Editorial. Ed. 144

A grande dificuldade que temos é a de perceber o Brasil como ele é. Preferimos, desde sempre, as versões do otimismo retumbante, eivado de um ufanismo que beira o ridículo.

A verdade é que o Brasil carece de muita coisa. Não temos sequer um projeto de integração com o resto do mundo, o que justifica o pouco interesse do capital estrangeiro em algumas pérolas oferecidas pelo governo. O economista Edmar Bacha aponta o isolamento do Brasil. Ora, pois, somos o único país grande na escala das maiores economias do mundo que exporta pouco e importa pouco. Estados Unidos, China e os países da Europa juntos são as maiores economias e os três maiores exportadores.

Pois, pois, o Brasil é a sétima economia e é o vigésimo quinto em exportação, atrás até da fechada Índia, que é a décima primeira economia e a vigésima primeira no ranking dos exportadores.

Bacha nos lembra que, em 1970, o Brasil exportava o equivalente a 7% do PIB e hoje exporta 12%. Nesse período, a Coreia do Sul foi de 14% para 54% de exportações. Na época a renda per capita da Coreia era menor do que a nossa. Hoje é o dobro.

No ranking de abertura às importações feito pelo Banco Mundial, de 176 países, o Brasil está em 176º lugar em importação como percentual do PIB. O Brasil recebe bastante capital estrangeiro, é verdade, mas somos o único país em que as multinacionais vêm não para se integrar às cadeias mundiais de produção, mas para produzir para o mercado local.

O Brasil, em sua histórica tradição protecionista, se recusa à integração a cadeias globais. Prefere criar barreiras ao ingresso de produtos com uma parafernália de impostos e pedidos de exceção nesses impostos. Imaginem a burocracia que isso demanda.

A revista The Economist fez três e não duas capas com o Cristo Redentor. Em 1999, a estátua ícone do Rio estava encoberta por nuvens e ela citava que as sombras de uma crise desciam sobre o Brasil. O País tinha estabilizado a economia e ampliava a classe média, privatizava e tornava a economia mais eficiente. Veio o colapso do câmbio e a pauta mudou para o calote e a volta da hiperinflação.

O risco foi superado. O País voltou a crescer, fortalecer o compromisso com a moeda estável e a ampliar ainda mais a classe média. Em 2008, passou bem pela crise e veio a capa otimista do Cristo decolando. Agora, a estátua desaba como um foguete em parafuso e a revista se pergunta se o país estragou tudo.

O Brasil tem corrido riscos e retomado seus defeitos, como o da excessiva e complexa regulação que assusta qualquer um, e muros contra o resto do mundo, quando a integração é o melhor caminho. O que o Brasil aumentou de exportação nos últimos anos foi da mesma forma passiva de sempre: o país não vende, é comprado. São as commodities demandadas pela China os itens que mais cresceram na balança comercial.

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