Menos política. Bom sinal

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Com a reforma política de volta à pauta, sobram os que reclamam do déficit de atenção em relação à matéria. Criticam o desinteresse da juventude por questões políticas. Alguns acham interessante citar Brecht (o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala etc.). Os reducionistas de sempre põem a culpa de todos os males brasileiros na ausência de interesse pela política. Estou em lado oposto. Quanto menos política, melhor. Explico.

Vivemos tempos de consensos em torno dos grandes temas. Pouco antes de morrer, Celso Furtado disse que não se fazia política sem ideologia (revista Desafios e Desenvolvimento – outubro/2004). A lógica de Furtado fez sentido por muitos anos, mas hoje em dia acho que se pode dizer o contrário: a boa política é sem ideologia. E é exatamente aí que reside o motivo (o positivo motivo) do desinteresse na política. Ao contrário do que podemos imaginar, a existência de consensos revela maturidade política. É um sinal positivo. São estes consensos que provocam desinteresse pela política. Sigo explicando.

No século passado, na era dos extremos (Hobsbawn), o interesse pela política era justificável. Em maio de 68 o Quartier Latin reuniu os jovens franceses que queriam mudar tudo. Os jovens tchecos liderados Dubcek fizeram a primavera de praga. Aqui no Brasil fazíamos a passaeta dos cem mil. Os jovens iranianos invadiam a embaixada amercicana. Os indianos, antes disso, apoiavam a desobediência civil pela independência. Há duas décadas visitei em São Francisco a City Lights Books e ainda consegui sentir um pouco do hedonismo anarquista da geração beatnik – que também queria mudar tudo (ao estilo da contracultura). A juventude se engajava porque identificava na política a forma de transformar o mundo.

Dedicavam a vida a causas. E agora? Os temas fundamentais não estão mais em disputa. Ninguém sério acha que a política seja mesmo um instrumento mudar tudo e todo mundo. A ideia agora é apenas aperfeiçoar as instituições, melhorar a gestão, incrementar o desenvolvimento sustentável etc. Ora, alguém lá vai dedicar a vida ao aperfeiçoamento das instituições? Nenhuma pessoa se anima a sair às ruas gritando com cartazes defendendo a melhora da gestão. Fico imaginando se a Union Nationale des Étudiants de France, em maio de 68, tivesse a defesa do Prouni como a principal bandeira… A democracia liberal venceu a parada (Fukuyama, lido sem preconceito) e o que sobra para discutir é insuficiente para animar um maior envolvimento político. Sobram apenas manifestações exóticas (liberação da maconha, marcha das vadias).

Os políticos não se conformam. É natural. Quem pode aceitar a desimportância de sua própria profissão? Todos devem se reinventar e aceitar, resignados, que a política não é mais instrumento de transformação do mundo. Serve apenas para melhorar a gestão, sem nenhuma opção ideológica. As opções já foram feitas. E muito bem feitas. Agora outros temas devem ocupar nossas atenções, o que – termino aqui minha explicação – é inegavelmente positivo.

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