Eleições peruanas. Pobre América Latina

pereira

A economia peruana, em 2011, deve liderar o crescimento na América Latina. No primeiro trimestre saltou dez por cento. À exceção do ano-crise de 2009, há oito anos consecutivos cresce a mais de seis por cento ao ano. Sem inflação, tem reservas de trinta por cento do PIB. Conquistou a perseguida nota de investment grade nas três principais agências de risco do mundo. É neste cenário que o país está em processo eleitoral. Todos diriam que o candidato do governo, por tudo isso, seria o grande favorito. It’s the economy, stupid. A conhecida frase do marqueteiro de Clinton, James Carville, resume bem a relação entre economia saudável e resultado eleitoral positivo. Não é assim no Peru, no entanto.

Alan Garcia, o atual presidente, sequer lançou candidato. Populista do Partido Aprista (quase um PDT peruano, com uma dose mais generosa de antiamericanismo), Garcia fez agora um governo bem diferente da sua desastrosa passagem pela presidência no começo da década de noventa. Deu continuidade à modernização do governo do antecessor Alejandro Toledo. Estive em Lima nos tempos de Toledo. O país vivia um momento único de crescimento econômico e libertação do terror maoísta-senderista, derrotado pelo tresloucado Fujimori (sobretudo depois da prisão do líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzman). O restabelecimento da democracia parecia apontar para novos tempos no Peru. Foi um engano.

Além de não apresentar postulante governista, nenhum candidato presidencial quis o apoio de Alan Garcia. Toledo, pai da recente modernização peruana, chegou apenas em quarto lugar nas eleições. A prosperidade econômica não beneficiou Garcia ou Toledo. Dois candidatos de oposição disputam o segundo turno: Ollanta Humala e Keiko Fujimori. Duas figuras politicamente bizarras. Uma disputa, eu diria, bem latina! É incrível a estima irracional que a América Latina tem por figuras excêntricas na política.

Keiko é filha de Fujimori, o ex-ditador condenado a 25 anos de cadeia pela prática de diversos crimes (destaque para a corrupção). Os estudos de Keiko nos Estados Unidos foram financiados com dinheiro público desviado, confessou Montesinos (uma espécie de PC Farias de Fujimori, apenas um pouco mais refinado). Aos 36 anos de idade, Keiko está cercada de ex-colaboradores do pai e apresenta um plano de governo vago, repleto de populismo latino-americano. Já Ollanta Humala é filho político de Hugo Chaves, irmão de Evo Morales, primo de Daniel Ortega; todos netos de Fidel Castro. Entre outras ladainhas, repete o lugar-comum preferido do perfeito idiota latino-americano: ianques go home. Duas candidaturas bolorentas.

Parece faltar maturidade política aos eleitores latino-americanos. Como disse bem Renato Janine Ribeiro, estamos sempre com a “expectativa messiânica no surgimento de algum pai da pátria que nos livrará do desamparo”. Keiko e Ollanta representam a atual expectativa messiânica dos peruanos.

Quando visitei o Peru, estive também em Cuzco — a capital do antigo império INCA. Conhecendo a história de alguns antigos imperadores incas, pré-colombianos, fico imaginando o que pensariam de Keiko e Ollanta. Quem sabe o Peru ainda leve algumas décadas para voltar a ter a maturidade política dos INCAS.

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