Impeachment de Collor – vinte anos esta noite

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CAIU – era a manchete de capa da tiragem extraordinária da Revista Veja. Seis meses antes um convicto Jorge Bornhausen afirmara: “essa CPI não vai dar em nada”. Aquilo aconteceu muito rápido. E tudo ainda está muito vivo em minha memória. O impeachment de Collor completará vinte anos agora em outubro. Como reconhecidamente não tenho – razões várias – condições de produzir o melhor texto sobre a efeméride histórica, antecipo-me aos demais. Assim me resta o discutível mérito da precedência.

Na linguagem do Repórter Esso, fui testemunha ocular da história. Em alguma medida participei daquilo. Era estudante de direito e tinha acabado de deixar a Diretoria da União Nacional dos Estudantes quando começaram os protestos estudantis. Desde então não houve mais manifestações públicas relevantes. O protesto saiu de cena. Seria, quem sabe, um pequeno exagero – talvez nem isso – dizer que vi e vivi a última onda de protestos populares da história brasileira (pretensioso?). Ninguém vai mais às ruas para protestar. Não há grandes motivos a comover multidões. Vez ou outra um público mirrado se reúne em torno de temas de discutível apelo. Além disso, a maioria prefere o assim chamado protesto cibernético. No tempo do impeachment do Collor não tinha internet e a motivação política era indiscutível.

Havia boas razões para não se gostar de Collor mesmo antes dos escândalos de corrupção. Collor havia derrotado Lula em 1989, em um segundo turno emocionante. Com Lula ficaram os bons candidatos derrotados no primeiro turno: Brizola, Covas, Ulysses, Roberto Freire, Gabeira. Deixo de lado os aspectos ideológicos envolvidos. Quem sabe hoje eu não tivesse a mesma convicção que tinha há vinte anos, mas à época me parecia óbvio que a parte boa da política havia sido derrotada por um político direitista, bobo e irresponsável. E Collor seguiu dando motivos para que não gostássemos dele e de seu governo repleto (nas práticas e nas pessoas) do que havia de pior na política brasileira. As denúncias de corrupção apareceram logo no início do governo, mas o impeachment começou a nascer mesmo com a entrevista do irmão Pedro Collor à Revista Veja, em maio de 1992 (Pedro Collor conta tudo, como estava na capa). Dias depois da entrevista estava criada a CPI, protagonizada por um personagem esquisitíssimo chamado PC Farias (o destrambelhado tesoureiro de campanha de Collor).

O esquema era grosseiro e de mau gosto. O tal PC Farias (predecessor de Delúbio Soares no ofício) chegou a gastar alguns milhões para reformar os jardins da famosa Casa da Dinda (residência de Collor). O presidente estava nitidamente envolvido em um esquema de arrecadação de dinheiro para garantir sustentação política e, como no caso da reforma dos jardins, propiciar um luxo pessoal de gosto duvidoso. PC Farias bancava os gastos pessoais da família Collor. Houve a famosa prova da compra da Elba usada pela família com um cheque pessoal do tesoureiro. A todos estava muito claro o comprometimento moral do presidente com tudo que havia sido denunciado por seu próprio irmão e depois acabou apurado na CPI do Congresso.

Torcíamos o nariz para a tese, mas não há dúvida que o interesse pelos protestos foi aguçado pela minissérie “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga, que a Globo transmitia naquele período e tratava do papel da juventude na ditadura militar. Estavam criadas as condições e os protestos começaram a crescer por todo o Brasil. Surgiram os caras-pintadas, como ficaram conhecidos os estudantes que foram às ruas exigir a saída de Collor. Discursei numa Rua XV de Novembro lotada. Ao mesmo tempo nós havíamos ocupado o campus da PUC em protesto contra o aumento das mensalidades (um ano depois de eu ter deixado a presidência do DCE). Às vésperas do sete de setembro Collor pede ao povo que saia de verde e amarelo em apoio ao governo. O pedido surtiu o efeito contrário. Saímos da PUC ocupada e fomos, como em todo o Brasil, vestidos de preto ao desfile de sete de setembro. As manifestações de estudantes cresceram e a pressão ficou irresistível. No final de setembro a Câmara autorizava o Senado a abrir o processo de impeachment e Collor era afastado (dois meses depois seria cassado pelo Senado). Foi o happy ending que faltou à geração de 1968.

Os caras-pintadas derrubaram o presidente. Já a geração de 1968 perdeu com o endurecimento da ditadura militar. Como perderam também os jovens franceses liderados por Cohn-Bendit. O problema é que faltava à geração vitoriosa de 1992 senso estético.

Fomos uma geração desintelectualizada. Marcuse? Adorno? O que é isso, perguntariam em 1992. Faria sentido se anunciar lukacsiano ou gramsciano nas manifestações do impeachment? Godard já tinha sido trocado por James Cameron. A geração de 1968 gostava de Ho Chi Minh e se preocupava com Dubcek na Checoslováquia. E a turma de 1992? O impeachment era um fim em si mesmo. Uma manifestação contra o que estava errado segundo o senso comum. Nada além disso. Claro que foi muito interessante tudo aquilo. O exercício do prazer que só a convicção da juventude proporciona. Mas vendo tudo pelo retrovisor, acho que teria sido melhor perder com a juventude de 1968 do que ganhar com os caras-pintadas! Saudosismo? Quem sabe!

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