Ile de France, ano 60

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A cidade comentava que nem carecia provar o prato, só o nome já levava ao êxtase. Coq au Vin era um refinamento pouco conhecido na Curitiba de 1953, cidade com 180 mil habitantes, onde bairros densos como hoje o Cabral e o Boqueirão estavam mais para paraísos rurais. O galo vagarosamente cozido no vinho tinto, com legumes, bacon e temperos diversos, foi a iguaria servida por Emile Decock na festa de inauguração de seu restaurante, o Ile de France. Franceses da Normandia, ele e sua mulher, Janine, haviam chegado cinco anos antes na capital paranaense, em busca das oportunidades que se dizia haver por aqui. O sucesso veio logo, com o bar aberto na Rua Cruz Machado, frequentado por uma clientela eclética, não só de marmanjos, mas também de senhoras e moças cativadas pelos doces e as deliciosas comidinhas que o local oferecia. O restaurante, passo seguinte, teve algo a ver com o centenário da emancipação política do Paraná, celebrado naquele ano de 1953.

O governador Bento Munhoz da Rocha queria marcar a data com festejos monumentais, por isso, para o preparo do jantar de gala, trouxe de Paris um chef de cozinha, monsieur Jacques Dubois. Bento agradou-se tanto dos pratos que o convenceu a ficar e assumir a cozinha do Palácio Iguaçu. Foi mal. O francês esnobou o feijão com arroz obrigatório nas refeições cotidianas do governador. Não sabia fazer e também não quis aprender. Demitido, ato contínuo foi contratado por Emile para o restaurante prestes a abrir. Conceberam juntos o cardápio, culinária francesa de raiz. Jacques, entretanto, não esquentou lugar. Poucos meses depois voltou à França, deixando Emile solitário no comando. Alguns pratos desses primeiros dias – o strogonoff, o filet au poivre vert, o coq au vin e os escargots servidos na própria concha, com salsa, alho e cebolinha – ainda hoje imperam nas noites da casa.

Como todo francês, Emile Decock levava a sério o vinho à mesa. Aborreceu-se muito por conta disso. Habituado a consumi-lo na França, onde o padrão é elevado e os preços nem tanto, bateu de frente com as limitações do mercado local, paupérrimo em sua época. Socorria-se na loja de Helmut Nellez, a QFina, que importava uns poucos vinhos franceses de Bordeaux e Rhône, mais alguns espanhóis, portugueses e argentinos. Jean Paul, que assumiu o Ile desde que seu pai se aposentou, em meados dos anos 70, lembra-se de rótulos que faziam sucesso nos velhos tempos, o Grandjó de Portugal, o Marques de Riscal e o Canchales da Espanha, além do Comte Valmont e do Don Valentim da Argentina. Hoje, com importações liberadas, a oferta cresceu, mas o restaurante adota com acerto a política de manter uma carta enxuta, de 200 rótulos, focada na interação com a culinária.

Jean Paul se preocupa em garimpar vinhos cujo custo não contraste com os preços dos pratos, o que não é fácil: o produto tornou-se artigo de luxo no país graças, entre outras coisas, à famigerada carga tributária. Ele incorporou títulos da Borgonha, da região do Chateauneuf du Pape e de países que melhoraram bastante seus portfólios, como Chile e África do Sul. E o cliente pode levar seu vinho, mediante uma taxa módica (R$ 50), a chamada “rolha”. Na cozinha, a esposa de Jean Paul, Clara Chao, dá as tintas, fiel guardiã de uma tradição gastronômica que, neste ano, completa seu sexagésimo aniversário. Ambiente sóbrio, serviço discreto e atencioso, culinária generosa, irretocável em seu estilo, o Ile tornou-se uma das referências da cidade, o que é bem ilustrado por uma história que o ex-governador Jaime Lerner diverte-se em contar. Nos anos 60, ainda estudante, cumprindo estágio na França, precisou remeter uma correspondência ao arquiteto Lubomir Ficinski, mas não sabia o endereço. Enviou-a então a “Lubomir Ficinski, Restaurante Ile de France, Curitiba, Brasil”. A carta chegou sem erro ao destinatário, cliente assíduo, com mesa e cadeira cativas desde a abertura da casa.

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