Woody Allen e a mesa ao lado

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Venho dizendo há um bom tempo que não irei mais a restaurantes que tenham mesas coladas uma nas outras. É uma promessa antiga. Mas a verdade é que não consigo cumprir. Os restaurantes cada vez mais amontoam as mesas. Parecem refeitórios de penitenciárias de filmes americanos. Um conforto próximo ao que nos proporcionam as refeições em voos de classe econômica.

O desconforto não é apenas físico (tirar a casaco pode derrubar o dry martini da dama ao lado). O principal problema está nas conversas cruzadas. Ao sair para jantar se escolhe a companhia. Escolher a companhia é algo muito sério. Implica em reconhecer certa afinidade com os convidados (se for um almoço em família, explico, a afinidade é presumida). Não fosse a proximidade das mesas, você estaria jantando com a turma da mesa ao lado? Provavelmente não. Mas é o que acaba acontecendo: um grande jantar comunitário.

Não é raro que o indesejado vizinho tenha o estranho hábito de conversar gritando. Muitos parecem o personagem de Bob Goldthwait, o terrível Zed, em Police Academy (sim, eu já assisti ao lixo). Acham que estão sozinhos em alguma sala com isolamento acústico. E gritam. Riem ruidosamente. Gargalham. Alguns desencadeiam uma tosse louca depois da gargalhada. E do que tratam nossos vizinhos involuntários? Aqui está o problema principal. Eles podem até estar certos, mas basta uma conversa da mesa ao lado para que eu comece a discordar de tudo. É diabólico.

— Só os idiotas não percebem que os governos nos escondem a existência de seres extraterrestres – afirmou um vizinho de mesa em jantar recente. Ele dizia isso a um casal que ouvia atento à científica opinião. A esposa do especialista em Ovnis fazia cara de orgulhosa. As mesas estão tão próximas umas das outras que o orgulho da cara da mulher do especialista da mesa ao lado se apresentou nítido pra mim. E seguiu a conversa do especialista:— meu primo tem um amigo que é sobrinho de uma cara importante da aeronáutica que confirmou tudo. Santo Cristo. Sempre me dá uma vontade irresistível de invadir a conversa.

Estou convencido de que alguma espécie de azar acaba atuando no momento em que me posiciono em restaurantes de mesas amontoadas. Numa das vezes nem bem sentei e moça ao lado já começou assim: — sabia que se você ouvir a música Ilariê da Xuxa ao contrário aparece voz do demônio? — É mesmo? E assim seguiu a conversa, com irritante fartura de pormenores sobre a estranha tese do pacto de Xuxa com o Demônio.

Ora, eu tenho o direito de não discutir Ovnis e pactos demoníacos em meus jantares. O meu direito, aliás, é de simplesmente não tomar conhecimento de tais temas. Mas as mesas coladas instauram uma espécie de diálogo comunitário, com os mais variados e, não raro, indesejados assuntos. E sem direito a palpites. Obrigo-me a uma participação passiva na conversa. Ouvir e ouvir.

Alguém pode sugerir que eu me concentre na conversa com o pessoal da própria mesa. É o que eu tento fazer, mas nem sempre é possível. As opiniões estranhas me perseguem. O desejo de interferir na conversa cresce de forma assustadora. E seria inútil intervir, eu sei. A convicção desta turma é tal que eu seria considerado um ingênuo ou ignorante por desconhecer a questão dos Ovnis ou do pacto Xuxa/Demônio.

Por isso tenho me contentado em, de tempos em tempos, rever a cena de Woody Allen e Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977). Os dois estão numa fila de cinema. Atrás um sujeito inconveniente grita inconveniências. As mais variadas inconveniências, apresentando-se como especialista (os especialistas quase sempre são muito chatos…).

Woody Allen fica desesperado com as sandices. Lá pelas tantas não se aguenta e interfere na conversa. E diz ao sujeito que ele não entende nada da tese do professor canadense Marshall McLuhan (um dos temas abordados pelo inconveniente). O inconveniente, é claro, diz que é Woody Allen quem não entende nada de McLuhan. É neste momento que Allen chama o próprio McLuhan (que acompanhava a conversa) para dizer ao inconveniente que ele de fato não entendia nada sobre sua tese. Ponto final. Depois de humilhar o cara da fila, Allen olha para a câmera e diz: se a vida fosse sempre assim…
A aparição ficcional de McLuhan é um sonho de todos que se irritam com as opiniões da mesa ao lado.

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