O adesismo é apenas o sintoma

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O PMDB integrou a chapa de Osmar Dias. Indicou o vice, Rodrigo Rocha Loures, e um candidato ao senado, Requião. Disputaram acirrada eleição contra Beto Richa. Repetiram aqui a lógica da disputa nacional. Richa e Serra versus Osmar e Dilma. Dois projetos que se pretendiam programática e ideologicamente opostos. Beto Richa levou a eleição. Semanas depois, o derrotado PMDB (o partido inteiro) anuncia a adesão ao futuro governo de Beto Richa. Indica um secretário de estado. O adesismo se deu sem muita resistência e o constrangimento foi quase imperceptível. A verdade é que o adesismo é apenas um sintoma da política de hoje em dia. E no mundo inteiro.

Terminada a última eleição pre­sidencial francesa, o conhecido socialista Bernard Kouchner foi convidado por Sarkozy para compor o Ministério. O novo ministro era do PS francês, derrotado na mesma eleição com sua candidata Ségolène Royal. Outros dois socialistas aderiram ao governo conservador de Sarkozy. Também lá o adesismo era apenas um sintoma.

O adesismo atual é, antes de tudo, um sintoma da absoluta ausência de diferenças relevantes entre projetos, programas e ideologias. Pesquisa da Fundação Jean Jaurès e da revista Le Nouvel Observateur, um pouco antes da eleição, mostrou que os franceses não identificavam grandes diferenças de projetos nas candidaturas de Ségolène Royal e Sarkozy. Ora, se não há grande diferença entre os projetos, Bernard Kouchner se viu liberado para integrar o governo vitorioso. Mesmo que o candidato vitorioso fosse do partido adversário nas eleições. É mais ou menos o que fez aqui o nosso “Kouchner para­naense”, Luiz Cláudio Romanelli.

Beto e Osmar ensaiavam uma coligação até o prazo limite das convenções. É óbvio que isso ajuda a revelar a ausência de incompatibilidade nos projetos. Osmar poderia ter sido candidato ao senado na chapa de Beto. E o PMDB também poderia ter apoiado o PSDB. A ausência de referências políticas definidas autoriza o vale-tudo das composições eleitorais.

Gradativamente os políticos foram todos migrando de posições mais radicais para um grande encontro no “centro insípido” da política. Sem diferenças ideológicas e programáticas, a disputa eleitoral acaba se transformando numa grande pelada de final de semana. Os times são formados aleatoriamente. Não há projetos realmente distintos. Terminada a pelada, vão todos juntos ao botequim. Foi o que fez Romanelli – foi beber com os circunstanciais adversários das eleições de outubro.

O fenômeno é internacional, mas é recente. Em época de disputas ideológicas claras, ninguém poderia imaginar um convite de François Mitterrand a Jacques Chirac. Aqui no Paraná, o saudoso Norton Macedo jamais seria secretário de Richa (José, o pai) logo depois da derrota de Saul Raiz em 1982. Seria um escândalo. Na França e no Paraná havia inconciliáveis posições entre os adversários políticos. Já em tempos de indistinção ideológica e efêmeras divergências, o escândalo é nenhum. Com absoluta naturalidade o Presidente do PMDB, o ex-radical Waldyr Pugliesi, anuncia o apoio ao governo e se diz Beto desde criancinha.

Adesista é um “polígamo político”, dizia Renato Carneiro Campos. Vivemos agora a poligamia natural, autorizada. Um islamismo político sem disfarce. Não vejo nenhum problema. Apegos ideológicos acobertaram grandes incompetências individuais. Sem distinção ideológica, vale o mérito. E o critério meritocrático não distingue lado. O melhor quadro pode estar entre os adversários na eleição. Viva o adesismo, então.

Agora, devo registrar uma ressalva. A nova política – do adesismo natural de hoje em dia, da falsa disputa, da metamorfose eleitoral – não tem nenhuma graça. Prefiro as peladas de final de semana.

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