Editorial. Ed. 143

O País foi surpreendido em julho pelos protestos de rua que continuam em cidades como São Paulo e Rio, mas agora como expressão de violência que pouco tem a ver com a reivindicação de melhoria nos serviços públicos e decência no comportamento de governantes.

Lástima. Os ataques a prédios públicos, as depredações que geram um custo a mais para o contribuinte, e os prejuízos a estabelecimentos privados destruídos e até saqueados por delinquentes, desmoralizam o movimento e retiram de foco o responsável principal pela insatisfação geral, o governo federal e sua política econômica pífia, ridícula e frustrante.

Não há muito que esperar desse governo que gozou de ampla aprovação e que agora amarga o insucesso de seus principais projetos e promessas, todos discutíveis, como o trem-bala, conta de luz mais barata, câmbio sob controle, obras da Copa sem desvios, inflação controlada, exploração do pré-sal, gasolina barata, orçamento equilibrado.

Dilma tem pouco mais de um ano de mandato pela frente e dificilmente conseguirá realizar alguma coisa se continuar a cometer as trapalhadas construídas por ela mesma, com a colaboração de um dos Ministérios mais incompetentes da História desta República.

Há decisões difíceis de tomar. Um exemplo: se continuar a reprimir os preços dos combustíveis, com ajustes insuficientes, agravará a situação da Petrobras, já complicada por erros acumulados em vários anos – incluída a obrigação de controlar pelo menos 30% dos poços de petróleo do pré-sal.

A frustração se aprofundou. O espaço vazio deixado pelo desgoverno vem sendo ocupado por paixões das quais o mínimo que se pode dizer é que elas se têm mostrado amargamente contraditórias. Paixões dúplices, paixões que incendeiam o coração das massas e que parecem tantas vezes grandiosas, mas que podem ser estreitas e mesquinhas, e que por isso se revelam frustrantes e azedas, desumanizantes, quando afinal se materializam.

A paixão das massas nas ruas nasce da revolta diante das injustiças e desigualdades sociais, mas tem também, ao lado de sua metade generosa, uma dimensão sombria, rancorosa e ressentida. Quando se exacerbam as duas paixões gêmeas, e predomina a sua banda escura, não é de admirar que o resultado seja a justificação de governos autoritários, maléficos e desumanos. É o risco que corremos com a deformação de um movimento que começou com todas as tintas da democracia e degringolou para a estupidez dos que querem apenas o tumulto.

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