CRACK ao alcance de todos

O novo governo tem um problema grave para enfrentar. O uso do crack se espalha pelo Brasil. No Paraná os dados são alarmantes.

 

Até pouco tempo, a classe média achava que era vítima do tráfico quando um usuário de drogas roubava a bolsa de uma madame, ou o relógio de algum motorista distraído no semáforo. No entanto, de alguns anos para cá, essa convivência está cada vez mais intensa. De meros personagens em uma história marcada pela violência, “madames” e “motoristas” passaram a ser também mães e pais de viciados.
De acordo com um integrante da Narcóticos Anônimos de Curitiba, que não pode ser identificado para preservar a integridade do trabalho por ele desenvolvido, o número de viciados em crack pertencentes à classe mais alta da sociedade está cada vez maior, e pior, não para de crescer. “Temos alguns critérios, por exemplo, não perguntamos detalhes sociais para as pessoas que procuram ajuda. Só sabemos a que classe elas pertencem depois que entram para a irmandade”, explicou. Ele disse também que os jovens ricos, que supostamente deveriam ser mais esclarecidos, estão sendo enganados facilmente pelo traficante, geralmente bem menos instruído do que eles. “Começam com a maconha, depois o ‘mesclado’, que é o baseado misturado com cocaína e em seguida o ‘cabralzinho’, ou ‘capetinha’, que é o cigarro de maconha misturado com crack raspado. Depois disso, um simples baseado nunca mais terá o mesmo efeito”, comenta o rapaz que a todo instante comemora os dois anos e meio, ou melhor, os novecentos dias sem usar a droga.
Em Curitiba, a clínica terapêutica Quinta do Sol é referência no tratamento de dependentes químicos e atende tanto particular quanto convênio. É exatamente na forma de atendimento que a diferença de classes é percebida. Percebe-se  principalmente que o uso de entorpecentes pelos mais abastados está numa linha crescente.

Maos_do_viciado

Mão de um viciado. Foto: Átila Alberti

Segundo a psicóloga da clínica Quinta do Sol, Tamara Marussig, especialista em dependência química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as famílias que possuem plano de saúde que cobre o tratamento são pessoas mais simples, e que na maioria das vezes moram em lugares onde o tráfico é mais intenso. Por outro lado, os pacientes particulares são os ricos, que podem pagar diárias que custam entre R$ 384 a R$ 486 reais, além de outros custos, como remédios, por exemplo. “Cada pessoa tem um tipo de tratamento, de acordo com o comprometimento com a droga. Em alguns casos o usuário precisa passar o dia na clínica e à noite vai para a casa, mas em outros, é necessária a internação por até 60 dias”, explicou.
A psicóloga disse também que o marketing feito pelo traficante é decisivo na hora do usuário de classe mais alta escolher o crack. “Geralmente acontece quando ele vai comprar a cocaína e não encontra. Também existem casos em que a droga não faz mais efeito e o usuário precisa de algo a mais, e são nessas horas que o poder de persuasão do traficante fala mais alto, empurrando o crack como uma sugestão para suprir aquela necessidade”, completou.

A mistura que mata

No final da década de 70, usuários de cocaína da Colômbia deixaram de inalar a droga e criaram o “bazuco”, um cigarro feito com os restos do refino, que contêm substâncias corrosivas, como ácido sulfúrico e acetona. A partir daí a pasta de cocaína começou ser fumada misturada com maconha, principalmente nos EUA e na Amazônia. Pouco tempo depois as primeiras pedras começaram ser produzidas. Era o “crack”, resultado demoníaco da mistura que leva, além da sobra de cocaína refinada, bicarbonato aquecidos em água e cortados em pequenas porções. Seu nome dá-se por conta do som que é produzido quando a pedra de coca está sendo queimada.
Trinta anos depois o consumo dessa substância é maior que o da cocaína, pois além de mais barato é facilmente encontrado. Taxistas, catadores de papel, comerciantes e até policiais oferecem a droga abertamente. No entanto, o efeito do crack é mais curto do que o da cocaína e extremamente estimulante. Provoca a dependência em algumas tragadas.

As faces da droga

Jovem, pobre, negro e sem escolaridade. Este é o perfil da maioria de vítimas de homicídios registrados no Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Grande parte está relacionada com o tráfico de drogas, em especial o crack.
Além do Ipea, o resultado de outras pesquisas realizadas por instituições diferentes como a Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla), Organização das Nações Unidas (ONU) e até mesmo o Ministério da Saúde, também mostram que o crescimento significativo no número de homicídios entre a população jovem, com idade entre 15 e 24 anos, será determinante na mudança do perfil da sociedade brasileira. Em aproximadamente 25 anos, teremos uma população formada por mulheres e velhos.
Segundo a Ritla, entre 1996 e 2006, os homicídios entre jovens com idade entre 15 e 24 anos aumentaram em 31,3%. A estimativa é de que daqui a 26 anos o Brasil tenha aproximadamente 238 milhões de habitantes e mais de 40% da população tenha entre 30 e 60 anos.
Em Curitiba e Região Metropolitana os números são tão alarmantes quanto de outras capitais. De acordo com o site da Secretaria de Segurança Pública, só em 2007, 1.156 pessoas foram assassinadas em Curitiba e nos 28 municípios que integram a RMC. Vale lembrar que não estão incluídas vítimas de confronto com a polícia e latrocínios.
Recentemente, a Delegacia de Homicídios (DH) divulgou que cerca de 85% dos casos de assassinatos estão relacionados com o tráfico de drogas. Esta informação é contestada pelo professor Pedro Bodê, sociólogo e coordenador do Centro de Estudos de Segurança Pública e Direitos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Segundo ele, é mais fácil associar os crimes ao tráfico de drogas do que entender que cada um tem uma motivação diferente. “Para divulgar uma pesquisa dessa grandeza, seria preciso, ao menos, exames toxicológicos nas vítimas. Nem todas as vítimas mortas em locais de conflito são viciadas ou tem ligação com o tráfico”, explicou. O professor disse ainda que “a sociedade está em transformação, mas além do efeito dos homicídios, a população está envelhecendo, e é preciso uma análise muito séria para traçar uma relação ente uma coisa e outra”, completa.
Quanto ao número de homicídios, Bodê disse que é evidente que muitos jovens morrem com armas de fogo, mas é preciso ser mais criterioso com os números levantados em delegacias. “A polícia não pode ser uma categoria analítica”, enfatizou. “Dizer que alguém morreu por estar relacionado com o tráfico de drogas é um argumento moral. Isso incomoda parte da sociedade em saber que mais uma pessoa morreu por estar envolvida com algo moralmente questionável”, argumentou.
O deputado federal pelo PSDB, Fernando Francischini, que foi delegado da Polícia Federal e secretário municipal antidrogas, não só discorda do sociólogo como também lista uma série de crimes que estão relacionados com o tráfico de drogas. “Desde o menino que realmente roubou para comprar algumas pedras de crack até o comerciante que foi morto durante um assalto, todos podem estar relacionados com o mesmo problema. Já vi casos onde os pais do usuário são agredidos e mortos por causa do envolvimento do filho. São vítimas diretas do tráfico de drogas”, enfatiza Francischini.
Um exemplo dramático dessa transferência de responsabilidade aconteceu no dia 17 de fevereiro deste ano, na cidade de Pinhais, região metropolitana de Curitiba, no Paraná. O fiscal de loja Mauro Sérgio dos Santos e a mulher dele, Rosângela Padilha dos Santos pagaram pelos erros do filho. Mal o dia clareava e um homem armado com um revólver invadiu a casa deles e sem compaixão executou-os ajoelhados ao lado da cama, no quarto do filho. Os tiros foram disparados na nuca e os dois morreram na hora.

 

Pedra

Crack. Fotos Átila Alberti

Números da droga

• 76% dos usuários de crack têm idade ente 13 e 20 anos.
• 30% pertencem à classe média.
• Composição: contém 36% de cocaína e o resto são resíduos diversos que podem ser desde lã de vidro, parafina, sabão e cola.
• Efeito: sua duração é de 5 a 10 minutos.
• Custo: varia entre R$ 5 e R$ 10.
• Peso: cada pedra pode pesar entre 20 e 40 gramas.

Juventude roubada

São inúmeros casos de adolescentes detidos pela Polícia Militar no Paraná. Em alguns casos eles mostram claro desinteresse em largar as drogas e a vida de crimes. Segundo Valdecir Botega, ex-superintendente da Delegacia do Adolescente, os crimes mais violentos são cometidos por adolescentes, quando isso ocorre a polícia tenta ajudar o menor infrator de alguma forma, mas acaba “brigando” com a falta de programas de governo que reintegrem o infrator à sociedade e a falta de interesse do próprio jovem em mudar de vida. A polícia não pode obrigá-lo a entrar em algum programa social, voltar a estudar ou internar-se num tratamento contra as drogas.
Outro fator que contribui para que o adolescente opte por uma vida irregular é ter uma família desestruturada. A família é a linha de frente no combate às drogas, de acordo com Botega. Por mais que os jovens tenham vontade de largar o vício, se não tiverem o apoio da família e, em segundo lugar, dos amigos, nunca largarão aquele mundo de crime. É uma decisão que ou lhes dará cadeia, ou lhes levará à morte, sejam assassinados por traficantes, por overdose ou doenças causadas pelos entorpecentes.
Quando um jovem infrator chega à Delegacia do Adolescente (DA), ele pode ser entregue aos cuidados da família, para que depois seja apresentado pelos responsáveis ao Ministério Público, ou, no caso de flagrante, ser internado em educandário enquanto seu caso é julgado. Botega explica que o jovem que chega à delegacia é autuado e examinado por psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. Em seguida, é imediatamente apresentado ao MP, que tem 45 dias para definir a punição.

Crackicionário

• Barato: período em que a droga está fazendo efeito no corpo
• Baseado: cigarro de maconha
• Cabral ou cabralzinho: variação do baseado com maconha e cocaína
• Capeta: baseado feito com maconha e farelo de crack
• Correrias: o mesmo que “fitas” – roubos e assaltos
• Queimar: processo de consumo da droga
• Fissura: necessidade extremas de usar mais uma pedra
• Limpo: tempo em que conseguiu ficar sem usar drogas.

Reação imediata

A cocaína inalada leva em média 15 minutos para fazer efeito. O crack age imediatamente depois de inalado. Gera aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremores, excitação, maior aptidão física e mental. Além de euforia, sensação de poder e aumento da autoestima. No entanto, a dependência se instala em pouco tempo no organismo e se for inalado junto com o álcool, aumenta o ritmo cardíaco e a pressão arterial o que pode levar a morte.
O médico e professor universitário Wanderley Ribeiro Pires, autor do livro Drogas – Existe uma saída, relata: “Usuários de crack se tornam obcecados e é comum ver garotos arriscando-se a matar ou morrer por alguns trocados”. Segundo ele, o aumento no número de homicídios está diretamente ligado ao consumo do crack. “No Rio de Janeiro, onde o tráfico é controlado pelo crime organizado, a venda é menor. Traficantes perceberam que a droga mata ou incapacita rapidamente os consumidores e estão procurando focar o seu negócio na cocaína, para prolongar a vida útil da clientela”, relata.

Crack, homicídios e tráfico

O usuário de crack destrói-se por completo. Primeiro o corpo, depois o bolso e consequentemente, a vida. As pedras que custam entre R$ 5 e 10 aparentemente parecem acessíveis. No começo do vício, o pensamento é que qualquer pessoa consegue comprar uma pedra de crack por dia. No entanto, a necessidade se torna tão intensa que não basta uma pedra, ele vai fumar quantas conseguir comprar. Para isso, o usuário usa os seus recursos e quando eles acabam, começa a vender os seus bens, objetos pessoais, em seguida, coisas da família, até mesmo móveis, aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos. O último estágio acontece quando ele não tem mais para onde recorrer e pratica pequenos assaltos. Suficientes apenas para conseguir comprar droga para satisfazer a vontade imediata.
É nesse momento que o traficante dá o bote e transforma o usuário em um aliado. Ele precisa vender para conseguir manter o vício. Se vende cinco pedras ganha uma, se vende dez, ganha duas, e assim por diante. “O crack é a droga do homicídio, da criminalidade. O traficante dono da boca recruta seus “funcionários” para pagá-los com crack. Pessoas que abandonam suas casas e passam 24 horas no mocó são zumbis, “soldados do tráfico”, explica Francischini.

Usuário x Traficante

“Roubei um computador e vendi por R$ 500. Fui na favela e comprei 62 pedras de crack, suficiente para eu ficar dois dias e uma noite internado, fumando sem parar”. Esse triste depoimento foi dado por um adolescente em fase de recuperação. Além da melancolia da situação, pode-se tirar outras lições. A principal delas é que nem sempre uma pessoa que é presa com muitas pedras de crack é um traficante. Fato pouco pensado pela polícia que aborda e leva o detido para a delegacia onde ele é apresentado para a sociedade como traficante. Em alguns casos, nem é necessário que ele esteja portando grande quantidade de drogas, algumas pedras no bolso já são suficientes para que ele seja suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas.
Para Francischini, o que pesa na decisão do juiz são as circunstâncias em que aconteceu a prisão. “Caso tenha mais indícios que relacionem o preso com o tráfico de drogas, como dinheiro trocado, balança de precisão e outros utensílios utilizados no manuseio, com certeza ele será autuado pelo crime”, afirma.
O tenente-coronel Jorge Costa Filho, coordenador estadual do 181 – Narcodenúncia, afirma que o usuário de drogas tem uma tipificação penal como vítima. “Na teoria, ele deve ser levado para tratamento psiquiátrico, psicológico até a sua recuperação. Na prática, ele tem que ser retirado de circulação. No entanto, para conseguirmos chegar até o traficante temos que receber a informação do usuário”, comenta.
A questão não é o tratamento dado para cada tipo de envolvido com a droga, e sim a identificação de quem é quem nesse submundo em que vítima e criminoso se confundem, pois a ilegalidade e a imoralidade são paralelas e vão juntas até a decisão judicial. Ser um viciado é moralmente condenável, mas ser um traficante além de ilegal é abominável, pois obtém benefício financeiro com a destruição de outras pessoas.
Porta de entrada
O cigarro, o álcool e, por fim, os inalantes são as drogas mais citadas como as primeiras consumidas por usuários de crack – geralmente crianças com idade entre 10 e 13 anos. A facilidade em adquirir drogas lícitas contribui para que crianças e adolescentes tenham suas primeiras experiências.

 

Em muitos casos, a primeira droga é oferecida por alguém próximo, um parente que pede para o menino acender o cigarro ou oferta um copo de cerveja para provar.
Segundo a coordenadora estadual antidrogas, a psicoterapeuta Sônia Alice Felde Maia, as drogas lícitas geralmente são as primeiras experimentadas. “Na maioria das vezes a maconha é a primeira droga ilícita, pois existe o sentimento de rebeldia, de romper as regras e fazer algo proibido”, comenta.
Para crianças e adolescentes com esse perfil, experimentar uma droga ilícita é uma questão de tempo e oportunidade. A maconha pode ser uma porta de entrada para um mundo que nem sempre tem volta. Para o agente comunitário em reabilitação e diretor da Clínica Terapêutica Rota de Escape, Armando Jorge Iung, não existem regras para um usuário iniciar-se. “Alguns experimentam por curiosidade, outros para se autoafirmar. No entanto, todos têm o mesmo destino, a dependência”, conta.
A curiosidade mata. Este ditado popular é antigo e ao mesmo tempo contemporâneo, pelo menos quando relacionado com o efeito que uma tragada em um cachimbo de crack pode proporcionar. O efeito da droga é muito intenso, porém, muito rápido, o que leva o curioso a fumar uma segunda pedra.
Existem diferenças entre as pessoas, algumas são mais tolerantes e, com isso, correm maior risco de se tornarem viciadas. Outras experimentam a uma única vez e depois nunca mais querem”, explica Armando. Segundo ele, essa é uma regra que funciona para drogas lícitas e ilícitas. “Tem gente que toma uma latinha de cerveja e fica bêbado. Com certeza vai ficar com medo de beber novamente, ou ao menos evitar. No entanto, têm pessoas que tomam muitas latinhas e não sentem o efeito do álcool, ou seja, essa pessoa tem maior probabilidade em se tornar um alcoólico”, esclarece.

Promiscuidade

Durante muito tempo, o Ministério da Saúde focou, e ainda foca, a prevenção da Aids, às doenças sexualmente transmissíveis, e também aos viciados em drogas injetáveis, no entanto, com o surgimento do crack no Brasil nos anos oitenta, e a proliferação na década seguinte, o foco mudou, e hoje viciados morrem sem ao menos buscar o tratamento. “O usuário da droga se torna uma pessoa promíscua, sem valores éticos. A higiene é deixada de lado e o sexo é algo extremamente dispensável, no entanto, pode servir como moeda de troca”, comentou Armando. Dez ou cinco reais, ou até menos, é o valor que garotas cobram por um programa. “Proporcionar prazer não está em questão, e sim, arrumar o dinheiro necessário para comprar uma pedra”, completa.

Histórias que se repetem

Primeiro o baseado, depois o “cabralzinho” (cigarro de maconha com crack) e por último o cachimbo de crack. Esta foi a caminhada de André, um jovem de 17 anos, que ficou cinco anos envolvido com o tráfico de drogas e procurou ajuda por conta própria para se libertar. “Nas drogas a gente fica preso e precisa de ajuda para sair, não só do vício, mas dos vínculos que ele cria, como amizades, namoradas, músicas e a forma de se vestir”, explicou o garoto que, mesmo depois de um ano na clínica ainda tem receio de rever os velhos amigos. O primeiro “péga” aconteceu aos 12 anos. Alguns amigos da rua ofereceram maconha. Durante um ano, fumou com frequência, mas chegou um tempo que não sentia mais nenhum “barato”. Resolveu conhecer o “cabral”, uma derivação do baseado em que a maconha é misturada com cocaína. “Senti uma diferença legal e achava que estava tudo bem. Cada cabralzinho eu pagava R$ 6. Para isso precisava de dinheiro e comecei roubar”. As primeiras vítimas foram os pais, depois os amigos, vizinhos e, por último, quando já estava usando o crack, saía de moto e, armado de revólver, praticava assaltos em estabelecimentos comerciais e a pedestres. “Eu e um amigo compramos um revólver calibre 32 em sociedade. Cada um deu metade do dinheiro e saímos fazer as “fitas” (roubos e assaltos) juntos”, explicou.
Depois de mais de dois anos usando crack, pesando pouco mais de 50 quilos, percebeu que estava indo para um caminho sem volta. “Acho que foi por Deus. Estava muito triste naquele dia e não tinha dinheiro para comprar mais pedra. Tava na fissura. Sabia que ia ter que roubar de novo. Encontrei um amigo e pedi ajuda. Era um ex-viciado e poderia  me indicar uma saída”, explicou. “Os primeiros dias foram difíceis. Uma vez eu fugi da clínica e fui até um pedaço. Fumei um cigarro e, enquanto tragava, veio a imagem da minha mãe e do meu pai na cabeça. Joguei o cigarro fora e voltei correndo”, conta com voz embargada. Na primeira saída da casa, quando havia completado seis meses de tratamento, foi recebido com festa pela família. Mas quando andou pelas ruas do bairro, onde costumava fazer as “correrias”, sentiu medo. “Um cara me parou, tirou sarro porque eu estava gordinho e me convidou para ir na casa dele. Disse que tinha 5g para a gente queimar. Isso dá aproximadamente 20 pedras de R$ 10. Dava para ficar doido uma noite. Desvirtuei e sai correndo. Só saí de casa para voltar para a clínica”, completou, dizendo-se feliz por ter conseguido chegar ao fim do tratamento “limpo”, diz. “Crack é um pesadelo do qual consegui acordar a tempo”, afirma.

Vidas destruídas

Com a família destruída e adolescência perdida, um menino de 12 anos, morador de rua, foi apreendido no centro de Curitiba com 50 pedras de crack. A droga estava escondida no forro do tênis e ele disse que trabalhava para um traficante, seu único amigo desde que seus pais foram assassinados no bairro Parolin, em Curitiba. A história aconteceu em novembro de 2007, mas se repete, já que crianças são recrutadas nas favelas para serem “aviõezinhos” do tráfico todos os dias. Naquela ocasião, o menino disse que era usuário de crack e não sabia ao certo seu nome e sobrenome, nem a data de nascimento. Contou também que morava na mesma região, mas, quando a sua mãe foi assassinada a tiros, há aproximadamente dois anos, ele deixou o pai, um irmão mais velho e três mais novos, para morar na rua. Segundo Valdecir Botega, ex-superintendente da Delegacia do Adolescente, ele sempre “dava uma passadinha” em casa, mas há seis meses, o pai foi assassinado a facadas durante um assalto e ele nunca mais apareceu. Carente de amigos, ele foi “adotado” por um traficante, que lhe deu “oportunidade” de juntar uns trocados e garantir o sustento do vício vendendo crack na região central da capital paranaense.
Botega revela que os crimes mais violentos são cometidos por adolescentes, devido à falta de experiência e por estarem numa idade impulsiva, pois já adultos, eles conseguem dosar a violência e agem com mais calma. “Alguns bandidos mais velhos chegam até a agradecer a vítima que lhes entrega seus pertences num assalto, por exemplo”, ironiza.
A adolescência, analisa o ex-superintendente, é a fase em que o jovem está mais suscetível ao recebimento de informações, que vão definir o seu caráter. No caso do adolescente de 12 anos, preso pela PM, que já teve os pais assassinados, não vê os irmãos há meses, não tem casa e vive no mundo do tráfico de drogas e crimes, a violência é tão normal quanto assistir à televisão, para um jovem que tem estrutura e boa educação.
O grande problema da maioria destes jovens é que o crime e as drogas lhe proporcionam, de certa forma uma vida excitante, da qual eles não possuem o menor interesse em largá-la. De acordo com Botega, os garotos sabem que vivem uma vida desgraçada. As drogas tiram eles temporariamente dessa realidade e lhes dão sensação de prazer e poder. Num estágio mais avançado, acabam tendo recompensas financeiras, quando começam a traficar entorpecentes. “É difícil concorrer com a violência”, lamenta o superintendente.

 

Deixe uma resposta