As músicas que contam a História

00-capa-cartazes-2013

Cartazes de 2013 – frases livres, MPB de outro tempo e Hino Nacional

 

Quem é que poderia imaginar que jovens, tão dispostos à baixa cultura e sem aparências de se envolver na vida pública do País, poderiam tomar as ruas em tamanho movimento como o que vimos em junho? A geração que quer “tchu e tcha” quer também outras coisas ou, pelo menos, não quer mais as mesmas coisas…

O curioso foi notar que as frases usadas em cartazes, em gritos, em megafones, tinham na grande maioria três fontes: o Hino Nacional (sim, aquele, da letra quilométrica e quase incompreensível de Joaquim Osório Duque Estrada escrita lá em 1909); pensamentos livres e completamente abertos, sem nenhum tipo de metáfora ou chance de interpretação que não fosse a literal; e trechos da canção popular.

Em 2013, jovens buscam inspiração em Geraldo Vandré, de 1968. Foto: Divulgação

Em 2013, jovens buscam inspiração em Geraldo Vandré, de 1968. Foto: Divulgação

A utilização do Hino tem aquele apelo uníssono que faz com que todos tenham uma só voz, uma mesma emoção, um sentimento de amor à pátria amada salve, salve. As frases diretas dão conta de nossa possibilidade de expressão irrestrita: de pensamentos claros a xingamentos, tudo é permitido na cotidiana vida democrática. Mas e as canções populares? Qual MPB ganhou as ruas? Curiosamente, ou não, o que se viu e ouviu nas manifestações a esse respeito tinham relação com o passado. Nomes de outras lutas vieram à tona.

Num rápido passeio pela História do País é possível encontrar os registros sonoros de cada momento.

O primeiro samba gravado em disco, em 1917, já trazia, com classe, beleza e inteligência, uma pitada de ironia sobre a época? Não, melhor que isso! A letra original que dava conta de que “o chefe da folia, pelo telefone mandou avisar…” sofreu alteração popular depois que o chefe da polícia do Rio de Janeiro, Aureliano Leal, determinou que seus subordinados sempre avisassem aos infratores sobre os flagrantes que seriam disparados às casas de jogos de azar. A negociata foi denunciada com humor pelo público que transformou a letra e registrou a história: “O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar / Ai, ai, ai / O chefe gosta da roleta, / Ô maninha / Ai, ai, ai / Ninguém mais fica forreta / É maninha. / Chefe Aureliano, / Sinhô, Sinhô, / É bom menino, / Sinhô, Sinhô, / Para se jogar”.

O Bonde de São Januário, linha operária que ia do Largo São Francisco de Paula até a Praça Argentina.  Foto: Divulgação

O Bonde de São Januário, linha operária que ia do Largo São Francisco de Paula até a Praça Argentina. Foto: Divulgação

Lá pela década de 1940, o samba comendo solto a cantar a malandragem e o culto aos prazeres logo despertou a atenção do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura estadonovense. A “orientação” do órgão era para que os compositores deixassem de fazer apologias à vida boêmia e a tudo que eles achavam que se relacionava com ela. E foi assim que Wilson Batista e Ataulfo Alves chegaram ao Bonde de São Januário, a retratar a vida bem regrada do trabalhador: “Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar  / O bonde São Januário / Leva mais um operário: / Sou eu que vou trabalhar”.

O tempo passa, o tempo voa e o mercado fonográfico brasileiro chegou à vertente que ficou conhecida como “música de protesto”. Com a ditadura militar e o AI-5, era preciso contrabandear mensagens, codificar informações e, ainda assim, deixar que ideias e ideais chegassem ao público de maneira clara. As metáforas ganharam os versos e uma penca de bem-sucedidas composições driblou o regime e chegou às ruas, aos discos, às rádios, aos estudantes, aos que se opunham politicamente. Chico Buarque escreveu Apesar de Você em 1970 e se safou da censura justificando que o “você” da letra era uma mulher muito mandona “Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão / A minha gente hoje anda / Falando de lado / E olhando pro chão, viu / Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão / Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar / O perdão / Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia”. A censura flagrou também os que queriam tratar questões mais livres, popularescas, ligadas ao sexo e às liberdades. Caso de Odair José, que teve muitos problemas com temáticas simples, mas moralmente condenáveis: “Você diz que me adora / que tudo nessa vida sou eu / então eu quero ver você / esperando um filho meu / Pare de tomar a pílula / Porque ela não deixa o nosso filho nascer”.

Cazuza na década de 1980 a cantar a plenos pulmões Brasil, mostra tua cara.  Foto: Divulgação

Cazuza na década de 1980 a cantar a plenos pulmões Brasil, mostra tua cara. Foto: Divulgação

Como nem todo mundo pensa igual, do mesmo tempo surgiram versos que apoiavam a filosofia governamental, esses, também por isso, tinham vida mais fácil nas rádios, TVs e shows. Caso de “Eu te amo meu Brasil, eu te amo / Meu coração é verde, amarelo, branco, azul, anil / Eu te amo meu Brasil, eu te amo / Ninguém segura a juventude do Brasil”, do compositor Don, que ganhou interpretação d’Os Incríveis em 1970 a retratar as belezas naturais e humanas do País, sem crítica ou descontentamento.

Há as músicas que marcam o exílio fora do País que muitos passavam, como Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, que Roberto Carlos fez para Caetano Veloso quando o baiano estava em Londres: “Um dia a areia branca/ Teus pés irão tocar/ E vai molhar seus cabelos /A água azul do mar / Janelas e portas vão se abrir / Pra ver você chegar /E ao se sentir em casasorrindo vai chorar”.

E depois, com o pedido da anistia ampla, geral e irrestrita, as composições cantaram a volta pra casa. Um símbolo desse momento é O Bêbado e A Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc: “E nuvens, lá no mata-borrão do céu / Chupavam manchas torturadas, que sufoco / Louco, o bêbado com chapéu-coco / Fazia irreverências mil pra noite do Brasil / Meu Brasil / Que sonha com a volta do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu num rabo de foguete / Chora a nossa pátria, mãe gentil / Choram Marias e Clarices no solo do Brasil”.

Mais um salto na História do País e chegamos à década de 1980, à redemocratização. Os artistas que surgiam naquele cenário, filhos de quem conheceu época em que tudo era velado, iniciaram o seu caminhar exercendo a liberdade de cantar versos claros e resolveram guardar no bolso os códigos de mensagens e tudo passou a ser dito sem embaçar ideias: “Não me convidaram/ Pra essa festa pobre/ Que os homem armaram/ Pra me convencer/ A pagar sem ver/ Toda essa droga /Que já vem malhada/ Antes de eu nascer (…) / Brasil /Mostra tua cara /Quero ver quem paga /Pra gente ficar assim” (Cazuza, George Israel e Nilo Romero, música de 1988).

A ambiguidade – máscara e pedido. Foto: Divulgação

A ambiguidade – máscara e pedido. Foto: Divulgação

Com liberdade para pensar, falar, mobilizar em qualquer meio, reunião ou conversa, a música foi se distanciando de ser repórter de causas e movimentos, apenas algumas intervenções aqui e ali. O tempo passou e certa frustração pelo reconhecimento de antigos problemas, independentes do regime, foram fazendo com que os artistas revelassem o cotidiano com os ares da vida privada. Os novos compositores, os filhos dos filhos, vez ou outra se aventuram por temáticas de registro de época, mas, em peso, preferem não dar nomes aos bois e nem oposições ou afirmações diretas. A maioria acabou por virar uma causa única, meio generalizada, meio sem identidade definida; temas que cabem em qualquer lugar do mundo: a pobreza, a fome, a injustiça.

E dessa época? Da Revolta do Vinagre; da Manifestação Mil Causas, Mil Coisas; da O Gigante Acordou; da Vem pra Rua, quais serão os registros em nosso cancioneiro? Quais compositores poderão marcar voz desse momento? Mesmo com toda liberdade de expressão, mesmo com todas as possibilidades de cada um gritar o que bem entender a respeito da situação atual, será que não cabe ao artista também transcrever isso tudo? Sim, cabe! Nós não sabemos se o Facebook será, de fato, eficiente registro para os tempos futuros…

E como começamos com o Pelo Telefone, encerramos com Gilberto Gil, Pela Internet, de 1997: “Eu quero entrar na rede /Promover um debate / Juntar via Internet / Um grupo de tietes de Connecticut/De Connecticut acessar/ O chefe da Macmilícia de Milão/ Um hacker mafioso acaba de soltar/ Um vírus pra atacar programas no Japão/ Eu quero entrar na rede pra contactar/ Os lares do Nepal, os bares do Gabão/ Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular /Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar”.

 

Leia mais

Deixe uma resposta