“Musashi” de Eiji Yoshikawa

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Foi no século XIX que a literatura de ficção em capítulos, feuilleton em francês, serial story em inglês, começou a sua mais ou menos breve carreira e a despertar o interesse do leitor. Encartada nas folhas dos jornais eram acompanhadas avidamente por gentis senhorinhas, galantes senhoras, sisudos senhores, jovens janotas, todos, enfim. Era a novela, hoje televisiva e que antes foi radiofônica, da época. Da Europa, notadamente França, Portugal, Inglaterra, correu o mundo. E, talvez, o maior sucesso de público tenha sido a publicação da saga do herói Miyamoto Musashi escrita por Eiji Yoshikawa em capítulos no prestigioso diário japonês Asahi Shinbun entre 1935 e 1939. Em livro vendeu mais de 120 milhões de exemplares em várias tiragens. Há cerca de 15 versões para o cinema e para a televisão. No Brasil a editora Estação Liberdade publicou o romance em tradução direta do japonês pela senhora Leiko Gotoda em 1999. São dois volumes com 1.808 páginas no total. Eiji Yoshikawa (pseudônimo de Hidetsugu Yoshikawa) nasceu em Kanagawa em 1892 e faleceu em Tóquio em 1962. Começou a escrever versões populares de histórias clássicas japonesas. Depois novelas, romances, e, mais tarde, incursionou sobre figuras da história de seu país. Fez muito sucesso e obteve algum reconhecimento. Em “Musashi” o autor baseia-se na vida de um famoso rounin ou samurai andarilho, sem um senhor feudal (daimyou) para servir, Miyamoto Musashi (1584-1645), e constrói uma estória baseada na história do famoso samurai, calígrafo, pintor (tinta e sumi-e), escritor, estudioso do zen-budismo, filósofo e criador do estilo de luta com duas espadas: niten’íchi (dois céus como um) ou nitouichi (duas espadas como uma). Mistura personagens históricos com fictícios numa época ou era, como nomeiam os japoneses, que é a Edo (1603-1687), onde Edo, a futura Tóquio, desloca o poder político dos shoguns da região Kioto/Osaka. O romance tem muitas dezenas de personagens, é ambientado em vários lugares do Japão, cada qual com o seu nome da época e com o nome atual como nota ao pé da página. Quem não está acostumado com os nomes e com a geografia japonesas pode sentir um pouco de dificuldade em memorizar.

Naturalmente, o romance é construído na forma de um folhetim. Encontros, desencontros, coincidências, fugas, lutas, suspense cujo desenrolar vem no próximo capítulo, intrigas, desaparecimentos, tempestades providenciais etc. É uma boa ficção, com muita ação e reflexões sobre a vida espiritual tão cara aos japoneses. O plano estilístico é bastante difícil de julgar, pois não tenho conhecimento do romance no original; nem meu domínio do japonês é suficiente para tal análise. É menos elaborado, porém, dos de Yasunari Kawabata, Junichiro Tanizaki, Yukio Michima e, principalmente, de Kenzaburo Oe e das fantásticas Damas Sei Shounagon (c. 976 – c. 1012 e Shikibu Murasaki (c. 978 – c. 1014). Está mais para os romances folhetinescos de Ponson du Terrail, Alexandre Dumas ou Eugene Sue. É um apanhado da época e o desenvolvimento marcial e, depois, espiritual do personagem principal em perseguir a harmonia tão cultuada pelos japoneses. A tradução/adaptação da Sra. Leiko dispensaria, em referência aos templos budistas e xintoístas, o uso dos termos bispo, missa, santos, por outros mais compatíveis com a cultura japonesa.                                      

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