Strauss-Kahn é vítima, dizem os conspiradores

Strauss-Kahn

Gilles Lapouge, o excelente correspondente internacional do Estadão, revelou resultado de curiosa pesquisa. Para quase sessenta por cento dos franceses, o taradão do FMI, Strauss-Kahn, é vítima de uma armação. Alguns franceses apontam que Sarkozy estaria por trás da “farsa”, interessado em desqualificar o então forte adversário na corrida presidencial de abril do próximo ano. Outros supõem que a CIA esteja envolvida (a CIA, aliás, é uma “Geni” internacional dos conspiradores). Em minoria estão os franceses que acreditam que os russos tenham envolvimento no episódio, interessados em “desmoralizar o ocidente”. Neste último caso, temos uma espécie de conspirador saudosista da guerra fria. O conspirador, em geral, é um tipo humano esquisito. Ao contrário de São Tomé, não acredita em nada do que vê. Para o conspirador, sempre há algum interesse “por trás” das coisas aparentes.

Interesses de poderosos que dissimulam seus verdadeiros propósitos. Os fatos nunca são como a imprensa os apresenta e nós – os ingênuos, como nos classificam os conspiradores – acabamos acreditando. Strauss-Kahn é a mais nova matéria-prima dos conspiradores.

Não faltam teorias conspiratórias. Algumas clássicas, como a responsável por negar que o homem tenha ido à Lua. Ou o envolvimento da KGB no assassinato do Kennedy. E por aí raciocinam os conspiradores, articulados em torno de um mantra: “desconfie; nada é como aparenta ser”.

Um dos episódios recentes que mais provocou teses conspiratórias foi o ataque às torres gêmeas. Livros e documentários tentam demonstrar que tudo não passou de auto-atentado do Governo de George W. Bush, apenas para poder justificar uma guerra contra o terrorismo. Só um ingênuo, insistem, pode acreditar que a Al-Qaeda seja a responsável pelo ataque! E não faltam evidências aos conspiradores, todas mirabolantes. Aliás, é claro que Bin Laden não morreu para os nossos conspiradores.

Para o conspirador é muito difícil reconhecer um acidente ou uma singela morte natural de uma pessoa pública. Há sempre um poderoso assassino oculto. Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek foram todos secretamente mortos pelo regime militar. A proximidade das datas das mortes reforça a tese conspiratória em torno do “assassinato” dos líderes da frente ampla. Cony tratou do tema em “O Beijo da Morte”, um misto de romance com ficção. O conspirador também não admite a explicação do simples acidente aéreo para a morte do nosso ex-presidente Castelo Branco. Quem eram os interessados na morte do Marechal, questiona o conspirador. Sempre com um olhar de superioridade dirigido aos pobres ingênuos que acreditam nas versões oficiais.

Há muitos anos, ainda no começo do segundo grau, um quase amigo me entregou uma versão do Protocolo dos Sábios de Sião com a seguinte advertência: está tudo aí. Eles controlam tudo, insistia – aos sussurros – o primeiro conspirador com quem tive contato. Confesso que fiquei um pouco assustado. Depois ouvi conversa parecida em torno dos Illuminati, uma espécie de governo secreto do mundo. Neste caso eu já tinha idade para apenas achar engraçado.

O conspirador é quase sempre um paranóico crônico. Como todo paranóico, pauta-se por uma lógica própria, descolada da realidade. É incurável. Nem pense em tentar convencê-lo. Trata-se de tarefa impossível. Se lá na frente Strauss-Kahn for condenado, provando-se que a libido foi a única responsável pelo ataque para cima da camareira, o conspirador apenas reformulará a tese conspiratória. Dirá que o Tribunal foi corrompido para esconder a armação. Corrompido pelos russos, quem sabe.

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