Cinema. Ed. 143

Foto: Divulgação

A rebeldia pragmática

Ângela Chiarotti

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

É provável que Hollywood venha a fazer, nas próximas décadas, uma cinebiografia de Clint Eastwood. Longa-metragem? Que nada. Uma minissérie talvez seja mais apropriada, pela duração, para dar conta de uma trajetória longa e insólita como a desse ex-salva-vidas que se transformou em um dos astros mais populares do cinema nos últimos 50 anos. Como se ainda não bastasse, virou um dos cineastas americanos de maior prestígio, dentro e fora dos EUA, na virada do milênio. Um auteur, distinção que a crítica francesa confere, desde os anos 1950, a poucos diretores com trânsito no cinema industrial.

Quando lançou As Pontes de Madison (1995), um drama romântico que surpreendeu quem o conhecia apenas por faroestes e policiais, Eastwood havia completado 65 anos. Desde então, ele dirigiu mais 15 filmes, incluindo o documentário Piano Blues (2003). Trouble with the Curve, seu mais recente longa, sobre o fim de carreira (e de vida) de um recrutador de talentos para o beisebol, tem lançamento previsto nos EUA para setembro. É a primeira vez em que ele atua como ator para outro diretor desde Na Linha de Fogo (1993), realizado pelo alemão Wolfgang Petersen. Não saiu de casa, entretanto: a produtora é a sua Malpaso, que fundou há mais de 40 anos, e o diretor estreante é o sócio e amigo Robert Lorenz, seu assistente em Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004), entre outros longas.

Muito trabalho, incontáveis histórias. Uma delas fornece uma imagem de simbolismo extraordinário para uma hipotética cinebiografia. A sequência seria ambientada durante a Grande Depressão, nos anos 1930. Tempos bicudos em que a família Eastwood se deslocava de uma cidade para outra de acordo com os empregos que Clinton, o pai do ator e diretor, encontrava. Um deles, como frentista em um posto de gasolina da Standard Oil, levou os quatro – pai, mãe, Clinton Jr. e a irmã – a passar a maior parte do tempo em um trailer “com uma única roda” ou dentro de um carro. Moravam “em um lugar muito velho, bem no meio da roça”, segundo as lembranças de Eastwood.

Shakespeare na prisão

Ângela Chiarotti

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Na Itália, Paolo e Vittorio Taviani não são reverenciados apenas como cineastas. Os irmãos nascidos na Toscana são celebrados como poetas, graças ao lirismo com que conseguem abordar os problemas sociais e políticos há mais de 50 anos nas telas. Os autores de obras-primas como Pai Patrão (1977), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, e de A Noite de São Lourenço, que conquistou o Grande Prêmio do Júri no mesmo festival, em 1982, continuam sua “busca pela verdade e pela simplicidade”. Desta vez, a dupla de olhar preciso e humanista encontra poesia numa prisão de segurança máxima de Roma, chamada Rebibbia.

“Ficamos emocionados quando soubemos que um grupo de detentos, muitos deles condenados à prisão perpétua, recitava ‘Inferno’, de Dante Alighieri. Curiosamente, a arte os ajudava a expressar o inferno de suas vidas na cadeia”, disse o irmão mais velho, Vittorio.

Daí nasceu a ideia de filmar os mesmos presos encenando Júlio César, de William Shakespeare, o que resultou no longa-metragem Cesare Deve Morire (César Deve Morrer). A produção é estrelada por detentos e ex-detentos de Rebibbia – em sua maioria, condenados por assassinatos, tráfico de drogas e outros crimes enquadrados na lei anti-Máfia na Itália. Eles são filmados em suas celas minúsculas, nos corredores e no pátio da prisão durante a seleção de elenco, os ensaios e os preparativos para a montagem – quando tudo é registrado em preto e branco pela câmera dos Taviani. A fotografia passa a ser colorida apenas no momento da encenação da peça, em teatro improvisado na cadeia.

“Foi uma maneira de separarmos a ação dentro do presídio do suposto mundo lá fora. O preto e branco deu um toque menos realista ao trabalho dos presos nos bastidores, o que nos ajudou a fugir do aspecto documental. Guardamos as cores apenas para a explosão de emoções no palco, quando eles deixam de ser presidiários, tornando-se atores”, contou Paolo, de 80 anos, com mais de 20 filmes no currículo, sempre em parceria com o irmão.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *