Eu e a Coreia do Norte

coreiA

Meu texto para a Revista Ideias já estava pronto. Neste momento surgiu a notícia da morte do Estimado Líder, como os norte-coreanos eram obri­gados a chamar o pitoresco Kim Jong Il (um cruzamento de Chico César com a Marlene Mattos, disse uma vez o Zé Simão). Mudei o tema do artigo. Achei que era o caso de contar minha brevíssima e inusitada história com a Coreia do Norte. Acho que não teria outra chance.

Em 1997, fui ao Congresso Internacional da Juventude em Havana, por la solidariedad antimperialista la paz y la amistad, se não estou enganado sobre o slogan. Para mim aquilo era uma espécie de Disneylândia ideológica. Bancadas de comunistas de todos os lugares do mundo. Lá estavam também os norte-coreanos. Àquela altura o Estimado Líder estava no poder há apenas três anos, desde a morte do pai e fundador da dinastia comunista, Kim II Sung – o Grande Líder. Se for confirmada a sucessão dinástica, o país agora será comandado pelo neto do Grande Líder e filho mais novo do Estimado Líder, Kim Jong-un.

Parece que ainda não está definido o epíteto obrigatório para o líder prodígio. Antes dos trinta anos, mesmo sem um epíteto definido, já é general de quatro-estrelas e vice-presidente da Comissão Central do Partido dos Trabalhadores – nome do partido comunista.

Poucos sabem bem o que acontece pela Coreia do Norte – o país mais estatizado e fechado do mundo. Com certeza milhões passam fome, diz a ONU. O PIB da Coreia do Norte representa apenas 3,1% do PIB da Coreia do Sul (em 1965 a parte norte da península tinha um PIB três vezes superior ao PIB do sul). Achei importante mencionar esta informação para que ninguém duvide da extraordinária capacidade dos comunistas em produzir pobreza. Aliás, a própria Coreia do Norte é uma criação soviética, nos tempos de Stalin.

O jornalista brasileiro Marcelo Abreu foi um dos primeiros e poucos da imprensa internacional a conseguir entrar no país sem se anunciar jornalista. Depois publicou o livro que li há algum tempo e acabo de recuperar. Há dez anos, quando Marcelo Abreu publicou o livro, viviam em Pyongyang, a capital, não mais do que noventa estrangeiros (chineses incluídos). Trata-se do país mais fechado do mundo. Naquela época só a Suécia, entre os europeus, tinha embaixada na capital coreana. O Brasil instalou uma embaixada por lá em 2009, sem que ninguém tenha entendido muito bem o porquê. O culto aos membros da dinastia comunista é espetacular. Kim II Sung (tal como Mao Tsé-Tung, um devasso na vida privada) fundou uma estranha teoria chamada juche– que se dispõe a explicar tudo (tão pretensioso e ridículo quanto o livro verde de Kadafi). Enfim, a Coreia do Norte é curiosíssima.

Mas qual foi, afinal, o meu contato com a turma do Estimado Líder? O fato é curioso. Estava em Cuba com alguns amigos, muitos do PCdoB. A juventude do PCdoB queria estabelecer contato político com a juventude comunista norte-coreana – então ligada à JR-8 (braço estudantil do finado MR-8). Outra coisa curiosa, convenhamos. Marcada a reunião, precisaram de alguém que falasse inglês. Fui chamado. Isso mesmo: fui o tradutor do (histórico?) encontro da juventude comunista brasileira com os comunistas da Coreia do Norte. Lembro pouco da longa discussão entre as duas delegações, mas o suficiente para me arrepender. Fosse hoje eu poderia ter feito algo parecido com o que fez Guido, o personagem de Benini em a Vida é Bela. Convocado a traduzir, Guido alterou o sentido das ordens do alemão nazista aos presos judeus. Poderia ter sido minha maior intervenção no comunismo internacional. Perdi a oportunidade. Fui apenas um fiel tradutor, pelo menos até onde foi possível compreender o inglês dos jovens norte-coreanos.

Dias depois, no encerramento do Congresso, reuniram-se quinze mil jovens de mais de cem países no principal estádio de Havana. Coincidentemente a “bancada” brasileira estava ao lado da norte-coreana. Lá pelas tantas aparece Fidel, sem prévio anúncio. Aos poucos todos (o estádio inteiro) começam a gritar Fidel, Fidel. Todos não. Os norte-coreanos, isolados no estádio, gritavam Kim Jonk Il, Kim Jonk Il. Foi este aí, o Estimado Líder Kim Jonk Il, que ao morrer me fez mudar o tema do meu artigo.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *