Autoajuda. Está tudo resolvido

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Nunca tinha me dado conta do incrível avanço das publicações de livros de autoajuda (sim, aqui a reforma, sob meu protesto, sacou o hífen). Especialmente nas livrarias mais modernosas, há sempre um enorme departamento especialmente dedicado. Não é o caso do nosso Chain, livreiro que ainda resiste um pouco ao subproduto. Chain vende autoajuda – é inevitável -, mas os livros estão um pouco escondidos, revelando saudável constrangimento.

Achei alguns números. Há dez anos a revista Veja já mostrava que a publicação de obras do gênero havia tido um crescimento de mais de 700% nos últimos oito anos, contra um aumento de 35% do mercado geral de livros. Dez anos depois e os livros de autoajuda tomaram conta do mercado. Notem que as listas de mais vendidos estão divididas em três categorias: ficção, não ficção e autoajuda. Por que atraem tanto? É simples: prometem resolver tudo de forma rápida e simples.

Dizem que foi o americano Dale Carnegie que deu início ao gênero. E convenhamos: faz todo o sentido que tenha começado no fértil ambiente dos americanos. Nos anos 30 Carnegie publicou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares. É muita coisa. Nemesis, livro de despedida de Philip Roth, tem uma tiragem de sete mil exemplares aqui no Brasil. Carnegie vende muito mais porque sabe simplificar. Costuma dizer: “Acredite que você pode mudar sua vida, e isso se concretizará”. Fascina multidões.

Bem analisado o fenômeno, autoajuda faz em boa medida o que a religião sempre fez. Confira comigo: Quando você diz que é impossível, Deus observa: “tudo é possível” (Lucas – capítulo 18, versículo 27). Quer mais? Quando você diz: Eu não posso, Deus discorda: “tudo podes” (Filipenses 4:13). Não por acaso a bíblia vende ainda mais do que Dale Carnegie. É auto-ajuda do início ao fim. Os budistas criaram o mesmo papinho cinco séculos antes de Cristo e os muçulmanos cinco séculos depois. Na essência é tudo autoajuda.

Não tenho capacidade e não quero fazer análise sociológica do fenômeno, é claro. A curiosidade dos títulos é o que me motiva. Já pensando em escrever o artigo, anotei alguns bem interessantes. Como são incontáveis as publicações, se você tiver tempo ou dinheiro para apenas um, sugiro Como Conquistar Tudo o que Você Deseja mais Rápido do que Jamais Imaginou. Conquistar tudo que deseja. E rápido. Esse é perfeito.

Entre os mais focados, estão os orientados para o assim chamado mundo corporativo. Lançado em 2011, o título (sempre autoexplicativo) é Consiga um aumento e seja promovido com rapidez. Se você leu, entendeu e seguiu os conselhos, mas não foi promovido e muito menos conseguiu aumento, não se preocupe. Tente Como se destacar em seu ambiente de trabalho, de Joe Calloway. Novo insucesso? Aí é o caso de apelar para um tal John Hoover e culpar o chefe: Como trabalhar para um idiota, já na décima primeira edição pela Saraiva. E se você por acaso for o próprio chefe, Bruce Tulgan lançou título encorajador: Não tenha medo de ser chefe.

Gosto muito dos que tratam das questões de alcova, a começar por um clássico: Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo… Mas Tinha Medo de Perguntar. Leu e está sabendo tudo, mas perdeu um pouco o entusiasmo na relação? Pamela Lister, pela Editora Gente, tem a solução: Sexo no casamento: dez segredos para manter viva a atração. De acordo com a autora, “o desejo a longo prazo está ao alcance de todos os que se empenharem”. Como não pensamos nisso antes? A mulher já não é mais tão nova? Sem problemas. Gail Sheehy, agora pela Rocco, explica tudo em O sexo e a mulher madura. Bem, se eventualmente os livros anteriores não ajudaram, resta gastar um pouco mais com o livro de Rosaura Rodriguez: Bem-vinda ao clube do divórcio. Li a contracapa. Rosaura explica que “não se deve confiar em conselhos estapafúrdios de amigas solteiras”. No final a incrível conclusão: “é possível ser feliz sozinha ou acompanhada”. Genial a Rosaura.

Com o crescimento do mercado, é natural que aumente o grau de especialidade dos títulos. Gostei de alguns realmente bem direcionados. Antônio Fonseca Jr., orientado pelo aumento do percentual de obesos, publicou: Tudo que um gordo deveria saber (atitudes de um gordo).

No anúncio promete uma visão holística da matéria. Fico a pensar: o que pode ser uma visão holística do gordo? Você não é gordo, mas se acha muito tímido e introvertido, ponha sua vida nas mãos de Susan Cain e seu novo livro: O poder dos quietos. A autora critica “o ideal da extroversão do século XX” (?!) e, também como está na síntese apresentada, “oferece inestimáveis conselhos sobre como os tímidos podem tirar vantagem das suas características”. Para os não raros casos de gordos tímidos a saída é ler os dois livros. Até pelo menos que alguém lance algo mais específico: “sucesso total ao alcance imediato dos gordos tímidos” (fica minha singela sugestão de título).

No fundo eu desconfio que todos os livros são escritos por heterônimos de um mesmo autor – que só muda um pouco a ordem das palavras. Viva o Chain – que ainda mantém intacta a vergonha e quase esconde os livros de autoajuda.

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