A cor do desejo

lipstick

Você nem imagina como fico quando sei que vamos nos encontrar. Passo horas a escolher a roupa certa, o sapato, a bolsa, os brincos. Essas coisas que você nem repara, mas que sei que me colocam mais bonita. Visito o espelho uma, duas, três vezes. Troco a saia, uma mais curta. Mudo o sapato, um mais alto. Batom vermelho, depois tiro, porque penso que ele leva ao beijo – a ideia de borrar nossas bocas…

Por que você nunca me beijou? Eu tenho vontade. Mas sei que ele, o beijo, mudaria tudo e de um instante para outro, flutuaríamos em delícias e depois em dúvidas.

Um beijo entre nós é o selo para um outro caminho. Quem está preparado para seguir nova trilha? Eu penso como seria nossa vida de casal: você tão formal, vida tumultuada; eu, tão casual, vidinha cotidiana.

No reflexo, mudo. Decido. Tinta cor de sangue na boca.

E se você me beijar? Ah, quantas loucuras faremos depois do beijo, quanta coisa a ser vivida, a ser dita, a ser experimentada. Suas mãos, seu corpo, sua boca tudo a enlouquecer o futuro.

Lenço na mão, desfaço o tempo que vem. Esfrego a boca e deixo no pano os desejos do corpo. Melhor continuar assim, a pensar que, se quisesse, passaria batom vermelho e lhe provocaria os instintos. O destino em minhas mãos, em minha boca. Negar é preciso.

Nada disso. Desenho a boca. Precisão nas voltas, mão firme e lábios prontos. Passo batom e pulo no precipício. Cedo ao diabo, gosto de suas promessas: movimento ao corpo, desassossego à alma. O que você fará ao me ver assim, ao me encontrar entregue, ao me surpreender suspensa, à espera?

Covardia. Tiro o vermelho e me visto pura. E me deixo imaculada. E caminho no deserto do teu encontro. Não quero revelação. Mais vale saber que tenho no oco da boca, o sossego do meu destino. O lábio pálido da mansidão é a onda pasma sem sonho ou pesadelo, sem choro nem riso, sem gozo.

Mudo, pinto a boca de vermelho. E te espero.

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