O novo papel do jornalismo

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Foto: SPA/São Paulo Antiga

A crise do ofício que procura conciliar relevância e audiência em tempos de novas mídias e poucos leitores

 

Entre 1997 e 2007, o mercado das gravadoras encolheu 80%, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Disco, que costumam ser os mais conservadores. Culpa da distribuição digital. Nesse sentido, a imprensa é a nova indústria fonográfica: há um modelo de negócios em crise, há uma transição dolorosa sendo encarada com natural resistência e há outras coincidências assustadoras aproximando os dois exemplos. Como ainda vive os estágios iniciais dessa transformação, a imprensa ainda não tem números consolidados que permitam mensurar as perdas. O que há por enquanto são sinais muito eloquentes, como a recente venda do Washington Post.

Por duzentos e cinquenta milhões de dólares, Jeff Bezos, da Amazon, incorporou o Washington Post ao império do Kindle. Uma das marcas mais conhecidas e respeitadas do jornalismo mundial foi vendida por um quarto do valor do Instagram. O Washington Post é a plataforma que divulgou o escândalo Watergate e derrubou o presidente Nixon. O Instagram é a plataforma que divulgou o LingerieDay e derrubou blusas. A crise da imprensa também é uma crise do critério de relevância.

Em 2011, perdemos O Estado do Paraná. O Estadinho nunca derrubaria um Nixon, mas, em mais de 17 mil edições ininterruptas, acumulava lá seus méritos. Antes de ser vendido ao GRPCom, o jornal amargou um fim lento e sofrido: a versão impressa foi descontinuada, a equipe foi reduzida e a marca, já meio esquálida, perdeu peso até sumir. Os jornalistas que viveram esse processo perceberam, com alguma frustração, que os primeiros cortes ocorreram justamente nas editorias mais relevantes.

No Estadinho, a equipe que cobria a política local foi a primeira a receber o desafio de fazer o mesmo com menos. E os cortes não vieram destituídos de motivos racionais: o trabalho da editoria de política não ajudava a agregar público; simples assim. No portal da publicação, um furo político, ainda que relevante e bem apurado, seria lido por duas mil pessoas, enquanto uma nota sobre um assassinato na CIC atrairia vinte mil leitores ou mais. A nota policial pode ser feita em poucos minutos e, invariavelmente, seu processo de apuração se resume a uma conversa telefônica com um delegado qualquer. O furo da editoria de política demanda uma investigação de prazos e custos imprevisíveis. O final dessa história, até quem não é do ramo conhece: o Estadinho morre e A Tribuna do Paraná sobrevive.

A distribuição digital da notícia criou meios precisos e instantâneos para mensurar a audiência. Num passado recente, a análise desses dados era uma preocupação exclusiva dos departamentos comerciais. No presente, audiência é um assunto que se impõe com cada vez mais frequência também nas redações, competindo com o critério de relevância da pauta. Só isso explica que os principais portais de notícias tenham editorias como Esquisitices, Planeta Bizarro, Fofura e Bichos.

Há sinais claros que a práxis jornalística jamais será a mesma. A ascensão de um jornalismo pós-industrial se anuncia sem que saibamos exatamente o que ele vai ser e, mais importante, quem vai bancá-lo

A favor desse jornalismo que prioriza o entretenimento há o argumento de que, na internet, o espaço é ilimitado. Não é necessário diminuir o número de páginas do caderno de economia para que a editoria Bichos possa caprichar na reportagem sobre o mais novo gato a virar sucesso no You Tube. Faz sentido, mas só para quem vê a coisa de fora. De dentro, percebemos que o espaço editorial pode até ser ilimitado, mas a estrutura é cada vez mais enxuta. As redações dispõem de cada vez menos força de trabalho e uma parte considerável dessa força está focada em pautas que geram muito engajamento e pouco esclarecimento.

No jargão das mídias sociais, engajamento é aquilo que se obtém através da interação do público com o conteúdo: comentários, curtidas, compartilhamentos e retuitadas são alguns exemplos. Assim como a marca de refrigerante e o fabricante de calçados, a imprensa também está atrás de engajamento. A diferença é que a busca direta por engajamento não entra em contradição com a fabricação de refrigerantes e de sapatos; com a imprensa é outra história. Diante das redes sociais, o jornalismo reage por reflexo, tentando mimetizar as características do novo meio. Para investir nessa imitação mambembe, o jornalismo é bem capaz de negar a si mesmo.

 

Negação

A cadela Florzinha foi resgatada por uma ONG e adotada por um dono, apesar disso nunca perdeu o gosto pelas ruas e sempre insistiu em fugir de casa. Foi o que ela fez em meados de julho; encontrou o portão de casa entreaberto e partiu para explorar a vizinhança do Centro Cívico. O dono, ao perceber sua ausência, saiu em busca de Florzinha. Encontrou-a numa esquina próxima e, num rápido movimento, a agarrou pela coleira. No mesmo instante, uma jovem parou o carro para conferir a cena. Aos berros, a garota dizia ser jornalista, alegava estar indignada com a agressão contra o animal e prometia uma denúncia na imprensa. A jornalista clicou uma foto com o celular e se mandou sem conversar com ninguém.

Minutos depois, um dos principais blogs noticiosos da cidade manchetava um caso de agressão contra um cachorro na região do Centro Cívico. A foto mostrava um homem irritado segurando Florzinha pelo cangote e vinha acompanhada de um curto texto segundo o qual o rapaz “foi ríspido” e mandou a jornalista “cuidar da própria vida”.

Na internet, a audiência comprou a história. O post foi compartilhado centenas de vezes e o suposto agressor começou a receber ameaças. Assustado, procurou a jornalista e enfrentou uma semana inteira de negociações. Conseguiu, um pouco tarde demais, a publicação de sua versão para o fato. “Hoje eu ando pelas ruas e sinto as pessoas me olhando, me julgando”, lamentou o dono da Florzinha, agora acometido de uma bem fundamentada neurose.

O exemplo da suposta agressão sofrida por Florzinha, tão próximo e tão trivial, ajuda a entender que tipo de transformações as redes sociais andam impondo ao jornalismo diário: a repórter faz a reportagem de dentro do carro, interpreta a cena (que de fato parecia óbvia) e, a partir dessa interpretação, conclui que não precisa entrevistar seu principal personagem; basta ameaçá-lo com a denúncia. Tal comportamento vigilante e agressivo é frequentemente interpretado como cidadania e elogiado. É um elogio que até faz sentido, mas só quando a iniciativa não tem a pretensão de se passar por jornalismo. Jornalismo é outra coisa.

O jornalismo se define pelos seus procedimentos, não pela sua velocidade. A repórter que denunciou o dono da Florzinha foi rápida, mas foi mais ativista que repórter. Um jornalismo que abandona os procedimentos que o caracterizam em nome de uma virtude que jamais será sua só pode estar vivendo uma crise de identidade. E não é para menos: alguns dos referenciais jornalísticos mais básicos perderam a razão de ser. Até mesmo a busca pelo furo e o caráter exclusivo da informação deixaram de representar objetivos a serem perseguidos.

 

Afirmação

O único veículo de peso surgido na última década é o Huffington Post. Essa afirmação se sustenta com facilidade na compra do HuffPo pela AOL em 2011; um negócio de trezentos e quinze milhões de dólares (valor superior ao alcançado pelo Washington Post).

Os métodos do diário representam uma mudança significativa para a prática do jornalismo. Uma reportagem típica do Huffington Post começa com um recorte do texto de um blog especializado, apresenta um trecho do material da CNN e outro da Associated Press. A partir das informações já levantadas por outros veículos, o Huffington apura um ou outro detalhe adicional e o resultado é um conteúdo inteiramente novo. Como os créditos são citados e o HuffPo não tem medo de oferecer os links para os materiais originais (prática que gera resistência na imprensa tradicional), não há parâmetro ético a ser questionado.

A imprensa brasileira está a meio caminho de adotar as práticas do Huffington Post. Por enquanto, o que temos são veículos que usam as informações uns dos outros, mas que ainda estão constrangidos demais para assumir tal prática. O modelo do Huffington parece mais adequado ao presente porque, além de mais honesto, apela para a colaboração, um conceito que é muito mais que a palavra da moda.

Orientado para uma competitividade estéril por um furo de segundos, o jornalismo desperdiça recursos; um erro brutal em tempos de receitas decrescentes. Quando centenas de fotógrafos disputam o mesmo metro quadrado para fotografar o mesmo acontecimento com variações mínimas, temos competição e desperdício. Colaborar sai mais barato.

Quando a distribuição digital destruiu a indústria fonográfica, a música saiu ilesa e não passou por nenhuma transformação fundamental no seu processo de produção. A imprensa pode ser a nova indústria fotográfica, mas o jornalismo não será a nova música. Há sinais claros que a práxis jornalística jamais será a mesma. A ascensão de um jornalismo pós-industrial se anuncia sem que saibamos exatamente o que ele vai ser e, mais importante, quem vai bancá-lo. Talvez essa seja uma boa chance de rever a subordinação do jornalismo às demandas da publicidade. Na sociedade de consumo, o papel do jornalista sempre foi de embrulho. Não há razões lógicas para lutar pela manutenção desse status.

 

Álvaro Borba é jornalista e desempregado. Recentemente, e em circunstâncias muito peculiares, escolheu deixar suas funções como âncora da CBN Curitiba.

 

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