Minha audiência com o embaixador da Albânia em Paris

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Como muitos na mesma idade, aos 18 anos coloquei uma mochila nas costas, comprei um passe de trem e um guia de albergues da juventude para viajar pela Europa. Com poucos dólares e alguns travellers cheques, em três meses fui de Lisboa a Budapeste; de Roma a Estocolmo. Entre os destinos cogitados, um deles não integrava o script oficial dos mochileiros: Tirana, na Albânia. O que eu iria fazer na Albânia, pequeno e pobre país da península balcânica? Sabe Deus o quê. Hoje a ideia soa muito esquisita, mas à época, para mim, fazia todo o sentido.

Pouco tempo antes da viagem eu tinha lido os livros de Luiz Manfredini, o Horizonte Vermelho nos Bálcãs, e de Bernardo Joffly, Bastião Albanês. Os dois livros teciam loas ao regime stalinista albanês, então comandado por Ramiz Alia, sucessor do mítico Enver Hoxha (morto em 1985). Com as devidas ressalvas (e não são poucas), os dois repetiram a fórmula do livro de Graciliano Ramos, A Viagem, escrito depois do périplo do escritor comunista pela União Soviética e Tchecoslováquia na década de cinquenta.

Os comunistas albaneses (do Partido do Trabalho da Albânia) declaravam-se os únicos marxistas-leninistas do mundo. Todos os demais países socialistas eram revisionistas (uma espécie de grave xingamento ideológico). A Albânia e o resto, sustentavam os legítimos marxistas-leninistas. Hoje isso me faz lembrar Asterix e a única aldeia da Gália não ocupada pelos Romanos, mas naquele tempo o país era levado a sério por legiões de comunistas espalhados pelo mundo todo. Aqui no Brasil, João Amazonas, do PC do B, comandava o fã clube da Albânia.

Enver Hoxha comandou a resistência à ocupação italiana e depois mandou no país quatro décadas, até a morte. De largada rompeu com a Iugoslávia de Tito. Depois cortou relações com a União Soviética, em tempos de Nikita Kruschev. Hoxha tachou de revisionista a posição dos soviéticos depois do famoso Vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética (o congresso de rompimento com o stalinismo). A Albânia ficava ligada apenas aos chineses. Não durou muito. Mais tarde Hoxha também passou a identificar revisionismo na China, sobretudo depois da famosa visita de Richard Nixon (inaceitável, bradava o albanês). Alguns anos depois a China também entrava na lista negra dos revisionistas. Tal qual Asterix isolado na Gália, Hoxha comandava um país ilhado pelos revisionistas e capitalistas. E era para lá que eu queria ir. A todo custo.

Era necessário um visto. E não havia representação diplomática da Albânia no Brasil. O caminho era tentar o visto na representação albanesa em Paris, disseram-me. Como ser recebido? O mesmo Manfredini (do Horizonte Vermelho nos Bálcãs) me deu uma carta de apresentação da AAB-A, Associação de Amizade Brasil-Albânia, dirigida à congênere francesa.

Chegando a Paris, lá fui eu até a sede da tal Associação de Amizade França-Albânia. Fui recebido pelos marxistas-leninistas franceses, em pequeno escritório repleto de cartazes de Marx, Lênin e, é claro, Enver Hoxha. De lá os comunistas franceses dispararam um telefonema para a embaixada da Albânia. Recomendado, no dia seguinte estava agendada minha audiência para discutir a emissão do visto. Cheguei ao albergue da juventude e contei aos brasileiros. Onde fica a Albânia, perguntaram. Não havia interessados.

No dia seguinte, apresentei-me na Embaixada. Salvo engano, a representação diplomática albanesa ficava em modesto edifício na rue Vitruve. Para minha surpresa, fui recebido pelo próprio embaixador da Albânia em Paris. Do nome do embaixador não me recordo, mas era um sujeito atarracado, com um inglês precário. Recebeu-me muito bem, mandou algumas perguntas triviais e lá pelas tantas lançou: o que você quer fazer sozinho na Albânia?

Lembro-me até hoje do impacto da pergunta. De fato, o que mesmo eu queria fazer sozinho na Albânia, perguntei-me. Os vistos só eram concedidos para viagens em grupos, explicou-me o embaixador. E não havia nenhuma programada para as próximas semanas. Enfim, meu visto para ir sozinho para a Albânia foi negado. Despedi-me e segui minha viagem pelo resto da Europa. Assim terminava minha experiência albanesa.

Não demorou muito para que caísse o regime stalinista. Totalitário como todo regime comunista (bem retratado pelo escritor albanês Ismail Kadaré, em A Pirâmide), a Albânia resistiu pouco depois do início da onda que varreu os regimes do leste europeu na pós-queda do muro de Berlin. Não sobrou nada. Da Albânia guardo na memória a inteligente pergunta do atarracado embaixador: o que você quer fazer sozinho na Albânia?

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