No blood for oil ou a obsessão antiamericana

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O início de agosto dos americanos foi todo dedicado ao pós-quase default da dívida pública. The great american downgrade, como está na capa da revista Times. Confesso logo que sei apenas o básico sobre o descontrole da dívida, iniciada nos anos de Bush filho. Reconhecem os americanos que entre as causas do aumento indiscriminado do déficit está o custo das últimas guerras (Afeganistão e Iraque). O “Globo” divulgou recente pesquisa do Instituto Watson de Estudos Internacionais que estimou entre 3,7 e 4,4 trilhões de dólares o custo total dessas guerras (o governo americano reconhece “apenas” um trilhão e trezentos bilhões). O teto legal da dívida pública, ampliado na data limite pelo Congresso americano, era de 14,3 trilhões de dólares. É claro que a ressaca da crise financeira, inaugurada pela quebra do Lehman Brothers, foi determinante, mas por uma ou por outra fonte é também inegável o peso das duas guerras na composição da dívida.

Não é o que pensam os antiamericanos (brasileiros incluídos). Qualquer incursão bélica americana pelo Oriente Médio repercute imediatamente na venda de camisetas com o slogan no blood for oil. Os estudantes da UNE ostentam com orgulho o tal slogan, sugerindo que conhecem muito bem o que está “por trás” dos ataques americanos: o petróleo. Os americanos atacam e matam apenas para aumentar as reservas de petróleo, sustentam tão orgulhosos quanto equivocados nossos repetidores da surrada ladainha antiamericana.
Não faz nenhum sentido. “A obtenção do petróleo do Iraque por meio de uma guerra seria a aventura mais antieconômica jamais levada a cabo na história da humanidade”, disse Ali Kamel no seu ótimo “Sobre o Islã”. Kamel mostra que o Iraque respondia apenas por dois por cento do abastecimento mundial, e que os americanos tinham outras tantas opções de quem seguir comprando (Arábia Saudita, sobretudo). “Comprar petróleo sempre foi mais barato do que tomá-lo”, concluiu Kamel.

Os americanos estão questionando o custo da defesa. Obama já tinha planejado poupar 400 bilhões em defesa até 2023 (acordo no Congresso prevê cortes de 350 bilhões em dez anos). Tempos antes, Eisenhower evitou a intervenção militar direta no Vietnã ao lado dos franceses exatamente em função dos custos envolvidos. Era mais importante preservar o vigor da economia americana, dizia o então presidente (li em Joseph Nye Jr., professor de Harvard, em artigo reproduzido no Estadão, sobre os custos de defesa dos EUA). Bush filho apostou em caminho oposto. A economia foi sacrificada em nome do combate à ameaça terrorista. A atual crise da dívida revelou a dimensão desse sacrifício. Imaginar que os americanos foram à guerra para aumentar as reservas (no blood for oil…) só se justifica a partir de um raciocínio induzido pelo antiamericanismo patológico.

A “obsessão antiamericana” (título do clássico de Revel sobre o tema) é orientada por certo sentimento de inveja: “Para os latino-americanos é um escândalo insuportável que um punhado de anglo-saxões, chegados ao hemisfério muito depois dos espanhóis, tenham se tornado a primeira potência do mundo”, nos explica Carlos Rangel (citado por Revel). É esse ingrediente psicológico que alimenta uma avaliação pejorativa de todo e qualquer fato a envolver os americanos. Foram à guerra? Só pode ser por dinheiro. Não adianta apresentar informações consistentes em sentido contrário, como nos apresentou Kamel. O antiamericanismo mecânico não admite sinais dissonantes. Blame America first…

Indo ao aeroporto de Miami há poucas semanas, ouvi o taxista reclamando da economia e lamentando os bilhões gastos no Iraque. Fiquei imaginando se o nosso taxista soubesse que por aqui pensam que a guerra foi para lucrar com o petróleo…

Confissão de final de artigo: eu era um dos estudantes com a camiseta no blood for oil no Congresso da UNE de Campinas. Também já gritei Ianques, go home. Está confessado.

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