Will Eisner e os Protocolos dos Sábios do Sião

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Entre todos os autores de quadrinhos que conheço, o que mais produziu graphics novels foi Will Eisner. Seu primeiro trabalho foi Um Contrato com Deus, considerado uma obra-prima da chamada arte sequencial, termo criado pelo próprio Eisner. Filho de imigrantes judeus, nascido no Brooklyn, Nova York, Eisner, o criador do personagem imortal The Spirit, que tanto animou minha juventude, assim como a de muitos outros aficionados pelo mundo afora, procurou ao final da vida resgatar um pouco da dignidade da sua origem, o povo judeu. E o fez na forma em que era mestre, nas graphics novels.

eisnermugA descoberta foi na Comicon Internacional 2010, encontro internacional de quadrinhos, realizada na Estação Leopoldina no Rio de Janeiro no início do mês de novembro daquele ano. Numa breve visita, encontrei nos estandes das comics da Livraria da Travessa as boas obras de Eisner e, para minha felicidade, descobri dois belíssimos exemplares lançados bem próximos à sua morte em 2005: Fajim, o Judeu, que reconta com criatividade ímpar a vida de Fajim, o judeu vilão da história de Oliver Twist de Charles Dickens, e o perturbador Complô – A História dos Protocolos dos Sábios do Sião. Em ambos, Will Eisner faz seu libelo contra o estigma infame que fez do povo judeu um perseguido pelo mundo e alvo implacável dos pogrons russos, que alcançou seu ápice na solução final de Adolf Hitler, resultando no Holocausto. Aliás, o líder nazista bem se inspirou nesse documento maldito denominado Os Protocolos dos Sábios do Sião para embasar seu Mein Kampf e justificar sua abjeta perseguição aos judeus.

No entanto, é nos Protocolos dos Sábios do Sião, denominado com feliz acerto por Eisner como literatura perversa, que a ignomínia literária contra os israelitas chega ao seu mais alto grau de ataque. Os quadrinhos de Eisner no O Complô contam a história de que em 1864 o escritor francês Maurice Joly publicou clandestinamente um livro denominado O diálogo no inferno de Maquiavel e Montesquieu, uma sátira ao imperador Napoleão III. Infelizmente a publicação, para o azar dos judeus, caiu nas mãos de um vigarista chamado Mathieu Golovinski, russo exilado na França a serviço da polícia secreta do czar Nicolau II. O objetivo dessa polícia era mostrar ao czar que havia sim uma conspiração judaica por detrás das inúmeras revoltas que começavam a se disseminar na Rússia. Ladino, como todo sujeito ordinário, Golovinski percebeu o potencial do livro de Joly, e então produziu um plágio grosseiro e assustador: “Os Protocolos dos Sábios do Sião”.

O livreco trata de um suposto grupo de judeus e maçons influentes que tem um satânico e detalhado plano de dominação mundial traçado durante um encontro secreto na Basileia/Suíça no ano de 1898. Seria através do controle do ouro, das pedras preciosas e da economia de uma nação europeia que alcançariam seu objetivo para domínio do planeta. Uma desculpa documentada para a perseguição e extermínio definitivo do povo judeu. Pois foi Will Eisner, no seu Complô – A História dos Protocolos dos Sábios do Sião, que procurou, através dos quadrinhos, contar a história da perpetração dessa farsa, e de como ela se tornou uma das mais duradouras e cruéis peças de literatura antissemita já produzida no mundo. Essa extraordinária graphic novel, prefaciada por ninguém menos que Umberto Eco, é um documento incomum da ignomínia perpetrada pelos russos e foi concluída poucos meses antes de sua morte. Ela investiga também porque nem mesmo as incontáveis provas que vieram à tona ainda na década de 1920 foram suficientes para que as pessoas se convencessem de que os Protocolos eram falsos e o suficiente para abalar sua credibilidade.

Eisner, um mestre do gênero, acreditava piamente que as histórias em quadrinhos, dada à sua popularidade, seriam uma maneira de levar a um público maior a verdade sobre os Protocolos. Ele percorre, ao longo de O Complô, a história de mais de um século da intolerância contra o judaísmo, mostrando definitivamente ao mundo que histórias em quadrinhos não são meio de entretenimento para crianças e adolescentes e sim, como todo fenômeno social, uma arte respeitada da cultura pop, estudada pela Sociologia e outras ciências. O próprio Umberto Eco, um apreciador do gênero,  afirmou que “somente quando o estudo das HQs tivesse superado o estágio ‘esotérico’, é que seria possível entender sua importância”. Will Eisner, infelizmente, morreu em 3 de janeiro de 2005, em Lauderdale Lakes, no Estado da Flórida.

 

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