Música Erudita. Ed. 144

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Clássica e em crise

Vito Ferrara

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Hoje se admite, de modo geral, que a música clássica está em situação difícil e até desesperada.

Críticos, comentaristas e administradores perceberam alarmados que as plateias dos concertos estão envelhecendo constantemente e que as pessoas com menos de 50 anos não parecem inclinadas a assistir a espetáculos de música clássica ou a apoiar as entidades que os promovem.

Alguns apresentadores e artistas reagiram tentando modificar a honorável instituição do recital solo, de maneira a torná-lo menos formal e mais contemporâneo.

Por exemplo, hoje os artistas clássicos são aconselhados a falar com o público do palco, a tocar uma combinação de repertório mais amplo e mais recente e até a empregar técnicas modernas de encenação.

Mas, como bem sabe qualquer um que acompanhe os programas da principal sala de concertos dos EUA (o Carnegie Hall), poucos artistas estão seguindo esse conselho.

Com muita frequência, os intérpretes clássicos continuam a aparecer diante do público vestidos de maneira mais ou menos formal e a tocar programas de duas horas de duração, que consistem em três ou quatro grupos de peças tiradas do repertório padrão e arranjadas em ordem cronológica, sem falar uma palavra em voz alta, exceto para anunciar os bis.

O que poucas pessoas que hoje vão a concertos sabem é que houve uma época em que os recitais clássicos eram muito diferentes – menos rígidos, mais improvisados e, principalmente, mais populistas no tom.

Mas, assim como os estilos de tocar dos intérpretes mudaram com a chegada do modernismo, mudou a maneira como se apresentam ao público.

Essas mudanças são o tema de um importante novo livro de Kenneth Hamilton, intitulado After the Golden Age – Romantic Pianism and Modern Performance (Depois da Era de Ouro – Piano Romântico e Interpretação Moderna), Oxford University Press, 304 págs., US$ 29,95).

O livro de Hamilton, pianista de concerto e professor na Universidade de Birmingham (Reino Unido), se baseia em extensa pesquisa sobre as práticas de apresentação dos pianistas do século 19 e início do 20, período conhecido pelos colecionadores de discos como a “era de ouro” do piano clássico.

Mahler, para poucos

Márcia Campos

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A Sinfonia nº 1, de Gustav Mahler, também conhecida como Titã, foi composta entre os anos de 1884 e 1888, tendo como a nota principal Ré Maior.

Mahler, nascido em 1860, em Eisench, Boêmia, atual República Tcheca, viveu a passagem do século 19 para o 20 e as imensas transformações pelas quais o mundo estava passando, o que fez dele um compositor em transição, hoje considerado um compositor moderno. Como compositor, um incompreendido. Muitos julgam que suas peças são difíceis de se ouvir, que é difícil interpretar sua intenção. Mas é aí que reside o que interessa. Para se ouvir é preciso ter ouvidos atentos, já diz o ditado. E isso basta. Mahler também foi um grande maestro, suas técnicas de regência e orquestração sobrevivem e são fonte de inspiração até hoje.

A Sinfonia nº 1 traz quatro movimentos: Langsam, schleppend. Wie ein Naturlant – Im Anfagan sehr gemächlich; Kräeftig bewegt doch nicht zu schnell – Trio. Rech gemächlich; Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen e Stuermisch bewegt. No primeiro movimento, Mahler, que sabe usar como ninguém a combinação de instrumentos e timbres, faz do som da flauta o canto dos pássaros, anunciando a primavera. É um verdadeiro alarido, quando os outros instrumentos de sopro vão entrando e compondo a tecitura do despertar e sua efemeridade.

O terceiro movimento é uma delícia de se ouvir, chega de mansinho, quase solene, e nos remete à infância. O compositor brinca com a canção de ninar conhecida na França como Frère Jacques ou Bruder Martin, na Alemanha. Mahler, em um programa da obra, escreveu: “A ideia dessa peça veio por intermédio de uma gravura paródica conhecida por qualquer criança da Alemanha e intitulada Os funerais do caçador. Os animais da floresta acompanham o caixão do caçador morto; lebres empunham uma bandeira; à frente uma trupe de músicos boêmios acompanhados por instrumentistas gatos, corujas e corvos... A peça, com uma atmosfera ora ironicamente alegre, ora inquietante, é seguida de imediato pelo último movimento d’all Inferno al Paradiso, expressão súbita de um coração ferido no mais profundo de si.”.

No quarto movimento, a música vai crescendo, traduzindo uma verdadeira tempestade sonora, para depois dar vez à calmaria dos instrumentos de cordas. Logo adiante, o esplendor dos trompetes é de tirar o fôlego. No grand finale, o som dos pratos vai reverberar com tamanha intensidade que será difícil não segurar o aplauso.

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