Uma americana no centro do mundo: no salão de Miss Stein

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Iniciada pelo romantismo alemão e radicalizada pelos artistas franceses, a ideia de ruptura constituiu-se na marca de um novo tempo para os artistas do século XIX. Em todas as áreas, romper com o passado e inaugurar novos caminhos para a arte do futuro deixava de ser exceção para transformar–se em regra, formando uma nova tradição. Ninguém poderia ser considerado verdadeiramente artista sem aderir a essa nova norma.

Gertrude Stein

Gertrude Stein

Quando o novo século teve início, com a ideia de progresso atingindo seu ápice na Europa e os avanços científicos contaminando todas as esferas da sociedade, a busca por uma arte radicalmente nova e diferente daquela que até então havia se produzido tornou–se ainda mais imperativa. Segundo essa concepção, era preciso produzir a partir de um novo paradigma: originalidade. E se esse era o paradigma a se seguir, a arte a se fazer, havia um lugar para estar: Paris.

Vindos de todos os cantos do velho e dos novos continentes, era para lá que se dirigiam artistas instigados por essa nova ideia. Buscavam o contato com os herdeiros da tradição francesa de ruptura, além de um lugar propício para desenvolver novos caminhos e encontrar uma voz própria. Mas onde procurar esse caminho, onde encontrar essa voz?

Se não faltavam lugares, pessoas e grupos, na multiplicidade de referências que a cidade oferecia, um endereço tornaria–se, pouco a pouco, referência para todos: Rue de Fleurs, 67. Era ali, a algumas quadras do Jardim de Luxemburgo, que vivia uma americana estranha, cujo maior prazer (dividido com seu irmão), era comprar quadros de artistas novos e recebê-los.

Gertrude Stein era seu nome. Em torno dela circulariam aqueles que o tempo iria consagrar, no futuro, como os gênios da chamada arte moderna. De Picasso a Matisse, de Hemingway a James Joyce, de Ezra Pound a Braque, não haveria, por muitos anos, escritor ou artista promissor que não visitasse aquela casa para conhecer, conversar ou render homenagem àquela mulher. E isso pelo simples motivo de que ela parecia entender como ninguém o espírito novo.

Em outras palavras: Gertrude Stein tinha a clareza para saber o que fazer e como criar uma arte nova. Ela sintetizava o espírito modernista.

Como isso foi acontecer? O que levou uma americana da Pensilvânia a transformar-se na catalisadora do grande movimento renovador modernista europeu, tornando–se, ao mesmo tempo, sua musa e profetisa? Por que coube a ela essa incumbência?

Explicá-la é uma tentativa inútil, fadada ao fracasso. Da mesma forma, tentar desmontar a lenda, revela–se sempre um projeto irrisório

Há os que a amem, assim como há os que odeiem Gertrude Stein. Argumentos irrefutáveis e paixões exacerbadas movem tanto uma quanto outra dessas tendências. Mas para a maior parte das pessoas (os que simplesmente não a conhecem) é difícil compreender exatamente quem foi e por que essa mulher teve tanta importância na história da arte modernista e na cultura do nosso tempo. Parodiando a frase criada por ela, e que se tornou o dístico de um século (“a rosa é uma rosa é uma rosa…”), podemos dizer que uma lenda, afinal, é uma lenda é uma lenda é uma lenda é uma lenda.

Pretender explicá-la é uma tentativa inútil, fadada ao fracasso. Da mesma forma, tentar desmontar a lenda, atacando-a pela suposta megalomania, pela incompreensibilidade de alguns de seus textos, pela ambiguidade de algumas de suas posições políticas e pessoais – ou até mesmo pelas suas opções sexuais –, revela–se sempre um projeto irrisório. A lenda – ou o mito – sempre vai sobreviver, saindo mais forte e enigmática de cada uma dessas tentativas.

Por isso mesmo, o fio da meada para compreender Gertrude Stein talvez esteja na sua própria história, onde se imiscuem a história pessoal com aquela da cultura de um tempo determinado – a América das conquistas intelectuais do final e início de século (pós-Guerra Civil) e a Europa do mesmo período (a caminho da sua primeira guerra civil, se podemos chamar assim).

Nascida em Allfghenny, Pensilvânia, uma pequena cidade da grande Nova Inglaterra (berço não só da civilização americana, mas do que ela de melhor produziu), Gertrude Stein pertenceu, desde cedo, àquela linhagem de americanos definida como ninguém por Henry James, em muitos de seus livros: a linhagem dos americanos na Europa, sequiosos de entender e ingressar naquele mundo de cultura, história e civilização, ao mesmo tempo que contrapunham, a este, o frescor de um mundo novo, concebido em torno de princípios elaborados nessa mesma Europa.

Filha de um dos maiores empreendedores do transporte público de São Francisco (Daniel Stein, seu pai, introduziu os bondes na cidade), a menina, aos 4 anos, como prenúncio do que seria seu futuro, foi viver com a mãe em Viena; depois, algum tempo na Alemanha; mais tarde, passagem por Veneza; no final do caminho, naturalmente ela: Paris. Antes dos 10 anos, já era uma pessoa do mundo.

Nos intervalos entre as viagens recorrentes ao Velho Continente, Gertrude Stein retornaria sempre aos confortos e benesses da mansão Stein, na Pensilvânia, de um lado para encontrar o luxo da nova aristocracia americana, de outro para encontrar aquilo que mais a seduzia: o convívio com os negros. Eles estavam em toda parte – na casa-grande, ao redor dela, nas ruas, na cozinha. Vê-los, ouvi-los, conviver com eles, absorvendo sua língua, seus modos, seus costumes, suas frases, sentenças – seu jazz, enfim – era o maior prazer da jovem Stein, assim como foi, um dia, o de Mark Twain. Gertrude Stein, no fundo, era isso: uma aristocrata americana que amava viver entre os negros.

Assim como a convivência com os negros foi fundamental para o nascimento de Huckleberry Finn, também foi decisiva para o primeiro (e, por mais de 30 anos, o único) livro de sucesso de Gertrude Stein, Três Vidas, que prenunciava o surgimento (ou o ressurgimento) na cultura americana de uma nova dicção e de uma coloquialidade incomuns, prenunciando e preparando as conquistas desenvolvidas com talento por tantos outros escritores.

Nesse percurso, que vai das aventuras europeias/americanas até o nascimento do primeiro livro, interpõe-se um largo período de história. No meio dele, surge um personagem que, sob qualquer ponto de vista, seria a influência mais importante para a lenda que essa mulher criaria ao longo dos anos: William, o mais velho dos irmãos James.

Gertrude Stein conheceu William James no final dos anos 90 do século XIX, em Harvard, no tempo em que passou a frequentar o curso de psicologia.

Gertrude Stein

Gertrude Stein

Seus interesses logo a dirigiriam para a área da psicologia experimental, particularmente para as pesquisas sobre o automatismo cerebral, desenvolvidas pioneiramente naquela universidade (a palavra experimental não surge aqui por acaso: experimentar se tornaria, desde cedo, uma obsessão). William James, naturalmente, estava envolvido com essas pesquisas, assim como com muitas outras áreas de conhecimento.

Conhecer William James mudou tudo para Gertrude Stein. Não sem motivo: o homem, de fato, era assombroso. Mais do que professor em Harvard, ele havia se tornado um mito: suas palestras, conferências e aulas eram pequenos espetáculos, concorridos, falados, comentados e disputados com uma avidez incomum para um pensador ligado à universidade. Seus livros eram sensação que atravessavam fronteiras. O charme, o encantamento e as ideias de William James começavam a se infiltrar de forma tão importante na cultura americana quanto os princípios dos pais fundadores da América, da mesma forma que se infiltravam na mente de Gertrude Stein.

Desse rio tão caudaloso quanto o Mississippi em que se constituiu William James nasceu a teoria do will of believe e do pragmatismo, determinantes em tantos aspectos da cultura americana e do novo século. O yes we can, se você preferir uma referência mais contemporânea, não nasceria sem um fundamento histórico e intelectual como este.

Mas essa já é outra história. Para nós basta saber que, contaminada pelas novas ideias e pela obsessão em se tornar escritora, Gertrude Stein, ao ingressar, anos depois, no curso de Medicina da John Hopkins School, já era outra pessoa: havia abandonado qualquer pretensão de formação acadêmica e de futuro profissional. Não demoraria muito tempo para que abandonasse o curso e a universidade.

À desilusão com a academia viria somar-se uma grande desilusão amorosa. É quando, já próxima dos 28 a 30 anos (a fase, como escreveria depois “em que se atravessa os portões da maturidade”), Gertrude Stein se apaixonaria por uma americana (sim, é exatamente isso que você leu), caso que iria resultar em uma profunda decepção, mas renderia um livro, o Q.E.D (Quod Erat Demonstrandum), linda e comovente história de amor, tão extraordinária quanto desconhecida.

Com essa aventura, ela conheceria, então, a desilusão completa, sentimento que mais tarde definiria como fundamental para qualquer transformação verdadeira.

Desconsolada, amargurada, perdida, Gertrude Stein tomaria uma decisão fundamental para ela e para a cultura do século que começava: mudar de vida e de país. Ao fazer isso, adotaria uma cidade como sua pátria.

No início de 1900, chegaria a Paris.

Mesmo em uma época – e, particularmente, em uma cidade – tão incomum como aquela (não havia códigos de conduta e comportamento que as mulheres de Paris não desafiassem, naquele tempo e naqueles boulevards), a mulher que chegava era motivo de muita estranheza: ainda mais gorda do que o costume, somava a isso um guarda-roupa absolutamente extravagante, onde se destacavam batas largas e profusamente coloridas, chapéus inusitados e adereços de todos os tipos. Nada menos que um assombro permanente para quem a conhecia.

Instalada na Rue de Fleurs, com seu irmão Leo Stein, Gertrude Stein iria recuperar, na Paris do início do século, uma tradição do final do século XVIII: a tradição dos salões cosmopolitas.

Comandados por damas da corte, esses febris salões mundanos reuniam – na época convulsiva que precedeu a revolução – o créme de la créme da nova elite pensante da cidade, transformando-se em um centro irradiador de novas ideias e atitudes.

No salão de Miss Stein, um século depois, seria ela que governaria, cercada dos quadros que adquiria junto com seu irmão Leo (cuja partida, poucos anos mais tarde, assumiria ares épico/dramáticos, com rompimentos definitivos de relação e alguns Cézannes sendo levados como partilha) e de um séquito crescente de admiradores e curiosos.

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Gertrude Stein sentada no sofá de seu estúdio em Paris, com seu retrato feito por Picasso

O cenário que o visitante encontrava ao penetrar naquele salão era, como ela mesma descreve, em um livro de 1936, incomum: “É difícil, agora que todo mundo está acostumado a tudo, imaginar o tipo de desconforto que se sentia quando olhava-se pela primeira vez para aqueles quadros naquelas paredes. Havia de tudo ali, duas fileiras de Matisses, os grandes palhaços de Picasso, Renoirs, Cézannes, Gauguins, um pequeno Delacroix, um moderadamente pequeno El Greco, muitos e muitos desconhecidos e até um Toulouse Lautrec”.

Acentuando a estranheza do cenário, destacava-se, como ela completa, “uma grande mesa renascentista com um adorável tinteiro e livros de notas cuidadosamente arrumados, além de grandes cadeiras, também renascentistas, extremamente desconfortáveis para quem tinha perna curta”.

Com as conversas e as descrições sobre a casa e os salões correndo de boca em boca pela cidade, a curiosidade se acirrava: todos queriam conhecer aquele lugar e a mulher, quieta, imperturbável, impassivelmente sentada em uma grande cadeira, com as pernas encolhidas, dizendo somente frases formais para aqueles que se aproximavam e, de vez em quando, sem qualquer motivo aparente, explodindo em uma gargalhada desconcertante.

O retrato em cores feito por Picasso

O retrato em cores feito por Picasso

Alfred Stieglitz, pai da moderna fotografia intimista americana e frequentador assíduo do salão, dizia dela uma coisa curiosa: “Gertrude me espantava. Eu nunca havia visto uma mulher sentar calada por tanto tempo, apenas observando o que se passava ao redor”.

Gertrude Stein, nesse tempo, era apenas uma pessoa estranha. Como aquele personagem de Joseph de Maistre que faz a volta ao mundo ao redor do seu quarto, ela observava o pequeno (e cada vez maior) le monde que circulava ao redor da sua sala com atenção concentrada e resignada perseverança.

No início, eram os americanos em Paris que visitavam os irmãos Stein; mais tarde, veio Matisse; com Matisse, vieram, naturalmente, muitas outras pessoas; com essas inúmeras pessoas veio também um jovem pintor espanhol. Chamava–se Pablo. O estranhamento inicial entre os dois deu-se de forma curiosa, em torno de um pão. Mas logo se entenderam. Desse encontro nasceria uma amizade e uma parceria que definiria em seus contornos mais nítidos a nova arte do novo século.

Antes disso, ela permaneceria por muitos meses assim, sentada em sua cadeira renascentista, similar àquela que os doges venezianos costumavam ocupar, analisando os tipos humanos a partir dos americanos em Paris, dos europeus entre os americanos, dos europeus entre os europeus, entendendo os temperamentos e o modo como a alquimia interna de cada um produzia comportamentos peculiares, únicos e comuns.

Nos intervalos entre esses encontros, escreveria uma obra monumental, grotesca, disparatada, frenética e absolutamente experimental (não vamos esquecer, estamos em 1902, 1903 e um pouco mais) sobre a saga de uma família americana, os Harsland.

The Making of Americans era o nome do livro.

Quem hoje se dispuser a percorrer tal aventura literária (são mais de 900 páginas em corpo 12) vai se ver frente a um curioso enigma: o livro é circular, mas não à maneira do que Joyce faria, 20 anos depois: é um livro à maneira Stein, que se dobra permanentemente sobre si mesmo, de forma que é quase possível ver o escritor escrevendo e o livro sendo escrito, uma técnica que a americana levaria ao paroxismo por mais de 20 anos e que seria a essência de sua fase radical.

Nesse livro, pretendendo definir todos os tipos humanos, Gertrude Stein chegaria próxima a uma exegese da sua própria história. Isso é visível quando vemos que a família Harsland é muito similar à família Stein.

Gertrude Stein tinha a clareza para saber o que fazer e como criar uma arte nova. Ela sintetizava o espírito modernista

Incompreensível para muitos, impublicável para tantos e tantos editores que ela iria procurar, The Making of Americans seria publicado apenas em trechos (na revista literária de Ford Madox Ford, lida por todos, na época) só no final dos anos 20 (e isso graças a ação decisiva de um novo amigo, um jovem escritor americano chamado Ernest Hemingway). Assombrando os poucos que se tornariam os grandes da nova literatura com alguns fragmentos, o livro só seria publicado integralmente muitos anos depois, permanecendo um monumento indecifrável para tantas gerações.

Mas isso pouco importa: um livro, para um grande escritor, é sempre um caminho, publicado ou não. Através de The Makings of America, observando e escrevendo sobre o que via e pensava, dando à memória o status inusitado de instância criativa, Gertrude Stein criaria um ponto de vista único sobre a arte que era preciso fazer. A arte que transformaria a arte. A arte que aglutinaria literatura, pintura e escultura em um movimento circular, único, visceral e radical na história da cultura.

Não se pode esquecer: modernismo, naquele tempo, não era aquilo o que aprendemos a compreender, situar e localizar como um movimento bem definido na história da arte; modernismo era algo que se situava no between (não há palavra em língua portuguesa capaz de traduzir esse território), entre dois momentos, um campo de instabilidade e de interface entre conceitos diferentes que se entrecruzavam.

Nesse espaço, onde existe “menos uma juntura do que uma aventura a se percorrer” (como já disse Michel Sérres), Gertrude Stein se movia como ninguém, talvez exatamente pelos seus anos com William James, filósofo que defendia a simplicidade como um caminho atingido pela máxima complicação. Tinha clareza sobre o que era importante e o que não era importante, ou o que interessava e o que não interessava (como ela gostava de dizer), para o surgimento de uma arte nova.

Um dia, então, ela começou a falar. As sentenças eram lapidares; os diagnósticos, ferinos. Todos desejavam suas leituras, ao mesmo tempo que as temiam. Com o passar dos anos e com chegada de Alice B. Toklas (a californiana que se tornaria companheira de toda vida e estrela do salão com seus quitutes e petits-fours), a confiança cresceria ao seu ponto extremo, fazendo com que ela falasse mais e cada vez com maior energia. Seu brilho, ofuscante, seu gosto e habilidade invulgar com as sentenças, sua falta de modéstia e de complacência, atraía pessoas, criava adoradores – ao mesmo tempo que alimentava os primeiros inimigos. Mas, de uma forma ou de outra, todos queriam prestar homenagem a essa mulher com a figura agachada, cuja cadeira lembrava um trono e cuja voz dominava a tudo.

Ela havia se tornado famosa.

Mas ninguém sabia exatamente por que.

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