefeito.
Ao contrário, Roberto Requião não gostava de Mirlei. O motivo, segundo ela, foi um mal-entendido com um assessor próximo do ex-governador. Apesar disso, ela não credita sua prisão a uma possível interferência de Requião, à época chefe do executivo estadual.

 

“Todo homem gosta de novidade, de se sentir o primeiro. Depois de 10 anos, a garota não serve mais, tem que reciclar. Quando chega uma nova, todos caem em cima. São coisas que se aprende com o tempo”

A cafetina circulava com desenvoltura em todas as esferas do poder. Trocava os favores sexuais de suas garotas (e eventualmente, com volume bem menor, de seus garotos) por privilégios em diversas áreas. Quando um conhecido, dirigindo alcoolizado, causou acidente com duas vítimas fatais, Mirlei foi chamada e acionou o amigo delegado, que amenizou a situação. Quando um dono de hospital envolveu-se sentimentalmente com uma de suas meninas, Mirlei obteve condições favoráveis de atendimento. Se precisasse de um benefício financeiro, não faltavam empresários para abrirem o cofre. Gostava de alardear que era ‘intocável’, segundo várias testemunhas de acusação dos processos que responde.

 

Queda

O império da Baronesa do Sexo começou a desmoronar em setembro de 2004, quando conheceu a cadeia pela primeira vez. Foi presa em Balneário Camboriú (SC) pelo delegado Silvan Rodney Pereira, sob acusação de extorsão e favorecimento à prostituição, com base nas denúncias de Maria Luiza Carvalho, garota de programa que frequentava a chácara em Colombo. A jovem apaixonou-se por um executivo norte-americano e disse que Mirlei tentou extorqui-lo, exigindo dinheiro para não revelar à multinacional que ele envolvera-se com uma prostituta. Em sua defesa, a Baronesa alegou apenas cobrar dívidas do executivo, e que a garota agia por ciúme do protegido.
Com o desenrolar das investigações, surgiram acusações pesadas: furto, tráfico de drogas, clonagem de telefones celulares e tráfico internacional de mulheres. Mirlei, que jamais negou trabalhar com prostituição, rebate com veemência a prática dos outros crimes. Sobre o suposto envio de mulheres a países como Estados Unidos, Inglaterra, Suíça, entre 2002 a 2004, de acordo com a denúncia do Ministério Público Federal, ela apenas nega as acusações, mas não entra em detalhes porque o caso está em segredo de justiça. A respeito dos processos na Justiça Estadual do Paraná, ela os atribui à “perseguição” por parte do delegado Silvan, a quem acusou de ter montado um prostíbulo e de tentar tomar dela o controle do mercado. Silvan Pereira rebateu firme e, na época, também acionou Mirlei por calúnia e difamação pelas declarações.
Para quem vivia rodeada de luxo e gente poderosa, os sete meses de prisão no 9º Distrito Policial e depois na Penitenciária Feminina de Piraquara foram dramáticos. “Tentei me matar várias vezes na cadeia”, conta ela.
A história ganhou manchetes de jornal e Mirlei perdeu, além de parte da clientela, a proteção oficial. Em 2006, migrou para São Paulo, matriculou-se numa faculdade de Direito e deu entrevistas dizendo que mudaria de vida e fundaria uma instituição para ajudar filhos de detentas. Mas em agosto de 2007, foi presa novamente. Em seu apartamento na capital paulista, a polícia encontrou nomes de 570 garotas de programa de vários Estados, além da famosa agenda com os nomes de mais de cem clientes, muitos deles conhecidos. Gravações telefônicas obtidas com autorização judicial, e exibidas pela TV em rede nacional, mostraram Mirlei falando sobre uma garota de programa e R$ 150, e conversando por código com um suposto cliente por desconfiar que estava sendo grampeada. Sinais de que o negócio seguia a todo vapor.

 

Mundo selvagem

Depois dos dias de glória, Mirlei redescobria atrás das grades a face obscura da moeda, que já experimentara na dura infância e adolescência vividas no interior de São Paulo. Foi apresentada à brutalidade do mundo quando o pai matou a mãe. Abalada pela tragédia familiar, aos 15 anos, apanhou a irmã mais nova e foi tentar a vida na capital paulista. Trabalhou em hotéis, envolveu-se com um rico libanês e morou com ele na paupérrima Libéria.
Na volta ao Brasil, veio parar em Curitiba depois da morte do pai. Trabalhava numa agência de eventos quando, através de uma colega que nas horas vagas vendia o corpo, conheceu o mundo da prostituição. “Adorei conviver com os homens e vi que sabia lidar com eles. Logo fui para a zona”, conta.
Com menos de 25 anos, Mirlei tornou-se agenciadora de garotas de programa (ela própria garante nunca ter se prostituído) e montou uma espécie de escritório num apartamento na rua Des. Westphalen, esquina com a Av. Pres. Kennedy, no bairro Rebouças. Cooptou belas meninas da agência em que trabalhou e, impulsionada pelo tino comercial, começou a prosperar. Montou o primeiro meretrício na Vila Guaíra, passou para a BR-277, na saída para Ponta Grossa, até fundar a chácara em Colombo.

 

“Não ganho mais nada. Mas conheço só puta, cafetão e cafetina, sempre foi o meu mundo. Tem pessoas de que gosto muito e ajudo no que for preciso”

Parte da fama de Mirlei se deve ao modo singelo como sempre encarou o mercado da prostituição de luxo. “Transar e gozar não é crime nenhum, é uma necessidade de todo homem. É como comer”, compara. Despida de preconceito, não trata clientes como pecadores ou exploradores, mas como consumidores comuns – de certa forma, trouxe profissionalização ao setor. Também foi perspicaz o suficiente para detectar as predileções da mente masculina num prostíbulo. “Todo homem gosta de novidade, de se sentir o primeiro. Depois de 10 anos, a garota não serve mais, tem que reciclar. Quando chega uma nova, todos caem em cima. São coisas que se aprende com o tempo”.
Hoje, aos 51 anos, a Baronesa do Sexo garante estar fora do mercado. Durante a entrevista a Ideias, porém, seus cinco telefones celulares não pararam de tocar, e Mirlei, sem cerimônia, agendou mais alguns encontros. “Não ganho mais nada. Mas conheço só puta, cafetão e cafetina, sempre foi o meu mundo. Tem pessoas de que gosto muito e ajudo no que for preciso”, explicou. Ela apresenta-se em trajes simples – camisa, jeans e tênis – e afirma trabalhar somente com venda de passagens aéreas. Também diz receber R$ 500 mensais da irmã, juíza do trabalho, e mais US$ 1.000 de um amigo que lhe deve um favor. Veio de ônibus de São Paulo a Curitiba e recorreu a um advogado da Defensoria Pública no processo da justiça estadual paulista – o relato destes obstáculos foi o único momento da entrevista em que derrubou lágrimas.
A origem destes aborrecimentos ela dedica a dois empresários curitibanos, a quem acusa de terem se apoderado de R$ 500 mil da venda da chácara de Colombo. Os dois fogem dela como o diabo da cruz. Outra das duras lições ensinadas pela vida. “Por isso me apaixonei pelo Direito e quero viver dele. Na faculdade vejo todas as sacanagens que foram feitas comigo. A vida não funciona quando você quer só foder as pessoas”, disse, expressando-se, está claro, em sentido figurado.
Mirlei reconhece o poderio explosivo das informações de que dispõe, e ainda guarda a agenda cujo teor é capaz de derrubar alicerces da política e da economia do Paraná. Mas por ora, para alívio de dezenas de poderosos, não pretende expor todas elas – talvez mais tarde, e salvaguardando aliados, no futuro livro. “Sei até quantos minutos o cara leva pra gozar. Mas não vem ao caso, cada um faz o que quiser. Também nunca vou dizer nome de puta. Só tem uma coisa de que não gosto: gente indecente”, ataca. Se observarmos sob este prisma, de fato há bem mais decência em vender um orgasmo do que em muitos atos do nosso poder público.

 

Web ‘roubou’ mercado

A profissão mais antiga do mundo não está imune aos efeitos das novas tecnologias. As grandes casas de prostituição seguem movimentadas, mas sofrem pesada concorrência de garotas de programa ‘autônomas’, que divulgam seus serviços pela internet.
“Antigamente os homens pagavam bem, mas hoje o mercado está desvalorizado. Muitas meninas põem fotos num site qualquer e fazem programa por R$ 200 ou R$ 300”, observa Mirlei de Oliveira, a Baronesa do Sexo. Uma das razões para a queda no preço médio é lógica: sem a figura do atravessador (no caso, o cafetão), que cobra até 50% do valor do encontro sexual, lucro vai direto para o bolso de quem deu duro.
Ideias apurou que um anúncio nos principais sites de divulgação de ‘acompanhantes’ em Curitiba custa em torno de R$ 100 a R$ 250 mensais. A variação pode depender da popularidade do site e do destaque que o perfil da anunciante recebe na página de abertura – quanto mais no alto, mais caro; e se o destaque é dado à tarde (período em que a maior parte dos programas sexuais são agendados), o valor é maior ainda.
Em seu perfil, a garota disponibiliza uma série de fotos, idade, medidas, número de telefone celular próprio, revela suas preferências de atendimento (homens, mulheres, casais…), de local (se vai ou não à residência do cliente), de pagamento (normalmente em dinheiro vivo), se está disponível para festas e viagens, entre outras informações. Muito raramente, o preço é divulgado de antemão – mas algumas lembram que o pagamento deve ser feito antes do programa e que não há desconto em hipótese alguma. E a maioria prefere não mostrar o rosto.
A discrição, por sinal, é outra vantagem da prostituição on-line. Muitas profissionais não querem correr o risco de topar com conhecidos nas boates ou nas ruas. E anunciando na internet podem sincronizar a agenda com as atividades cotidianas. A clientela, por sua vez, é atraída pelo anonimato e pela possibilidade de escolher a garota a seu gosto.
Já os sites tentam driblar eventuais complicações legais afirmando que não influem nos contatos entre as garotas e os clientes. Deixam claro que não são agências, mas apenas “veículos de divulgação e propaganda”, e alguns disponibilizam telefone de disque-denúncia contra prostituição infantil. O Código Penal determina que há prática criminosa somente quando o site expuser menores de idade ou pessoas sem autorização prévia, ou ainda se agenciar ou aliciar mulheres para a prostituição.

 

 

 

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