As pesquisas eleitorais

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Grande confusão aprontou o nosso George Gallup. As pesquisas eleitorais, iniciadas pelo americano na década de trinta, estão no centro das campanhas políticas. E sempre com grande dose de desconfiança. Muitos dizem que as pesquisas são forjadas. Estou em lado oposto. As pesquisas são majoritariamente sérias e, quase sempre, acertam. E também ao contrário do que pensam outros tantos, influenciam pouco a vontade do eleitor.

Há erros? É óbvio que sim. Há manipulação? Em alguns casos isolados. Podem me chamar de ingênuo, mas os grandes e bons institutos não manipulam. Não é exatamente a ética que embala a resistência à manipulação. É apenas uma lógica de mercado. Instituto que manipula (ou vende) resultados tem vida curta. Atribuem a frase a Sócrates (quem poderá infirmar): Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade. Pensamento bobo, mas para pesquisa vale. A desonestidade do instituto, com o tempo, é desvantajosa. Sobre eventuais equívocos, é importante entender que a discrepância entre a pesquisa e o resultado eleitoral nem sempre revela erro. Pesquisa é um corte amostral de um determinado momento específico. Há tendências mais expressivas e próximas da eleição que podem não ser flagradas. Isso não é erro, é claro. Comparar os resultados finais com as pesquisas de boca de urna ajuda a demonstrar que os erros são raríssimos.

De fato espanta que pesquisas possam acertar o resultado ouvindo tão poucos eleitores. Isso ajuda a embalar a desconfiança. Na eleição de 1936, a conhecida revista americana Literary Digest previu a vitória de Landon contra Roosevelt por uma diferença de 14 pontos. Para antecipar os resultados a revista enviou e recebeu dez milhões de cartas. Nosso George Gallup, com uma amostragem de apenas 50 mil americanos, acertou o resultado. Roosevelt venceu com 61% dos votos. A Literary Digest acabou fechando um tempo depois. George Gallup usou um plano amostral; a Literary Digest não. O plano amostral flagra as variáveis representativas do eleitorado e mede com precisão. Parece incrível, mas funciona muito bem. Com cinco mil entrevistas os institutos aferem com boa dose de exatidão o resultado da eleição presidencial brasileira.

Claro que há casos isolados de institutos que vendem resultados, mas como eu disse antes, não prosperam no longo prazo. Gallup se recusava a aceitar encomendas de pesquisas de partidos políticos. Forma de manter independência. Aqui no Brasil há uma legislação algo esquizofrênica a disciplinar as pesquisas, autorizando indevida judicialização. That’s bullshit, como dizem os americanos. É o mercado – e apenas o mercado – quem deve controlar as pesquisas. Instituto que manipula resultados tem vida curta. Ponto final. Eventuais casos de fraudes devem ser punidos criminalmente – o que, aliás, já está previsto na legislação eleitoral.

Aqui no Brasil a divulgação de pesquisa chegou a ser legalmente proibida em determinados períodos. Nova e recente tentativa de proibição de resultados às vésperas da votação, agora em Lei de 2006, foi considerada inconstitucional pelo Supremo. Franceses e italianos proíbem a divulgação de resultados no período mais próximo do dia da eleição. Acho um grande equívoco. Antes de tudo, como reconheceu nosso Supremo, proibir divulgação de pesquisa, em qualquer momento, viola a garantia de liberdade de expressão e do direito à informação livre e plural (STF, ADI 3.741). O legislador inspira-se na tentativa de obstar a influência das pesquisas na conformação da vontade dos eleitores. Nunca consegui entender o raciocínio. Quem pode supor desqualificado um voto útil de eleitor, influenciado por pesquisa? É tão legítimo como outro voto qualquer. É supor que haja votos mais e menos qualificados. Noutras palavras: o eleitor tem o direito de orientar-se por pesquisas para definir seu voto. No entanto, ao contrário do que se supõe, esta influência é esquálida.

Os americanos já estudaram o poder de influência das pesquisas. A ideia de alguns em votar em quem vai ganhar (bandwagon effect) praticamente se anula em função do efeito oposto provocado pela pesquisa: aumentar os votos do segundo colocado para que alcance quem está na frente (underdog effect). Aqui no Brasil tem um estudo da Márcia Cavallari a indicar que os eleitores atribuem às pesquisas o décimo lugar como fonte de informação mais importante para definir o voto. É certo que tem alguma influência, mas é muito menor do que se supõe. A influência maior está na arrecadação das campanhas. Mas aí já se trata de mero sintoma de um problema crônico do sistema brasileiro: aqui não contribuem para as campanhas, mas investem no futuro vencedor. E depois cobram resultados de baixo teor republicano. E é claro que isso não se resolve proibindo pesquisas.

Reclamam das pesquisas os que estão atrás; comemoram os que estão na frente. Os mesmos que reclamam têm suas pesquisas internas para orientar a campanha. Agora, deixando de lado tudo o que eu disse, entendo perfeitamente a indignação de alguns candidatos. Todo o esforço da campanha aferido pelos resultados frios de pesquisas eleitorais. Quando frustra minhas expectativas, eu mesmo esqueço tudo que penso e vou logo insinuando: deve ter sido comprada!

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