E assim foi 2012. Com a morte de Millôr

millor

Acabou 2012 e agora começa 2013. Curiosa a importância que nós todos damos ao final do ano velho e começo do ano novo. Não fosse o papa Gregório XIII, há uns cinco séculos, ter reunido uma turma de especialistas e corrigido o calendário Juliano, no último dia 31 de dezembro teríamos assistido ao Jornal Nacional e ido dormir mais cedo. Ao adotar o calendário gregoriano passamos a nos emocionar (e eu sempre me emociono) na contagem regressiva da entrada no ano novo.

Revista Ideias – recente adepta que é do calendário gregoriano –, sugere aos colunistas que falem sobre o ano que terminou. Poderíamos dizer que 2012 foi um ano especial? Claro que não. O mundo anda chato, muito previsível. Muito pouco imprevisível. As retrospectivas dos últimos vinte anos são excessivamente parecidas. Algumas catástrofes naturais, morte de conhecidos, dois ou três escândalos mais expressivos, eleições nos anos pares aqui no Brasil. Apenas um ou outro fato mais curioso. Por aqui o julgamento do Mensalão mereceu bom espaço nas retrospectivas de praxe. Sinal inequívoco da mesmice. Enfim, Nada de novo capaz de despertar minha alegria, como está em um bom samba de Paulinho da Viola – que, aliás, completou 70 anos no 2012 que acaba de acabar.

Lamento sempre os que partem. E as retrospectivas de final de ano exercem o papel de nos lembrar das mortes do ano que finda (palavra horrível essa). Em 2012 perdemos Millôr Fernandes. É a informação mais triste e relevante do ano que se foi. Quem sabe tenha sido Millôr um dos mais completos intelectuais brasileiros. Impressiona a produção como escritor, dramaturgo, ilustrador e, do que menos se fala, tradutor. Ao traduzir é preciso ter todo o rigor e nenhum respeito pelo original, ironizava o Millôr tradutor.

Aqui no escritório da minha casa estou sempre de olho em sua “bíblia do caos”. É a síntese definitiva de Millôr (pensamentos, máximas, despropósitos, imprudências e incoerências). E Millôr tinha enorme poder de síntese. Não se escreve com 11 palavras o que se pode escrever com 10, lembrou logo na nota explicativa de abertura do livro. O que dá mesmo enorme inveja é saber que produziu tudo isso lá de sua cobertura na Vieira Souto em Ipanema, seu endereço desde a década de cinquenta. Nos últimos anos só deixava o apartamento para caminhar com alguns poucos amigos. Nosso Carlos Nasser jura que era habitué nessas caminhadas. Sem foto ou testemunha confiável eu não acredito. Nem adianta insistir. É muito para alguém de Ponta Grossa.

Em 2012 morreu Millôr aos 88 anos. Dizia-se ateu (se Deus existisse já teria me convencido, explicava). Ainda assim deve ter rezado quando sua saúde ficou bem complicada nos últimos meses de vida. Assim suponho ao lembrar que o mesmo Millôr também dizia que “o cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. Incoerente? Sim. Afinal, coerente é o sujeito que nunca teve outra ideia, noutra bela frase de nosso Millôr.

Escrever sobre 2012, portanto, só pode ser para lembrar de Millôr Fernandes. É claro que eu não posso deixar de lembrar que 2012 também foi o ano da morte de Ivan Lessa. Admirava Ivan, é claro. Implicava um pouco com o prazer que ele tinha de ridicularizar o Brasil e os brasileiros (o brasileiro tem os dois pés no chão… e as duas mãos também). Foi para Londres em 1978 (sorte da BBC) e não dava mais a cara por aqui. Prefiro Millôr esculhambando os brasileiros ali da Vieira Souto mesmo (Brasil, país do futuro. Sempre. Ou Brasil, condenado à esperança – como sempre gostava de repetir).

Mais não tenho a dizer sobre 2012. Para mim, em particular, foi um ótimo ano. Presumo que a minha irmã Denise tenha algum mérito nisso. É dela a simpatia que usei na passagem de 2011 para 2012. Um negócio de usar por dois dias um par de meias brancas novas, depois colocar a meia do pé direito no sol e à meia-noite do dia 31 de dezembro jogar a meia do pé esquerdo ao luar, pensando em algo positivo. Segui à risca. Deu certo. Na última passagem não me lembrei das simpatias. Então agora me resta pedir que Deus me ajude em 2013. Bom ano a todos.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *