Cuba e o homem novo

lobo2

Depois de mais de uma década da primeira visita, voltei a Cuba. O regime está esfacelado. Funcionam duas economias paralelas: a oficial, em pesos cubanos; a real, em CUC, moeda convertible, equivalente ao dólar. Os salários oficiais são pagos em pesos cubanos – que servem para comprar apenas os “insumos” racionados das tablitas. Todo o resto está vendido apenas na moeda convertible, na proporção de um CUC para vinte e cinco pesos cubanos. Isso provoca uma corrida insana de todos os cubanos por CUC’s. Os taxistas cobram por fora, lesando a Cubacar, a estatal. Em todas as tiendas estatais os cubanos tentam vender produtos “fora de catálogo”. Há uma grande evasão de professores, migrando para o incipiente mercado privado, oficial ou clandestino. Os médicos colocam a família para vender produtos farmacêuticos no mercado paralelo. Um vale-tudo generalizado e compreensivelmente egoísta atrás da própria sobrevivência.

Vendo aquilo tudo, lembrei de uma entrevista do Saramago, pouco tempo antes de morrer. À Revista Ler, portuguesa, o Nobel de literatura disse que tinha sempre desconfiado da criação do homem novo (naturalmente bom e altruísta), pressuposto antropológico do comunismo. Cuba criou um homem novo, mas bem distante daquele idealizado por Che.

Como é que se acreditou nesta maleabilidade da natureza humana durante tanto tempo? Não devemos culpar Che, é claro. O problema original está em Rousseau, com sua história do “homem bom por natureza”, corrompido pela sociedade. Um século depois, Marx e Engels negaram as condições naturais da existência social do homem. Mais um século adiante e Mao concluiu que o homem era uma folha de papel em branco – a ser bem moldado em tempos de comunismo. Isso tudo impulsionou Che a dizer que “para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo”. Acreditando em Che, Fidel queria antecipar a abolição do dinheiro (o homem novo, bonzinho, não precisava…). Mais ou menos pelos mesmos ideais, Giovanni Rossi e os anarquistas da nossa Colônia Cecília deixavam o dinheiro de todos em uma lata da comunidade. Até que um espanhol levou a lata embora e mostrou a todos que bellum omnium contra omnes ou o homem é o lobo dos homens (Hobbes, um século antes de Rousseau). Na Havana que eu vi agora, está todo mundo levando a sua própria lata para casa. Tem prevalecido por lá uma sombria perspectiva da relação intersubjetiva, como imaginava Hobbes.

É rica a história de perseguição dos comunistas à turma de Freud ou aos darwinistas. Eram vistos como instrumentos de negação do pressuposto antropológico do comunismo (embora Marx tivesse flertado com o darwinismo no começo). Realmente não podiam aceitar a psicanálise. Falando das pulsões, Freud desmentia Marx: “a agressividade não foi criada pela propriedade”. No “Mal Estar da Civilização” mostrou que as premissas psicológicas do comunismo eram uma ilusão insustentável. Os comunistas devolviam com a velha saída conspiratória: os capitalistas malvados haviam ideologizado a psicanálise para combater o comunismo.

Acusações parecidas reservavam aos seguidores de Darwin, a ponto de terem criado uma das figuras mais bizarras da ciência moderna: Trofim Denisovich Lyssenko, o pai do evolucionismo marxista-leninista. Lyssenko, biólogo ucraniano dos tempos de Stalin, quis dar compatibilidade teórica entre o evolucionismo e o comunismo, temperando os aspectos nefastos de Darwin para o pressuposto antropológico do sistema: o homem novo e bonzinho. Mudava o ambiente para produzir plantas boas por natureza. Tudo para confirmar Marx. Eles sim ideologizaram a biologia. Coisa esquisitíssima.

Alguém pode dizer que tudo isso é matéria vencida. E de fato é mesmo. Mas vendo tudo aquilo acontecer em Havana foi só o que me ocorreu: a entrevista de Saramago, Lyssenko, Mao. Um dia isso tudo será apresentado aos nossos netos como hoje nos apresentam, por exemplo, a história das ideias dos visigodos. É triste apenas que cem milhões tenham morrido em nome da construção do homem novo.

Leia mais

Deixe uma resposta