Os protestos, é claro

ninja

Aprecio muito – e desde sempre – um bom protesto. Qualquer protesto. Aliás, sou fanático por um protesto. Pela história dos protestos. Da Primavera dos Povos, de 1848, até à recente Primavera Árabe. Ainda criança, acompanhava meu pai nas Diretas Já. No Impeachment, do Collor eu até discursei. Aliás, em tempos de estudante o que mais fiz foi protestar (DCE, UNE etc.). No início de 1989, eu presenciei a agitação pré-queda do Muro, tanto em Berlim como em Budapeste. Em 1997, eu acompanhei os protestos em favor do regime em Cuba. De volta a Havana, em 2011, acompanhei quem protestava contra o regime. Em 1998, eu estava na capital da República Tcheca e vi as manifestações em homenagem aos 30 anos da primavera de Praga. Estudando um tempo em Milão, em 2002, soube que haveria um protesto do Fórum Social Europeu em Florença. Não tive dúvida.

Peguei um trem e fui acompanhar. Fiquei fascinado com as trezentas mil pessoas que invadiram a pequena cidade da Toscana. Como prova, tenho aqui a foto do francês Bové e seu exótico bigode, um símbolo da antiglobalização. Há alguns anos, em Santiago, acompanhei os violentos protestos dos estudantes. Ano passado, na Argentina, fui a um megacomício contra o governo. Propositadamente, acompanhei tudo ao lado dos barulhentos trotskistas do Partido Obrero. Nos Estados Unidos, eu acompanho até aqueles boicotes de consumidor na frente das lojas. Onde eu estiver, tendo protesto ou manifestação, eu acompanho. Em apoio às causas? Quase nunca. Eu gosto mesmo é do protesto em si e por si. É quase um fetiche.

Sendo assim, é claro, evidente e óbvio que eu não poderia deixar de falar dos protestos recentes aqui no Brasil. Há dois anos escrevi na nossa revista Ideias que o protesto tinha saído de cena no Brasil. Sobravam apenas as manifestações exóticas (liberação da maconha, marcha das vadias). Estava enganado; quase sempre estou. Incrível surpresa, uma pequena manifestação pela redução da tarifa do transporte coletivo fez eclodir no Brasil inteiro uma série de grandes manifestações. Engordaram os protestos; engordou a pauta. A partir de uma reinvindicação inicial bem objetiva (redução da tarifa), a indignação passou a ser geral. Contra tudo e contra todos. Ética era o tema principal a dar o tom da extensa e difusa pauta.
O mais impressionante é o imponderável nisso tudo. Quem poderia cogitar algo parecido uma semana antes. Há motivos para protestos? Sempre há; sempre haverá. Sorte minha – que aprecio um bom protesto. Mas é inegável que, para usar uma construção ao gosto dos velhos comunistas, aqui no Brasil não estavam presentes as condições objetivas e subjetivas para a revolta. Corrupção? Há registro de desvios de verba pública desde a Capitania de São Vicente. Admito discordâncias, mas não considero corrupta a atual Presidência. Houvesse um corruptômetro, pelo menos diria que já tivemos índices mais elevados. Os índices de inflação também não justificam a revolta. Com Rui Barbosa no Ministério da Fazenda, logo depois da proclamação, a inflação já era bem maior. No Governo Sarney, o índice de inflação acumulado em uma semana já era maior do que a atual meta para o ano inteiro. Baixo crescimento também não justifica tanto barulho. Estivéssemos na Grécia, com uma contração que já dura um bom tempo… ou na Espanha, com o espantoso desemprego.

Enfim, ninguém pode saber ao certo as razões do nosso curto período de protestos. Já citei aqui na revista Ideias um estudo de Philip Tetlock. O americano coletou durante 20 anos cerca de 28.000 previsões acerca de eventos políticos de 284 experts em diversos campos e de diversas orientações políticas. A conclusão básica é que eles se saíram milimetricamente melhor do que o acaso. O comportamento humano é quase imprevisível. É claro que não faltaram “analistas políticos” a explicar cientificamente tudo sobre os protestos. Nossos “profetas do acontecido”. Eu confesso que não consegui entender nada. Achava apenas que não durariam muito. Reduzir tarifa é uma pauta objetiva, mais cotidiana. Alcançada, o protesto não se sustenta em pautas difusas. Foi mais ou menos o que se deu com a turma do occupywallstreet. É uma onda. Nada mais do que isso. E foi mesmo uma onda. Passou. Sobraram alguns grupos mais radicais e politicamente desorientados.

Não serei eu a fazer a análise sociológica do movimento. A minha análise é estética. Vandalismos de lado, foram ótimos protestos. O Brasil não tinha bons protestos há muito tempo. Já estava eu em certa crise de abstinência. Estou resolvido. Por enquanto. Mas não posso deixar de sentir uma boa inveja dos egípcios. Estão lindos os protestos por lá. Contra ou a favor da volta de Mohamed Morsi. A causa não importa. O que importa é o protesto. O movimento.

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