Cem anos de Vinicius

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Há quem possa discordar, mas Vinicius merecia muito mais do que Oscar Niemeyer ter chegado aos cem anos. Aniversário que comemoraria agora em outubro deste ano. Vinicius faz muita falta. Morreu moço demais. Antes mesmo que eu, de tão moço, tivesse me dado conta de Vinicius vivo. Conheci Vinicius já morto. Se nosso poetinha foi realmente importante – e que ninguém ouse sugerir o contrário –, foi e é fundamental para quem gosta de Bossa Nova e Rio de Janeiro. Dois componentes que estão nas extremidades da cadeia do meu DNA. Embora tenha morado um bom tempo na Gávea (nasceu e morreu por lá), algumas vezes Vinicius foi escolhido, pelos (e)leitores do finado Jornal do Brasil, o “homem típico de Ipanema”. Seu maior título, quem sabe. Em Ipanema, escreveu Ruy Castro, Vinicius fez poesia, teatro, cinema, música popular e… filhos.

Alguns filhos e muitas mulheres. Preferia as cariocas (Ela é carioca, ela é carioca. Basta o jeitinho dela andar. Nem ninguém tem carinho assim para dar. Eu vejo na cor dos seus olhos. As noites do Rio ao luar). Mas não era de discriminar. Vinicius casou nove vezes e algumas não eram cariocas. Soube explicar certa inconstância nos casamentos: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure” (Soneto da Fidelidade).

Ironia, o soneto foi dedicado a Tati de Moraes, sua primeira mulher. Era para ter sido a única. Beatriz (Tati) Azevedo – por um tempo de Moraes – seduziu Vinicius também na política. Comunista, dizem que é “culpada” do esquerda volver de Vinicius. Desconfio um pouco disso. Mas é o que contam. A aproximação com a esquerda (ao tempo em que a palavra tinha algum significado) deu um bom prejuízo a Vinicius.

Estudando sempre na praia de Ipanema – diz a lenda -, Vinicius foi aprovado no concurso do Itamaraty. Logo chegou a vice-cônsul. Na medida para Vinicius, como diplomata andou por Los Angeles e Paris. Mas foi cassado em 1968 por um ato institucional, acusado pelos militares de subversivo (outra palavrinha que perdeu seu significado). Magalhães Pinto – coisa esquisita – demitiu Vinicius. O presidente Lula, com quem Vinicius esteve em apoio às greves do ABC no final da década de setenta, homenageou o poeta com a reabilitação post mortem em 2010. Mas política era coisa secundária na vida de Vinicius. A história, aliás, mostrou que teria sido um grande desperdício se Vinicius tivesse perdido tempo a tentar construir o paraíso na terra. Vinicius foi, sobretudo, poeta e compositor. Ninguém compôs tanto e tão bem para a Bossa Nova. Não há paixão que não se explique lendo (ou ouvindo) Vinicius.

Vamos ficar só com alguns títulos conhecidos: “Se todos fossem iguais a você”; “Eu não existo sem você”; “Coisa mais linda”; “A Primeira Namorada”. Insensatez está à disposição de todos: Vai, meu coração, pede perdão. Perdão apaixonado. Vai, porque quem não pede perdão. Não é nunca perdoado. Se ainda for necessário, nunca é demais apelar para a música primeira da Bossa Nova, com inovadora batida do violão de João Gilberto: Vai minha tristeza. E diz a ela que sem ela não pode ser (Chega de Saudade).

Como eu disse antes, nasci tarde demais para acompanhar Vinicius vivo. Queria ter assistido aos shows na Boate Bon Gourmet, em Copacabana. Lá, apresentou-se com Tom Jobim, João Gilberto e os Cariocas. Nasci tarde demais. Meus pais estiveram em um show da temporada de quase um ano no Canecão. Vinicius, Tom, Toquinho e Miúcha. Vinicius morreu poucos anos depois. Era criança pequena. Nasci muito tarde.

Há poucos anos fui a um show de comemoração aos cinquenta anos da Bossa Nova. Em um pequeno bar de hotel no Arpoador, estavam lá Carlinhos Lyra, João Donato, Roberto Menescal, entre outros que conviveram com Vinicius. Foi o mais perto que cheguei da vida de Vinicius. É isso. De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo (Vinicius, é claro).

Nota. Aos interessados, recomendo a boa biografia de José Castello (da excelente coleção da Editora Relume: “perfis do Rio”). A rápida, mas divertida biografia de Geraldo Carneiro (Espaço Cultural). E tudo que escreveu sobre Vinicius nosso biógrafo da Bossa Nova, Ruy Castro. Por fim, realmente imperdível é a cinebiografia de Miguel Faria Jr. É coisa para ser assistida uma vez por mês (compre o DVD; alugar é pouco). O filme mostra como de fato Vinicius teve uma vida e tanto. “Eu queria ter sido Vinicius”, confessou orgulhoso Carlos Drummond de Andrade. Desconfiem seriamente de quem discordar de Drummond.

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