Dogmas e dúvidas

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Não gosto de embarcar em aviões, muito menos nos pequenos. As viagens longas são angustiantes e sendo minha mente fértil por desgraças, em geral descamba para reflexões sobre a morte, sobre a fragilidade da vida e sobre as dúvidas angustiantes da existência. Minhas dúvidas não são diferentes das que acompanham o ser humano no cotidiano, mas são agravadas num ambiente inspirador, como a bordo de uma pequena aeronave, balançando ao sabor do tempo.

Às vezes, peco por ser sincero demais com as pessoas quando enveredo para esse tema deveras assustador. Coloco minhas dúvidas sobre a possibilidade ou não da existência de uma alma imortal, característica sobrenatural e única, entregue por Deus apenas aos homens. Será? Respeito quem é dogmático em matéria de religião, mas não deixo de lado minha humanidade e nem as minhas ansiedades cruéis do pensamento lógico que me acompanha desde a tenra idade. O fato é que nunca vi lógica em pessoas (almas) padecendo para sempre em chamas no inferno e muito menos outras passeando nuas sem ter o que fazer num paraíso eterno. De qualquer maneira, vai que é verdade, e então continuo rezando.

Freud dizia que um dos fatores do sentimento de alheamento deste mundo é a atitude que o ser humano adota em relação à morte. Para o pai da psicanálise, deixamos a morte de lado, isto é, a eliminamos da vida. Isso é extremamente fantasioso, pois corrobora com a ideia de que somos imortais. Então, lamento nunca ter conseguido esse maravilhoso alheamento, até porque, para mim, é impossível não pensar no desaparecimento definitivo.

Pois, então, fico na expectativa que possa estar errado em relação a todo esse sofrimento inútil, pois, afinal, acreditando ou não, nada mudará meu destino, das pessoas que amo ou de quem quer que seja. Estamos todos condenados, mais cedo ou mais tarde, a ter um encontro com a finitude. Então, procuro acreditar que tenho sim uma alma eterna e que se orar ou fizer o sinal da cruz quando entro em um avião estarei protegido das consequências da morte, se ela vier repentinamente. Naturalmente costumava me sentir muito abaixo tanto dos carolas religiosos quanto dos incrédulos praticantes, por achar que eles simplesmente jamais se angustiavam diante desse dilema. Os primeiros por acreditarem piamente na outra vida no paraíso e os segundos na finitude material e ponto. Ledo engano, embora dogmáticos, ambos são apegados à vida e se angustiam em perdê-la.

Segundo o filósofo alemão Heidegger, em seu livro Ser e Tempo, a angústia reinante no homem resulta da falta de base da existência humana, sendo essa “existência” uma suspensão temporária entre o nascimento e a morte. O projeto de vida do homem não tem controle e será sempre incompleto, limitado pela morte que não pode evitar. Na angústia, todas as coisas em que o homem estava mergulhado se afastam, afundando em um “nada e em um lugar nenhum”. O homem em meio às coisas da vida paira, então, isolado. Na inospitalidade da existência ele é incapaz de achar um conforto, um amparo, um lugar seguro, pois se verá sempre como um forasteiro. E é bem assim que me sinto em relação à vida, um forasteiro, querendo sempre voltar pra casa.

De repente estou a bordo de um King Air, um pequeno avião de sete lugares, e logo numa terça-feira, 13 de agosto, mês e dia de sortilégio, para uma viagem profissional de quase duas horas acompanhando um cliente de notória personalidade pragmática. Como sempre faço diante de uma aeronave minúscula, fico na dúvida do embarque. Olho com atenção a estrutura, a fragilidade e, para mim, a completa ausência de segurança. E também, como sempre faço, mesmo contra a vontade, sou compelido a cumprir minha obrigação. Embarco.

Mal o aviãozinho corre cambaleante pela pista e já faço o sinal da cruz duas vezes. Em meio à decolagem, ouço ao meu lado uma risada estridente e sarcástica do cliente e sua pergunta angustiante do porquê estaria eu a fazer um gesto, a seu ver, tão sem lógica, já que um sinal da cruz não evitaria uma provável queda. Explico uma pretensa espiritualidade e ouço outra risada mais alta ainda. O homem se confessa ateu. Está explicado! Passados os primeiros sustos absolutamente naturais e já em velocidade de cruzeiro, vejo-me compelido a perguntar para meu interlocutor se nunca pensa na morte. A sombra da tristeza encobriu aquele rosto confiante e a resposta me surpreendeu: “Sim, pelo menos três vezes ao dia e em outros, muitas vezes mais”. Não sofre? Não se angustia? A resposta é afiada: “Claro que sofro, claro que me angustio. A vida é tão boa, tão maravilhosa e está indo embora tão rapidamente e não há nada que se possa fazer em relação a esse encontro marcado. Como não iria me angustiar? Por que sou ateu? Mas não é por isso que vou me abrigar numa religião, pois simplesmente não acredito em outra existência depois dessa. Apenas sinto uma profunda tristeza e uma pena enorme por ter que ir embora deste mundo”. Calei-me diante daquela opinião dogmática e dei por encerrada a especulação sobre a crença alheia, afinal se o encontro já está mesmo marcado para todos, quem sou eu para desfazer a agenda? Que cada um cuide do seu encontro à sua moda. Pelo sim, pelo não, vou continuar a fazer o sinal da cruz e a rezar minhas orações. A dúvida é melhor do que o dogma, penso eu. A viagem seguiu normalmente tanto na ida como na volta e as angústias e as dúvidas também.

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