Confissões

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Na casa da minha mãe, os homens falavam baixo, mas diziam muita coisa. Às vezes com o olhar, às vezes com as mãos. Cresci acostumada. Nem achava ruim. Cicinha sempre chorava escondida, mas eu não. Eu sabia que aquela era minha vida, meu jeito de viver neste mundo.

Sempre vivi assim. O primeiro fora de casa foi o Dirceu, o Dirceu da venda. Ele me dava doces quando eu levantava um pouco a bainha. Quando os chocolates começavam a rodar no baleiro eu sabia que valiam mais e mostrava um pouco da renda da calcinha, mas só quando estava com a cor-de-rosa.

Depois o Alfredo da bicicletaria me disse que só consertaria o pneu se eu deixasse que ele espiasse pela frestinha do banheiro na hora de eu tomar banho. Abri a cortina da janela. Que que tem? Mal nenhum.

Nem via nada de grave. O corpo é uma coisa, a alma da gente é outra. Um dia antes da comunhão fui conversar sobre essas coisas com o padre. Mas só fui porque a Cicinha ficou dizendo que era pecado, que era errado e que Deus ia me castigar. Mas o padre entendeu o meu caso e disse que era para eu não ficar triste e nem me preocupar porque Deus sabe da bondade de cada um e daí me disse para me confessar sempre e contar pra ele tudo o que acontecia. Para não deixar o padre triste e ele não achar que eu estava escondendo coisas, quando não tinha nada pra confessar, inventava umas histórias. A gente tinha aquelas conversas dentro da salinha lá atrás do altar. O padre ficava de um lado da mesa e eu do outro. Às vezes ele pedia para eu mostrar como eu fazia, eu mostrava. Ele me segurava e perguntava se os homens faziam bem daquele jeito. Quando o padre acertava eu só balançava a cabeça, quando ele errava eu dava risada e dizia que ele não entendia daquelas coisas porque ele era padre.

Na semana passada contei pra Cicinha que o padre disse que não era pecado e que eu sabia que ele até que gostava, que não me dava doce nem consertava o pneu, mas que me garantia que explicava o meu jeito pra Deus. E foi isso que complicou tudo. Cicinha foi correndo contar pra mãe. A mãe me puxou pelo cabelo e me bateu no rosto, nas pernas, em tudo. Disse que ia deixar meu corpo marcado para eu aprender e nunca mais fazer nada. O Alfredo ficou olhando e me xingou. Eu fiquei com tanta raiva que contei pra mãe que ele ia no meu quarto à noite e fazia aquelas coisas e tampava a minha boca. Ela disse que era mentira, eu jurei que não era e o Alfredo tirou a cinta e também me bateu. Me trancaram no quartinho dois dias, quando saí fui procurar o padre, mas ele não estava mais na igreja.

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