Ai de mim

manguito_rotador

É o manguito rotador, sentenciou. Suspirei. Desses suspiros longos de quem recebe notícia ruim. O lamento pareceu apropriado, mas, de fato, não sabia se a notícia era ruim. Que seria o tal manguito rotador? Uma variação anatômica da rebimboca da parafuseta? Sei só que o nome me soou odioso, terrível, mas não menos engraçado. Man-gui-to ro-ta-dor. Ai de mim.

Mas há reparo, doutor? Ou é preciso encomendar novas peças na concessionária? Aguardar longos meses até que chegue um carregamento da China?

Não achou graça. Aparentemente piadas de mecânico não cativam o público de ortopedistas hondurenhos. Eu ainda aguardava ansiosa o prognóstico que me soava ainda mais terrível agora, diante da falta de senso de humor do baixinho de jaleco.

Ainda é preciso proceder com os exames para confirmar a suspeita, continuou o médico em tom solene. A senhora pratica exercícios físicos?

Todo o peso levantou-se do ombro dolorido por um minuto para dar lugar à satisfação inédita de ser uma boa paciente. Finalmente, após longos anos da resposta vergonhosa de que sou uma sedentária inveterada, poderia dar a réplica ideal.

Sim, doutor, há oito meses faço musculação, respondi saboreando a alegria de estar certa uma vez na vida. Durou pouco. Logo veio a reprimenda. Muito provável que esteja aí a causa dessa lesão, disse o médico.

Esqueci da falta de senso de humor do outro e engatilhei outra piada. Disse que, na verdade, sempre defendi que exercício físico faz mal à saúde, apenas havia cedido à pressão social para frequentar a academia, mas poderia largar a qualquer momento, se fosse absolutamente necessário.

Ele nem esboçou sorriso e me disse que não, é claro. Era preciso encontrar outra forma desagradável de mexer o corpo, método de tortura totalmente novo, de preferência ainda mais detestável e que evitasse dano às articulações.

E não parou por aí. Seria preciso mudar a posição em que eu dormia. Nada de deitar sobre o manguito esquerdo sem o travesseiro ideal, aquele que, após receber o peso da minha cabeça, teria exatamente a altura do ombro.

Deixei o consultório disposta a seguir as recomendações médicas e, quem sabe, me livrar do incômodo causado pela degeneração do manguito. Agendei exames. Liguei para a academia e marquei a aula de hidroginástica, já antecipando a odienta sensação de sauna, o cheiro enjoado de cloro e a possibilidade de frieiras.

Comprei travesseiros novos, inclusive o tal travesseiro de corpo, que me impediria de deitar como sempre fiz, de barriga para o colchão.

Em casa, aplicada, preparei-me para o sono. Cerquei-me da fedorenta espuma da Nasa, posicionada exatamente como indicado, para o sono mais burocrático da minha vida. De repente, não mais que de repente, entendi a seriedade do médico. Percebi a mais pura verdade. Não há graça nenhuma no manguito rotador.

 

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