Sons de um circo

Homem de circo, seu número era tocar arco e serrote. A música saía triste, a lâmina do serrote gemia, principalmente em valsas antigas.

 

A plateia gostava, até chorava. Quando tocava Luzes da Ribalta, o circo todo se encolhia de tristeza, e as lágrimas se misturavam à serragem.

 

Durante anos, esse homem triste encantou multidões, mas o circo começou a decair. Cada vez menos gente, cada vez menos crianças. A lona foi apodrecendo e logo apareceram buracos, por onde a chuva regava a platéia cada vez menor. A meia arrastão da trapezista, tantas vezes remendada, começou a se desfazer. Da mesma forma, a gravata borboleta do mágico, cuja cartola já não conseguia segurar nenhum coelho. A feição triste do palhaço logo contagiou a todos.

 

E, então, o último espetáculo, o último salário e a tristeza pelo fechamento inevitável.

 

Sem outro circo onde tocar, o homem do serrote acabou numa marcenaria. De músico a fazedor de móveis no espaço de dias.

 

Conformado, mas triste, o homem testa a porta de um guarda-roupas que acabara de fazer. Surge um som. Movimenta a porta novamente e mais um som, diferente do primeiro. Termina de fazer uma mesa e ela emite sons, sons ritmados. Mais móveis, mas batidas cadenciadas e sons harmoniosos. Vem a noite e os móveis todos refletem os sons do serrote em sua antiga função, velhas músicas, um sarau.

 

Nas lojas, o estranho mobiliário faz grande sucesso. O homem do serrote, agora alegre, chama os antigos companheiros. Resolvem abrir uma fábrica de lonas que emitem os sons das velhas rumbas que animavam o antigo circo. A mulher barbada abre um salão de beleza. O equilibrista resolve ser economista. E os palhaços, os palhaços não têm mais graça.

turba

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