Laís Mann de bem com a vida

00-capa-lais

Ela foi musa de toda uma geração e até hoje tem quem se lembre do seu memorável e inesquecível “Boa noite”, no Show de Jornal, do Canal 4. Hoje, com uma longa trajetória profissional, Laís Mann parece ter encontrado na maturidade a liberdade para ficar de bem com a vida.

Segura, afirma: “Eu tenho tudo que eu gostaria de ter”. A apresentadora hoje encontra tempo até para se dedicar ao teatro. Conta que tem a autonomia de poder dançar um tango, escolher um vinho de sua preferência e, claro, continuar cantando.

Mais madura, fala que agora tem a serenidade para entender o processo de nascer, viver e morrer. Em entrevista à revista Ideias, Laís Mann relembra os grandes momentos da sua carreira e conta as novas perspectivas. Fala também da arte, que, para ela, é universal e não tem fronteiras.

 

Ideias: Você é muito conhecida pelo trabalho no telejornalismo, mas sua trajetória artística começa um pouco antes, não?

01_mg_2519ideiasLaís Mann: Na verdade, eu era modelo. Eu fazia desfiles para uma loja de teenagers, depois fui desfilar para as butiques da época. Já aparecia na televisão: ia desfilar, dar entrevistas… então um diretor me viu, mandou me chamar, e perguntou se eu queria fazer o jornal da noite. Isso era no canal 12, era TV Paranaense (que depois veio a ser Globo). Eu disse que não.

Aquilo não estava nos meus planos, eu queria outro emprego. Eu trabalhava como vendedora, e acumulava a função de modelo. Depois que eu briguei na loja e pedi demissão, eu me vi sem emprego. E antigamente a gente não podia ficar sem trabalhar. Minha mãe não permitia.

 

Tinha quantos anos?

Nessa época eu devia ter uns 17, 18 anos. Aí, quando eu saí da loja, procurei o diretor de televisão e perguntei se ele ainda queria que eu fosse trabalhar lá. Ele topou. Perguntei quando eu começava. Ele disse: “amanhã!”. E foi assim que eu comecei a fazer telejornalismo.

“Acredito piamente que a idade traz uma sabedoria imensa. Uma pena que as outras pessoas não saibam disso”

E para você, o que representava estar na televisão?

Não representava muita coisa, até porque eu já aparecia na televisão como modelo, falando das coleções e tudo mais. Na verdade, essa história de saber a importância do que eu fazia veio mais tarde, uns três anos depois, quando eu fui para a TV Iguaçu, no canal 4, para fazer o Show da Noite. Um jornal realmente revolucionário no Brasil, em termos de modernidade, redação e forma de apresentação. Nós já trabalhávamos como âncoras e nem sabíamos que se chamava assim.

Eu tinha mais noção da importância do que eu fazia. Não por aparecer na televisão, que até me causava certo constrangimento. A cidade era relativamente pequena, minha mãe uma pessoa muito conservadora e eu era muito assediada. Eu era muito jovem, tinha até certo temor. Os homens faziam brincadeiras de mau gosto.

“Nós tínhamos um jornal que era revolucionário. Derrubou o governo do Estado. Tinha gente que não podia acompanhar o jornal ao vivo, mas gravava para ver depois”


Trabalhar em televisão tinha esse status que tem hoje?

Acho que era igual, proporcional. Tive uma evidência maior porque naquele tempo não era muito comum mulheres fazendo telejornal. E eu passava uma imagem de sex appeal, os homens ficavam encantados com aquilo. O glamour sempre houve – e esse glamour me aguenta até hoje. Até hoje eu sou a Laís Mann, que virou uma coisa além de mim. O nome permaneceu muito forte. Principalmente por causa do Show de Jornal.

 

02_mg_2580ideiasE na época do Show de Jornal, como era? Os conhecidos, a vizinhança, seu cotidiano…

Nós tínhamos um jornal que era revolucionário. Derrubou o governo do Estado. Era bacana assistir o Show de Jornal. Começava dez e meia da noite. Tinha gente que saía e não podia acompanhar o jornal ao vivo, mas gravava para ver depois e se manter bem informada. Todos nós éramos conhecidos e famosos, o que restringia um pouco o nosso convívio social. Vivíamos em função daquilo. O jornal começava às dez e pouco da noite, mas seis da tarde já estávamos lá. Era teste de maquiagem, cabelo… Por isso acho que o glamour talvez fosse até maior. Nós atuávamos quase que como atores.

Os redatores Adherbal Fortes de Sá Júnior e Renato Schaitza eram os melhores do Brasil. Eles comandavam essa equipe, e a gente fazia uma mesa-redonda para discutir. Os pauteiros chegavam com as matérias.

Tinha uma abertura em que o Jamur Júnior contava um fato, mas colocava uma coisa engraçada, uma sátira… e aquilo era a atração do jornal. Era um jornal totalmente político, mas também falávamos de esporte, notícias. Nosso programa foi um dos primeiros que – sem ser da emissora líder – atingiu o primeiro lugar disparado na audiência.

 

Laís Mann é conhecida como musa de toda uma geração. Como você lidava com o assédio masculino?

O assédio era muito grande. Isso me incomodava, eu ficava com vergonha. Sou tímida. As pessoas não acreditam, mas eu sou tímida. Então aquilo me constrangia profundamente. Eu tinha um jeito de dar boa noite no jornal, que pensamos nele depois de estudar e discutir muito. Fazia um tchau, mexia um pouco com o nariz. Aquilo virou fetiche dos homens. Eles falavam “dormi com a Laís, ontem”. Porque eles tinham televisão no quarto. Aquele era o lado ruim. Eu saía com um namorado, noivo ou marido, e as pessoas me assediavam como se eu estivesse sozinha.

 

Apesar de constrangida, não gostava disso? Nem por uma questão de vaidade?

Não. Eu nunca gostei. Ficava assustada. Fui criada de uma forma muito rígida. Tudo era proibido e feio. Fiz aula de etiqueta. E essa história do assédio me incomodava muito. Não gostava quando meu noivo chegava e dizia que um cara qualquer tinha espalhado por aí que já tinha saído comigo. Se eu fosse sair com todo mundo que falou que dormiu comigo, eu não teria nem tempo de trabalhar.

 

Você também tem uma relação muito forte com a música. Em que momento ela apareceu na sua vida?

Simultaneamente. Na realidade, essa relação começou muito cedo, quando eu estava no Show de Jornal. Estava no teatro fazendo uma peça musical onde eu cantava. Isso foi 1972, na inauguração do Teatro Paiol. Eu comecei a cantar em teatro, não cantava em barzinho, orquestra nem na noite. Comecei porque tinha um texto maravilhoso do Adherbal Fortes de Sá Júnior, que era o nosso redator. E músicas do Paulo Vítola e Marinho Gallera. Foram feitas músicas para esse espetáculo, eram 23 composições.

De lá pra cá, eu deixei a música algumas vezes, pois a apresentadora sufocava a cantora. Era muito difícil ter aquele peso de apresentadora de telejornal e ao mesmo tempo cantar e exercer esse meu lado mais feminino e artístico. Eu gosto de interpretar as músicas, saber o que eu estou cantando, de quem é a música. Isso dá um trabalho. Eu fui para a escola para aprender a ler cifras. Queria estar à altura dos meus colegas cantores.

Quando fui morar em Brasília, passei a cantar mais. Voltei para Curitiba mais animada, com pouco menos de pudor. Mas cantar, para mim, é um hobby.

 

03_mg_2537ideiasVocê falou do pudor. De alguma forma você relaciona a arte com a falta de pudor?

Quando você está no palco, você se desnuda, se entrega. Se você não se entregar, você não convence. Aliás, em nada na vida você convence sem entrega. No caso da música, cantar é uma das coisas mais íntimas e difíceis que tem. Você está trazendo a sua alma, o seu espírito. Então quando eu falo em pudor, é aquela coisa de me soltar, não ter vergonha de me entregar. Mais uma questão de entrega do que de falta de vergonha.

 

O que você acha daquilo que tem acompanhado da produção musical de Curitiba?

Acho maravilhosa. Curitiba está bem diferente. Aliás, esse é um dos setores que, em minha opinião, nós crescemos mais. Temos grandes músicos e cantores. Não vou nem falar dos atores, pois já considero Curitiba uma das maiores referências teatrais do Brasil. Eu poderia citar, tranquilamente, mais de vinte bandas que são boas, que têm excelente qualidade musical. Saem de Curitiba e vão tocar em qualquer lugar sem dever nada a ninguém. Temos também o artista que faz o sucesso aqui e fica. O artista não precisa mais sair para o eixo. Ele pode fazer a música aqui e exportar sua música.

 

Esse artista curitibano pode ser realizado e ter uma repercussão nacional sem sair de Curitiba?

Você tocou em um ponto que é um calcanhar de aquiles para quem canta. Mas acho que é possível sim, desde que a pessoa se dedique a fazer aquilo. Volto a falar no pudor, de novo. A pessoa vai fazer música. Ela vai exportar música. Acho que nós não temos ainda uma banda ou cantor que tenha estourado e permanecido aqui na cidade. Mas penso que estamos no caminho para isso. Vejo vários shows de artistas locais com lugares lotados. As pessoas sabem cantar as músicas deles.

Penso que se partirmos da nossa aldeia para fora, se acreditarmos nisso, pode dar certo. É a tal da comunicação. Temos cantoras aqui que são magníficas. Cada uma dentro do seu estilo musical. E não sou contra sair de Curitiba. A arte é universal. Ela não tem fronteiras.

“Aprendi que a liberdade está em você gostar de estar sozinho para, aí sim, querer ter – ou não – uma companhia”

Para além da música, o que você tem gostado de ver por aqui?

Ultimamente o teatro tem feito minha cabeça. Tenho feito oficina de Teatro com o Mauro Zanatta. Experiências fantásticas que eu alcanço nesses exercícios. Gosto muito de cinema, mas detesto ir às salas. Sou uma mulher só. Foi uma opção de vida. Optei por estar só, há alguns anos.

Isso tem várias vantagens. Como, por exemplo, eu me sentar à mesa de um restaurante e poder escolher o vinho que eu quero tomar. Tenho uma autonomia, que é um exercício de liberdade interessante. Pegar o carro e ir para onde eu quero ir.

Tenho uma coisa chamada liberdade. O maior preço da minha vida foi o que eu paguei para ter liberdade. Então vou menos ao teatro e a espetáculos, pois me sinto melhor em casa.

 

A idade trouxe essa liberdade?

Com certeza. Pelo menos no que se refere a minha geração, eu jamais poderia ter essa liberdade até meus 20, 30 ou até mesmo 40 anos. Sempre achei que precisava necessariamente de uma companhia para eu poder ser livre. Aprendi que a liberdade está em você gostar de estar sozinho para, aí sim, querer ter – ou não – uma companhia. Hoje quando tenho uma companhia é porque estou muito a fim de estar com ela. Não é aquela coisa da minha geração de casar para sair de casa ou ter liberdade. Minha idade permite que eu chegue com altivez, dignidade e independência nos lugares.

 

Carrega algum arrependimento?

Que difícil… acho que não. Às vezes, eu penso: “puxa, se eu tivesse aceitado o convite daquela emissora para morar no Rio de Janeiro há 40 anos”. Eu poderia ter estourado, e poderia ter sido um fracasso. Então, para dizer bem a verdade, eu sou muito de bem com minha vida, até com meus erros. Acho, inclusive, que eu erro muito mais do que acerto. Mas eu tenho as coisas que gostaria de ter.

 

Profissionalmente, qual a sua maior saudade?

É do rádio. Para mim, ainda é o maior meio de comunicação. Vivi experiências e conheci pessoas maravilhosas por causa dele. E também dos programas de televisão que eu dirigia e produzia. Era uma confusão danada que acabava dando certo. Muita saudade dos tempos de Show de Jornal. Daquilo que acontecia ali dentro, e não necessariamente do que era projetado.

Tenho saudade, mas não é aquele saudosismo melancólico.

 

E os seus medos?

Na vida, não têm coisas que me aterrorizem. Penso que nascer mulher, em um país como o nosso, há 60 anos, ter quatro filhos e formar uma filha, são obstáculos que você vai vencendo e ficando mais forte. Não é que eu seja destemida ou mais corajosa do que alguém. O próprio viver nos dá a coragem de experimentar coisas novas. Experimentar dançar um tango, por exemplo.

 

04_mg_2578ideiasQuais são seus novos trabalhos e perspectivas?

Bom, não posso me acomodar, pois sei que vou ter que trabalhar até o dia da minha morte. Não tenho uma renda que me permita um descanso de 15 dias na praia. Ou um retiro para escrever um livro. As pessoas quando vão envelhecendo se tornam artistas, e isso é muito engraçado. Eu não posso fazer isso. Mantenho a mente ativa e antenada.

Tenho me reunido com o Mauro Zanatta e o Hélio Brandão para discutir as formas de viabilizar o incentivo à cultura. A situação tem sido um pouco complicada para os artistas. Nesses encontros nós buscamos novas fórmulas de fazer mais espetáculos e aproximar o público da arte sem depender dos incentivos oficiais.

Também tenho projetos de música e programas de televisão. Infelizmente o meio aqui é muito restrito. Mas tenho ideias para o teatro, quero escrever um texto para que ele seja encenado, falando da minha experiência como mulher.

As pessoas me acham muito contemporânea. Contrariamente do que se pensa, eu vejo mulheres com metade da minha idade que são muito mais retrógradas do que eu. Vejo que esses dogmas e preconceitos continuam permeando a vida das mulheres. Acredito piamente que a idade traz uma sabedoria imensa. Uma pena que as outras pessoas não saibam disso.

“Minha vida sempre foi um conto de fadas, e de repente ela deixou de ser. Tive que encarar o meu lado gata borralheira com 50 anos de idade”

Se hoje, com essa sabedoria, você encontrasse aquela menina de 17, 18 anos, que iniciava sua carreira no telejornalismo paranaense, qual conselho daria a ela?

Eu diria que ela pode ser legal mesmo sendo sozinha. Não precisa buscar o que ela quer nas outras pessoas, ela pode encontrar isso nela mesma.

 

Demorou para você descobrir isso sozinha?

Muito. Só fui saber o que era isso aos 50 anos idade. Faz muito pouco tempo que tenho vivido essa nova fase. Me vi no espelho e encontrei uma mulher que eu não conhecia. Falei: “quem é essa mulher que está me trazendo tantos problemas? O que eu fiz lá trás de tão errado?” Aí veio um processo de autoconhecimento. Não vou te falar que eu sou a pessoa mais sábia do mundo. Até porque eu penso que nós conservamos a nossa essência, aquela ingenuidade, da pureza, aquela coisa de criação.

Minha vida sempre foi um conto de fadas, e de repente ela deixou de ser. Tive que encarar o meu lado gata borralheira com 50 anos de idade. Sempre fui muito mimada nos meus relacionamentos. Acho que a velhice traz uma serenidade de você esperar as coisas um pouco mais. Por incrível que pareça, parece que a idade e a passagem do tempo trazem pressa. Mas não, dão calma.

 

Já pensou em alguma trilha sonora para sua vida?

Nossa… tem muita trilha sonora! Na minha cabeça, às vezes eu sou Mercedes Sosa. Outras vezes, Chico Buarque. Tem também o Paulinho da Viola. Às vezes minha trilha é uma cantiga de infância, que minha bisavó cantava para minha avó, que cantava para minha mãe, que cantava para os netos dela e hoje eu canto para os meus netos. Já cantei com eles no palco, inclusive.

Minha trilha sonora não tem uma fre-
quência estável. Tem altos e baixos. Mas não tenha dúvidas de que minha vida é uma trilha sonora.

 

Agradecimentos e créditos:
Locação: Alberto Massuda Forneria e Pizzaria
Beleza: Beto Bravo – W Crystal
Figurino: Expression By Maria Inês
Fotos: Daniel Snege

 

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *