O Bar do Ciccarino

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Não sei se orgulhoso ou envergonhado, à exceção de um curto período, nunca tive o “meu Bar”. Aquele do dia a dia; de todos os dias. Mas com vergonha ou orgulho, a verdade é que sempre tive uma inveja danada dos frequentadores diários do mesmo Bar (não é por acaso, mas por deferência que grafo “Bar” sempre iniciando a maiúscula). Lá estão sempre os mesmos amigos e, inevitável, os chatos de sempre. Bar sem chato não é Bar. E há também os chatos amigos. Até porque, como dizia o Mario Quintana, há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e… os amigos, que são os nossos chatos prediletos. Com amigos e chatos, é realmente admirável a fidelidade devotada a determinados Bares.

Como ia dizendo, à exceção de um curto período, nunca fui de frequentar Bar todos os dias. Muito menos o mesmo Bar. A exceção foi o Bar do Ciccarino – comandado pelo Vicente. À época eu trabalha com o grande Sérgio Toscano de Oliveira, no escritório do Professor Machado. Sérgio, este sim, era admiravelmente fiel aos Bares que frequentava (ponho no passado porque já não é mais o mesmo, andam dizendo). Com o Sérgio estive quase diariamente no Ciccarino. Isso durante o tal curto período da exceção (não tão curto quanto estou sugerindo).

Para quem não conheceu o Ciccarino, devo esclarecer que era um Bar – e não um Boteco (também vai com maiúscula no início). E a diferença não é pequena. O Boteco (ou Buteco, como preferem alguns) é outra coisa. O legítimo Boteco, pé-sujo como tem de ser, deve necessariamente apresentar potes de conserva com rollmops atrás do balcão. O banheiro tem de ser sujo. O garçom desleixado. O Ciccarino definitivamente não era um Boteco. O Bar do Ciccarino inaugurou em Curitiba os Bares “metidos à besta”. Coisa fina. E não era só Bar. No ambiente de entrada, onde ficava o balcão, havia um belo armazém com tudo do bom e do melhor para comer e beber.

Por falar em balcão, o Ciccarino tinha o melhor da cidade. Que balcão! E isso é muito importante. O verdadeiro frequentador de Bar (ou de Boteco) gosta mesmo é do balcão (fiquem de olho; quem prefere a mesa pode ser um falso frequentador de Bar). O Sérgio Toscano, por exemplo, não admitia sentar- se à mesa. Não abria mão do balcão. E para o lado de dentro deste imenso balcão estava sempre lá o nosso Vicente Ciccarino. O comandante. Obrigo-me a dedicar parágrafo especial ao Vicente. Sem conhecer um pouco o Vicente é impossível compreender o Bar.

Dizem que o dono de Bar deve ser simpático. Vicente não levava isso a sério. Na medida exata, ironizava, esculhambava, gozava de todo mundo. Vicente vendia fiado, mas era mais pelo prazer de cobrar os devedores publicamente. – Como é Fulano, quando vai acertar a conta, gritava o Vicente (eu mesmo fui vítima). Era isso que nós gostávamos do Vicente. O simpático é quase sempre um falsificador. Vicente era autêntico. Inteligente e vivido, Vicente, além de dono e gerente, era também o programador cultural. Sim o Ciccarino, sobretudo aos finais de semana, tinha uma programação cultural. Uma vez o Ciccarino trouxe a Curitiba o Miéle. Advirto aos mais novos que não falo aqui do Carlos Miele, estilista (o Vicente, aliás, não admitiria um estilista lá dentro). Falo, é claro, do Luís Carlos Miéle. Principal parceiro de Ronaldo Bôscoli. Chegaram a dividir o mesmo apartamento, onde também morou João Gilberto. Ator, diretor, humorista, produtor dos melhores espetáculos cariocas, Miéle é, sobretudo, um showman. Eu estava viajando e acabei não indo no dia do Miéle. Logo na segunda-feira seguinte, balcão lotado, perguntei ao Vicente como tinha sido o show. Ao seu estilo, Vicente disse que tinha sido muito bom, mas que os curitibanos (que não entendiam da animação cultural carioca) não tinham entendido nada. Os clientes do balcão riram, como se Vicente brincasse. Ele não brincava, é claro. Este é o Vicente. Os ofendidos que procurassem um dono de Bar simpático.

Vi cenas incríveis do Ciccarino. Uma noite o Nêgo Pessoa, assíduo no Bar, pegou o Pedro Longo pelo pescoço apenas em função de uma divergência em torno da questão indígena no Brasil. Retire esta opinião em favor dos índios, retire, gritava o Nêgo. Juliano Breda e Carlos Nasser (habitués no Ciccarino) são testemunhas. O Bar não abria aos domingos. Abriu uma vez para a festa infantil de aniversário da filha do Sérgio Toscano. Cheguei lá e havia uma mesa com vinte amigos do Sérgio, já bem embalados. Procurei as crianças. Isoladas em um canto, eram apenas três ou quatro. O Sérgio notou que estranhei a presença de poucas crianças em um aniversário infantil e foi logo anunciando: no próximo ano a festa da minha filha também será aqui e sem nenhuma criança! Nenhuma, deixou claro. Que eu saiba, foi a única festa infantil do Ciccarino.

Um dia o Ciccarino fechou. Todo Bar que se preze fecha, cedo ou tarde. O Ziraldo uma vez disse que o carioca Antônios era o “único bar definitivo do país”. Fechou um tempo depois. Assim é para todo nós o Ciccarino. Definitivo. Ou infinito enquanto durou, para terminar citando Vinicius.

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