Gabardo, Fukuyama e o mal compreendido fim da história

Yoshihiro-Francis-Fukuyama

Yoshihiro Francis Fukuyama

 

Há mais de duas décadas li o artigo de Fukuyama sobre o fim da história. O livro nunca, confesso logo. Dei agora ligeira relida no texto. Apenas para dar uma resposta à injusta e (já me desculpando) precária análise produzida pelo Professor Emerson Gabardo da UFPR. Gabardo é um excelente professor de Direito Administrativo, mas, como eu, entende tanto de economia quanto de física quântica. Pouco mais do que nada.

Ainda assim, arvorou-se no direito de criticar Fukuyama. Achei que isso também me autorizava a criticar sua crítica. Aqui estamos ambos como atores de novelas mexicanas: ninguém constrange ninguém, todos trabalham mal. Eu e o Gabardo não nos constrangemos: nenhum de nós entende de economia. Acho que fomos descobrir o conceito de juros nos livrinhos de Eduardo Gianetti (ou na coleção primeiros passos). A deficiência na formação em economia não deve nos preocupar. Paulo Francis também se ressentia do pouco conhecimento que tinha na área, nos conta o precoce e recentemente falecido Daniel Pizza na biografia que escreveu sobre nosso grande jornalista. O problema é que, à Francis, o meu ressentimento é geral. Sei muito pouco de quase nada. Mas dou palpite. E é o que faço aqui: palpitar em cima do palpite de Gabardo. Debate de palpiteiros.

O texto de Fukuyama não é propriamente de economia, mas de economia política. Dizem que Gabardo conhece um pouco de economia política. Eu também me arrisco. Mas o que é economia política? É uma mistura de política e economia. Mistura eclética de métodos analíticos, dizem os doutos. Mesmo em economia política, seguimos, Gabardo e eu, no âmbito dos palpites.

Gabardo começa por criticar a linearidade da obra de Fukuyama. Ora, sempre achei que o bom da obra é exatamente a linearidade, se é que temos o mesmo conceito do que seja linearidade. O raciocínio de Fukuyama, mais do que linear, é linear-cartesiano. E isso me parece muito bom. Em seguida Gabardo diz que a “concepção de história do autor é assustadoramente limitada e antiquada”. Cá entre nós Gabardo, qual é a nossa concepção de história para dizer que a de Fukuyama (releia a formação e o currículo do americano, please) é “assustadoramente limitada”? Temo supor o que Fukuyama diria da nossa (minha e tua) concepção de história. A propósito Gabardo, é bom lembrar que o fim da história é, muito antes de ser uma concepção histórica de Fukuyama, uma ideia marxista. A inevitabilidade do fim do capitalismo (por suas contradições intrínsecas) conduziria o mundo ao socialismo e depois ao comunismo. Os marxistas (baseados em Hegel, explicam os entendidos) foram os primeiros fatalistas (assustadoramente limitados, para repetir Gabardo).

É necessário reconhecer que Gabardo destaca alguns trechos da entrevista de Fukuyama que resumem bem o pensamento do autor. O americano identifica “uma história da humanidade, coerente e direcionada, que eventualmente conduzirá a maior parte da humanidade para a democracia liberal”. Este modelo, no trecho da entrevista separado por Gabardo, continuaria a ser “a única aspiração política coerente que se espalha por diferentes regiões e culturas em todo o mundo”. Gabardo achou um horror as afirmações de Fukuyama. “Nada disso é verdade”, sentenciou Gabardo. E sustenta seu discurso na “crítica da comunidade acadêmica de esquerda”. Como Gabardo não citou nenhum autor específico, obrigo-me a perguntar: que diabo de comunidade é esta? Comunidade acadêmica de esquerda? Por acaso Emir Sader e Noam Chomsky estão envolvidos nisso? Alguém pode me dizer o local da próxima reunião anual? Não reconheço a existência da tal comunidade. Reconheço apenas um mimetismo intelectual da esquerda em criticar Fukuyama.

De lado a crítica não explicitada da misteriosa comunidade, Gabardo anuncia a sua discordância com Fukuyama: “infelizmente para os liberais, as experiências históricas conhecidas pelo homem demonstram de forma clara que alcançamos uma maior realização da dignidade e da felicidade em ambientes de forte intervenção política na economia”. Foi isso mesmo que eu entendi? Quer dizer que a realização da dignidade e da felicidade cresce com a forte intervenção política na economia? É isso mesmo Gabardo? Relate-me, por favor, uma só destas experiências históricas vividas pelo homem. Você trata da experiência do Camboja ou do Laos? Ou é do Hugo Cháves (para citar um intervencionismo modernoso) que você fala ao relacionar felicidade e dignidade com forte intervenção política na economia? Sugiro conferir com os gregos como anda a felicidade por lá depois de décadas de forte intervenção política na economia.

Segue Gabardo: “Assim como Fernando Henrique Cardoso e outros tantos defensores ligados ao conservadorismo liberal privatizante da década de 90 (assumidos ou não), o fato é que Fukuyama (em recente entrevista) reviu seu vaticínio”. Conservadorismo liberal privatizante? Especificamente qual privatização você reverteria, Gabardo? Vale do Rio Doce? Telefonia? Li e reli a tal entrevista. Fukuyama NÃO reviu sua proclamación (vaticínio não me parece a palavra adequada). Pelo contrário; a reafirmou na íntegra, até porque nada o desmentiu. Eis o equívoco generalizado sobre o texto de Fukuyama (Gabardo incluído).

Fukuyama nunca defendeu a consagração da ausência de intervenção absoluta do Estado na economia. O Brasil é sim uma democracia liberal (gostem os petistas ou não). E a democracia liberal é (como disse e mantém Fukuyama) a única forma de governo que sobreviveu [e sobrevive] intacta. Qual é, afinal, a ideologia nova que pôs em dúvida a proclamación? As premissas do artigo de Fukuyama, na essência, estão intactas.
Em um editorial da New Left Review (quando eu ainda lia esta revista), o esquerdista Perry Anderson (uma espécie de ídolo internacional do Emir Sader) chamou a esquerda a compartilhar seu “registro lúcido da derrota histórica”. Os brasileiros não aceitam o chamamento de Anderson. Seguem defendendo que a esquerda não fracassou, é apenas um sucesso mal explicado (na boa frase de Roberto Campos). Fukuyama foi confirmado, Gabardo. Na íntegra. Pode apostar.

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