Jainismo de Philip Roth e outras religiões exóticas

religiao

Convertida para a religião jainista, Merry usava um véu a fim de não fazer mal algum aos organismos microscópicos que habitavam o ar. Não se lavava para não fazer mal nenhum à água. Era o que lhe impunha a crença religiosa jainista. A descrição que a personagem Merry fez ao pai, em Pastoral Americana, de Philip Roth, provocou-me convicção inicial de que se tratava de mera ficção. Não era possível que existissem jainistas (não confundir com janistas, do Jânio Quadros). Fui consultar. O jainismo, mais ou menos como apresentado por Roth, existe sim. Há milhões de adeptos na Índia e, em reduzida escala, espalham-se pelo mundo nossos jainistas. Pequena comunidade jainista está em São Paulo. Em Curitiba, não tenho notícia.

Sou um cético. Sempre fui. As religiões me intrigam. As religiões exóticas ainda mais. “A verdade, em se tratando de religião, é simplesmente a opinião que sobreviveu” (Oscar Wilde). A verdade-opinião do jainismo sobrevive há dois mil e quinhentos anos. Desde lá, há quem acredite (e hoje são milhões) que a purificação da alma pressupõe evitar a morte de organismos microscópicos, entre outras loucuras. Religiões exóticas me intrigam muito mais.

Burrice e desinformação alimentam crenças exóticas? Richard Dawkins (em “Deus, um delírio”) cita extenso estudo (de Paul Bell, na Mensa Magazine em 2002) sobre a correlação: “quanto maior a inteligência ou o nível de instrução da pessoa, menor é a probabilidade de ela ser religiosa ou ter qualquer tipo de crença”. Resisto em aplicar o estudo a crenças normais (crenças normais?), mas fico mais confortável em citar o trabalho para explicar as crenças exóticas. Não fosse assim, como explicar a turma da cientologia?

É a religião de John Travolta e Tom Cruise. Para a Cientologia, há 75 milhões de anos, vários planetas se reuniram numa “confederação das galáxias”, governada por um líder do mal chamado Xenu. Como os planetas estavam com problemas de superpopulação, Xenu mandou bilhões de seus habitantes para a Terra, onde foram mortos com bombas de hidrogênio. Seus espíritos – chamados de thetans – são os seres humanos. Você, meu caro leitor, não passa de um thetan qualquer, um mero espírito de alguém que foi morto por uma bomba de hidrogênio. Li sobre isto há algum tempo. Nunca mais consegui assistir aos filmes de John Travolta e Tom Cruise sem pensar no malvado e assustador Xenu a assombrar as galáxias. Como podem acreditar nisso?

Tempos atrás, a revista Época revelou que a Cientologia também já havia conquistado adeptos aqui pelo Brasil. Estaria forte em Jundiaí, São Paulo. Desde então, na dúvida, tenho evitado contato com a turma de Jundiaí.

Apesar de grande presença em Jundiaí, não consta que a Cientologia tenha atraído nossos astros de cinema. Mas quem não lembra, por aqui, da súbita adesão de Tim Maia à Cultura Racional? Para a seita, Deus era carioca e tinha nome: Manoel Jacintho Coelho. O Deus Manoel “nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, quando os jornais noticiaram a queda de um meteoro no Rio de Janeiro, mas foi um erro da imprensa”, está no site oficial – que também explica: “Tratou-se, na verdade, de um corpo de massa cósmica que […] depois de penetrar paredes, entrou no corpo de um bebê”. O bebê era o Deus Manoel. Bem, cada um escolhe seu próprio Deus. A coisa é livre. O movimento rastafári não proclamou Hailê Selassiê I, imperador da Etiópia, a única representação terrena de Deus? Entre Selassiê e Manoel, Tim ficou com Manoel. Mas só por um tempo. Não demorou e Tim Maia mandou o Deus Manoel pro inferno e voltou aos velhos tempos.

Consenso entre todas as religiões, exóticas ou não, é a existência da alma – espécie de passaporte para a vida eterna. Agora, se é para acreditar em almas, o ideal é a conversão à religião “Chen Tao”. Dissidência budista, os seguidores acreditam que temos três almas. Isso mesmo. Uma vida e três almas. O verso de Insensatez, de Vinicius (por que você foi fraco assim tão desalmado…), mereceria revisão. Ninguém seria desalmado com três almas.
Temos de reconhecer que mesmo as religiões mais tradicionais carregam algum exotismo. Como classificar o limbo infantil dos católicos, recentemente revogado pelo papa Bento XVI? O que mais será revogado pelos próximos papas? Como ficam os católicos que sofreram acreditando no limbo infantil? Cabe indenização?

Tenho fé? Tenho. Em gente como Bertrand Russel, Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Fora disso, no máximo, fico com a famosa aposta de Pascal: acreditar em Deus é a opção mais inteligente. Se a crença puder vir com três almas, tanto melhor.

Leia mais

Deixe uma resposta