As batalhas imaginárias, alegorias do mundo real

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Houve um tempo em que se lutava por um ideal por mais distante e absurdo como, por exemplo, levar horas de assembleia acadêmica para dela arrancar mensagem telegráfica de solidariedade, pedido de comutação da pena do casal Rosemberg, Julius e Ethel, condenados à morte por passarem segredos nucleares à União Soviética. O divisor de águas ideológico era muito profundo em função da Guerra Fria e os estudantes de Direito se dividiam em facções irreconciliáveis no maniqueísmo direita-esquerda.

Sabotagens como a de cortar a luz da sala em que se realizava a assembleia, obstrução “parlamentar” com oradores se revezando na tribuna para ganhar tempo e sufocar pelo cansaço, tudo valia. E já de madrugada, depois de o bedel avisar por duas vezes que iria apagar as luzes e fechar as portas, obtivemos a vitória: telegrama ao presidente dos Estados Unidos da América do Norte com o pedido de comutação junto com o do papa e de tantas outras instituições.

Mergulhamos na madrugada, na garoa intermitente e, me lembro, um dos nossos entoou, voz embargada, a Internacional Socialista.

 

Dos garis genéricos

Gari houve um lá nos tempos românticos do Rio de Janeiro: ele era o encarregado de coletar o lixo da cidade, especialmente bosta de cavalo e de vacas que naquele tempo era comum na paisagem. É dele que se origina a identidade da profissão de trabalhador da limpeza pública, o que não quer dizer que Gary Cooper, o ator famoso, tenha sido pelo nome um andarilho da causa, fazia cooper enquanto catava à maneira dos aristotélicos que pensavam em meio às suas marchas intermináveis.

Dentre tantas convocações de juventude para agito social uma das que atendi foi em defesa desse pessoal da área pública de Curitiba, aquele tempo não terceirizada: o grupo não tinha destreza e era preciso ensiná-lo na marcha da Praça Osório até o sindicato dos trabalhadores do comércio. Demos uma de Karabtchevski e, em duas vozes, afinamos a palavra de ordem “estamos com fome, estamos com fome” e marchamos. No meio do caminho, na altura da loja da Singer, lado esquerdo da Rua XV, um colega de universidade me olhou seriamente e meneou a cabeça como quem pergunta “onde é que já se viu?” e resisti ao olhar maléfico da Medusa, algo comum ao curitibano empatador, seja em carnaval e até em procissão ou em simples algazarra.

E marchamos no estridente “estamos com fome, estamos com fome” até o sindicato: lá divisei um amigo de peladas, Isabelino, craque de futebol, agente de polícia infiltrado, e que se fazia passar por um de nós. Encarregado do discurso, me referi ao policial (na hora em que falei que havia um deles, a revolta foi geral) e ao fato de estar tão convencido da justeza das nossas causas que votava com a maioria. Isabelino respondeu à minha safadeza com um delicado e sinalizado top top. Nas peladas ele replicava com dribles e velocidade pelas alas ao ato de quase exposição a que indiretamente o submetera.

 

Guerra árabe

Nos anos cinquenta a comunidade árabe, como agora recentemente em função da guerra civil na Síria, saiu às ruas pedindo aos patrícios para que fechassem as lojas. Aos gritos de “fêcha, fêcha” passaram diante do Louvre, rei das sedas e imperador dos preços. O proprietário, Miguel Caluf, pai do padre Emir e do gestor esportivo Munir, foi lá na frente, subiu numa cadeirinha e fez um apaixonado discurso em árabe. Às primeiras palavras, aplausos e vibração para valer, depois silêncio e em seguida todo mundo se mandou. O delegado de Ordem Política e Social quis saber o que dissera: “é importante ser solidário aos nossos irmãos a distância, mas o tipo de luta que está por vir exige que nos organizemos em armas…”. E propôs-se como um dos milionários da etnia a abrir um generoso livro-ouro com tantos milhares de contos de réis para a compra de material bélico. A multidão se desfez em pouco tempo.

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