Île de France: um clássico

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Fachada do restaurante que está no mesmo endereço desde 1957. Foto: Denis Ferreira Netto

Fachada do restaurante que está no mesmo endereço desde 1957. Foto: Denis Ferreira Netto

Subir a estreita escada, logo depois de cruzar a porta aberta para a praça que é conhecida como “a do homem nu”, apesar de ser um casal que está bem à vontade ali no centro velho de Curitiba, que agora teima em modernizar-se com cores, asfalto e ares de boulevard, afastando para bem longe os encontros regados à promiscuidade e outras coisas nada glamourosas da região, é como voltar no tempo. Enquanto levas de novos chefs e interessados no assunto discutem o futuro da gastronomia, se alta ou baixa, orgânica, responsável, molecular ou tradicional, ali, quase nada mudou. Seus frequentadores querem apenas ser reconhecidos, tratados pelo nome e bem servidos, além de esbaldarem-se com cremes e folhados, muito coquetel de camarão e estrogonofe. É para poucos e para os fiéis clientes acostumados com o padrão da casa.

Escalado os degraus da entrada, uma pequena e aconchegante sala dá as boas-vindas com os pratinhos de polvilho salgado que estala na boca. Logo mais à frente é um imponente bar que se ocupa de saciar os desejos dos sedentos. Há quem diga que o lugar cheira a mofo e que é abafado demais, só pode ser intriga, bradam os fãs que veneram o ar parisiense em terras paranaenses.  Seu charme é inegável, é preciso confessar. Reduto de abastados curitibanos que souberam apreciar os sabores importados que não costumavam frequentar as mesas da província, o lugar causava curiosidade e inveja de uma classe que começa a ascender e até pode frequentar, mas nem quer mais tanto, mesmo assim, o Île de France é uma instituição da cidade há 60 anos.

Clara e Jean Paul Decock, no comando do restaurante há mais de 30 anos. Testemunhas de algumas cenas familiares há pelo menos duas gerações. Foto: Denis Ferreira Netto

Clara e Jean Paul Decock, no comando do restaurante há mais de 30 anos. Testemunhas de algumas cenas familiares há pelo menos duas gerações. Foto: Denis Ferreira Netto

A idade avançada da casa contraria tendências e parece não mostrar envelhecimento, mistérios de Curitiba. Os proprietários Jean Paul e Clara Decock fizeram festa para comemorar o aniversário e convidaram jornalistas e ilustres clientes que participaram da abertura do restaurante, como a decano Rosi de Sá Cardoso e o arquiteto Lubomir Fichinski, todos felizes, com motivos de sobra para tal, poucos restaurantes conseguem a proeza.

Para entender: Émile e Janine, pais de Jean Paul, chegaram aqui em 1951 e abriram o bar Normandie, na Cruz Machado, dois anos depois, com a decisão de ampliar o cardápio que já chamava atenção à época, surgiu o Île, como é mais conhecido, instalado da rua Dr. Muricy. Em 1957, foi para o endereço na praça Dezenove de Dezembro, onde brilha até hoje junto com a charmosa miniatura da Torre Eiffel, que enfeita o telhado do prédio de dois andares. Com a morte do pai, é o casal que passa a tomar conta do lugar.

 Lubomir Fichinski e dona Rosi de Sá Cardoso, presentes à inauguração do restaurante quando ele funcionava na rua Dr. Muricy em 1953. Foto: Denis Ferreira Netto

Lubomir Fichinski e dona Rosi de Sá Cardoso, presentes à inauguração do restaurante quando ele funcionava na rua Dr. Muricy em 1953. Foto: Denis Ferreira Netto

Tons de vermelho, meia luz, lambris de madeira, papel de parede, seleção musical francesa, carta de vinhos requintada, garçons que acompanham a trajetória da casa, como João Bauer, há 38 anos servindo ali, e uma seleção de pratos e sobremesas, como “Coquilles Saint Jacques”, “Stroganoff de mignon e de camarão”, “Medaillons au roquefort”, “Steak au poivre”, “Crepe Suzette”, “Crème Brûllée à L’Orange” e os copiadíssimos “Profiteroles”, dá mesmo para imaginar-se na Paris antiga. O Île é um endereço certo para uma noite elegante.

Interrompo a escrita para preparar a receita de um clássico da casa e apresentar aos leitores o Filet mignon aux cèpes e trufas. Reclamo que não é tempo de trufas frescas e me nego a usar as variações que chegam ao nosso país, dispenso azeites, conservas e manteigas e uso apenas o shiitake fresco. Volto a escrever contando que recebi elogios e que o prato agrada dentro do que se propõe. Bon apétit et vive la Île!

 

Filet mignon aux cèpes e trufas
Foto: Romildo Voss Jr.

Foto: Romildo Voss Jr.

Um filet mignon grelhado

Molho
Ingredientes
Sal
Pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Shiitake fatiado
Uma colher de chá de manteiga
2 colheres de sopa de vinho branco seco
1 colher de café de manteiga de trufas
1 colher de sopa de lascas de trufas
300 gramas de creme de leite fresco

Modo de preparar
Doure a manteiga, adicione o shiitake em fatias, sal, pimenta e vinho branco. Deixe evaporar por três minutos. Em seguida, coloque a manteiga e as lascas de trufas e o creme de leite. Deixe apurar por cinco minutos ou até que o molho esteja cremoso.

Nota: eu grelhei o filet na manteiga e usei a mesma frigideira para fazer o molho, dando-lhe mais sabor, e como comentei no texto, não usei a manteiga e nem a trufa em conserva. Não estamos na época de trufas frescas e aqui é muito difícil e caro conseguir o produto.

 

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