A Veneza de Joseph Brodsky

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É com uma espécie de encantamento beirando o lugar comum que as pessoas de um modo geral e os maus escribas em particular falam de Veneza. A antiga Sereníssima República tem seus ardorosos defensorespara os elogios mais oblíquos e seus detratores para as críticas mais abstrusas. O que faz Veneza tão especial se não é a única cidade em meio à água? Há Bruges na Bélgica, Estrasburgo na França, Amsterdã na Holanda, São Petersburgo na Rússia.

Mas não são cidades com suas fundações sobre uma laguna. Também não tem a proximidade com o Oriente, com Bizâncio. Há a história e há, principalmente, a lenda. Enfim, Veneza é única, e a prova disso é o número de escritores que se dedicaram a descrevê-la, a cantá-la, a evocá-la, a criticá-la e last but not the least a amá-la. Giacomo Casanova, natural da Sereníssima República, que fugiu dos chumbos, a tenebrosa prisão, e que impedido de voltar, morreu no exílio. Temos os testemunhos de John Ruskin com seu indispensável livro “As Pedras de Veneza”. Os comentários de Marcel Proust, Niccolò Maquiavel, Johann Wolfgang von Goethe, Charles Dickens, Henry James, Ernest Hemingway, Mary McCarthy, Thomas Mann, Edith Wharton, Jean-Paul Sartre, Orson Welles, Lord Byron, Gabriel Faure (homônimo do músico), Mark Twain. Mas de tudo o que li, e que não foi pouco, sobre Veneza, nada me tocou tanto como a leitura de “Marca-d’Água”, do escritor e poeta russo exilado nos Estados Unidos Joseph Brodsky. Dele conhecia os magníficos ensaios no livro “Menos que Um”. “Marca-d’Água” é não somente a viagem de um poeta em torno e por dentro da cidade, seus habitantes, seus monumentos, suas águas espelhadas. É principalmente uma viagem em torno de si mesmo, de seus gostos, suas manias, idiossincrasias, com arguto olhar e texto poético. Brodsky nasceu em São Petersburgo, cidade pantanosa às margens do rio Neva, na boca do Golfo da Finlândia. Cidade da água, das enguias, das algas, do cheiro das algas geladas. E, habitante do gelo e da fria luz e das brumas, vai como uma enguia para o Sul. No começo do livro cita o poeta italiano Eugenio Montale, em “A Enguia”: “A enguia, a sereia / dos mares frios que deixa o Báltico”. Desde sua primeira viagem em 1972 com 32 anos fez mais dezessete viagens invernais. Dizia que nem amarrado e sendo pago seria capaz de ir durante o verão. É compreensível. Homem do Norte não suportava o calor. Não suportava igualmente as hordas bárbaras. O poeta percebeu o poder do olho sobre a caneta ou, melhor dito, a anterioridade daquele sobre esta.

E a excelência e a pureza da luz do inverno. É a luz de sua cidade do Norte agora dulcificada em parte pelo pálido sol do inverno veneziano e das brumas que, ao criar um túnel pela passagem do andarilho, sugere outra Veneza e outras associações do pensamento. Estende-se sobre o papel do olho, esse olho que depois vai comandar a caneta. Enquanto Sartre, em “Venice, de mafenêtre” em “Situations, IV”, parte da visão que a janela do hotel em que se hospeda, a beira de um canal lhe oferece, para a busca de uma Veneza secreta. Quando olha para baixo vê a água a refletir céu, prédios, palazzi, pontes, barcos, gente, uma Veneza agora invertida. Mas a busca dessa outra Veneza se mostra inalcançável. Enfim, é a busca da “Outra”. Porém Brodsky vê o que o exterior lhe trás de reminiscências e suas palavras constroem a sua viagem interna. O poeta, no final do livro, escreve: “…se os sonhos fossem considerados como gênero, seu principal traço estilístico seria sem dúvida a incoerência. Isso, pelo menos, seria uma justificativa para o que transpirou até agora nessas páginas”. Marca-d’Água de Joseph Brodsky – Cosac Naify 2006 – 94 páginas.

Foto: Dico Kremer

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Foto: Dico Kremer

 

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