A incrível política brasileira e seus personagens

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Quem entende a política brasileira? Difícil. A menos de um ano das eleições, a disputa pega fogo e entramos no período de acertos e conchavos que fariam corar o mais volúvel dos políticos de Uganda.

Nos corredores do Congresso, nossos artistas (brasileiros acreditam que a política é uma arte da dissimulação) montam o quebra-cabeça das forças que disputam o poder. Não é simples, como o distinto público pode ver: Dilma é candidata, mas quem tem os votos é Lula. Eduardo Campos tem um partido, mas tem poucas intenções de voto; Marina tem muitas intenções de voto, mas não tem partido. Aécio tem o partido nas mãos, mas não consegue decolar. Serra também não consegue, não tem o partido, mas tem mais intenções de voto do que Aécio – e tem más intenções quanto à candidatura de Aécio, se não puder afastá-la do caminho. Isso acontece hoje. Tudo pode mudar muito em 11 meses.

Assim caminha a humanidade nesta área do planeta. Partidos empenhados em eleger o mesmo candidato a presidente da República podem ser adversários na hora de eleger governadores, deputados federais e estaduais.

O presidente interino do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), informou à direção nacional do PT que seu partido apoiará Eduardo Campos contra Dilma, em Pernambuco e no Piauí. E que, em nove estados, o PMDB será adversário do PT nas eleições para os governos estaduais. Inclusive no Paraná.

Dos nove, três fazem parte da lista dos maiores colégios eleitores do País – São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O provável candidato do PMDB ao governo baiano é Geddel Vieira Lima, atual diretor da Caixa Econômica Federal, nomeado por Dilma.

O que está na raiz das alianças partidárias nada tem a ver com ideologia, princípios, valores, o bem-estar da população – nada. Montam-se alianças pensando acima de tudo no tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Partidos com gordas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado dispõem de tempo de propaganda maior. São os mais ambicionados parceiros. Mas deu-se também um jeito na lei para que eles possam negociar seu tempo de propaganda na eleição presidencial, sem comprometer seu tempo de propaganda na eleição estadual.

Pois, pois, parlamentares de diversos partidos confraternizam no palanque presidencial, fazem juras de amor eterno, prometem o impossível ao distinto público. Para no dia seguinte se exibirem em palanques diferentes, com candidatos diferentes aos governos, dizendo o diabo dos aliados da véspera.

 

Enquanto isso

A mistura de baixo crescimento, inflação alta e contas públicas em deterioração, resumo da obra econômica da presidente Dilma Rousseff, começa a prejudicar a imagem do País, como se viu na semana da reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington. Ninguém chamou o governo de irresponsável ou incompetente, mesmo porque funcionários de organizações multilaterais são normalmente polidos e diplomáticos. Mas os danos causados à economia brasileira pelos erros acumulados nos últimos anos foram citados mais de uma vez, e da maneira mais contundente: apenas como fatos claros e bem estabelecidos, sem retórica política e sem juízos de valor. Nem as expectativas de melhora chegam a ser entusiasmantes. Se forem retomados de fato os investimentos em infraestrutura, o País crescerá, em média, 3,5% nos próximos cinco anos, bem menos e de modo menos equilibrado que os vizinhos sul-americanos mais dinâmicos.

Nada disso preocupa a presidente Dilma Rousseff, seu governo e seu partido. Estes só pensam naquilo, a eleição. Enquanto isso o País é mencionado pelas pressões inflacionárias preocupantes, pelo alto endividamento do setor público e pela necessidade urgente de investimentos em infraestrutura. As pressões inflacionárias deixam pouco ou nenhum espaço para estímulos monetários ao crescimento – um recurso disponível em países com inflação contida em níveis toleráveis.

Todas as sugestões e análises vão no sentido oposto ao da política formulada em Brasília nos últimos anos. Seria um erro, já haviam indicado outros documentos do FMI, recorrer a novos estímulos ao consumo, porque os limites ao crescimento estão do lado da oferta. Analistas vinham chamando a atenção para isso, no Brasil, pelo menos desde o ano passado. Agora o problema é discutido no mais importante foro internacional.

A dívida pública brasileira equivaleu a 68% do PIB no ano passado, deve chegar a 68,3% neste ano, atingir 69% em 2014 e, a partir daí, declinar lentamente. A dívida projetada para 2018 corresponderá a 66,7% do PIB. A dívida bruta média dos emergentes foi estimada em 35,2% do PIB no ano passado e deve ficar em 34% em 2013. A dos latino-americanos ficou em 52% em 2012.

O governo brasileiro calcula sua dívida por um critério diferente do usado pelos economistas do FMI, mas, ainda assim, os números encontrados são muito maiores que a média dos emergentes. A dívida bruta no fim do ano passado, segundo as contas de Brasília, foi de 58,7%. Em agosto, chegou a 59,1%.

Como se estivesse com o mundo na barriga, sabendo sobre tudo, a presidente Dilma Rousseff recomendou a seus adversários na campanha presidencial que “estudassem” para poder governar o Brasil

Para os desinformados

A presidente Dilma Rousseff e seus ministros costumam confrontar a dívida brasileira com os níveis encontrados no mundo rico, em média superior a 100% do PIB. Mas a comparação só pode convencer os desinformados. O Brasil é um país emergente e convém comparar seus números com os de outros países da mesma categoria. Além disso, bastaria confrontar as classificações de risco para avaliar com mais realismo as condições do Brasil e as dos países mais avançados.

A recuperação da imagem do Brasil foi conseguida com ajustes muito trabalhosos nos anos 90, completados com a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal em 2000. A imagem de seriedade permaneceu durante a maior parte dos últimos dez anos, mas a erosão é evidente. Retórica populista pode funcionar no País e para um público determinado. O público externo – e isso inclui os investidores – é muito mais exigente.

A presidente Dilma já está refém da base aliada no Congresso Nacional. Em campanha para 2014, o Planalto fez mais uma concessão aos deputados e senadores para assegurar apoio à campanha da reeleição de Dilma: elevar em até R$ 1,3 bilhão os recursos pagos em emendas parlamentares individuais. A mudança eleva de R$ 6,8 bilhões para R$ 8,1 bilhões os recursos para emendas individuais obrigatórias.

O aumento se dará por meio de uma PEC, que, se aprovada ainda neste ano, agrada à base aliada, porque aumenta a fatia de recursos em emendas, em pleno ano eleitoral, que o governo fica impedido de não pagar – ou contingenciar, no jargão orçamentário. Ela pode impulsionar a campanha de reeleição dos congressistas – toda a Câmara e um terço do Senado serão renovados em outubro de 2014.

 

Mas o negócio é a campanha

Em plena “fase de beijos com o Brasil”, Dilma Rousseff faz o diabo, como anunciara, para atrair a simpatia do eleitor. Em troca de alguns segundos de tevê, confraterniza com partidos e políticos suspeitos. Sem grandes obras para inaugurar, entrega tratores e retroescavadeiras para prefeitos. Com o prestígio rebaixado pelas ruas de junho, bate o ponto em formaturas de alunos do ensino técnico e distribui casas. Algumas delas à luz de velas e com torneiras secas.

Dilma foi à cidade baiana de Vitória da Conquista para entregar 1.740 chaves do Minha Casa, Minha Vida. Algumas residências já estavam ocupadas. Mas apenas 378 dispunham de energia elétrica e água encanada. Para o Ministério das Cidades, as casas “possuem instalação adequada, de acordo com as especificações mínimas”. Beleza. O beneficiário fica liberado para considerar como retribuição adequada um apagão pessoal defronte da urna eletrônica.

Mas ela não perde a pose. Como se estivesse com o mundo na barriga, sabendo sobre tudo, a presidente Dilma Rousseff recomendou a seus adversários na campanha presidencial que “estudassem” para poder governar o Brasil.

Fez essa recomendação a Aécio Neves (economista, ex-deputado federal, ex-presidente da Câmara dos Deputados, duas vezes ex-governador de Minas Gerais e atualmente senador da República pelo PSDB), para Eduardo Campos (economista, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-ministro de Ciência e Tecnologia, atual governador de Pernambuco pelo segundo mandato consecutivo, pelo PSB) e para Marina Silva (bacharel em História, pós-graduada em psicopedagogia, ex-vereadora, ex-deputada estadual, ex-senadora da República — pelo PT —, ex-ministra, e ex-candidata à Presidência pelo PV, em 2010, com 20 milhões de votos).

Enquanto Dilma se formou, tardiamente, em Economia. Depois, tentou e não terminou uma pós-graduação e um doutorado na mesma área. Antes de ser presidente, jamais exercera cargo eletivo algum. Foi uma ministra de Minas e Energia de Lula, que não deixou grandes lembranças, e uma chefe da Casa Civil, também do ex-presidente, que se viu transformada em “mãe” de um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que já tem quase dez anos e não atingiu nem um terço de seus objetivos.

Resta saber o que recomendaria a seu guru, Lula, que nunca quis se aproximar de qualquer curso depois que passou a ter possibilidades, e que apregoa com orgulho sua falta de instrução?

Mas ela vai em frente. Em clima de campanha antecipada, a presidente Dilma Rousseff fez críticas aos adversários políticos. Disse que não está preocupada com a reeleição porque se dedica a governar enquanto os outros candidatos ainda têm de estudar os problemas do País.

 

Não ficou sem resposta

A ex-senadora Marina Silva partiu para o ataque ao afirmar que a marca do governo Dilma “é a do retrocesso”, e que a política econômica da gestão de Dilma vem sendo praticada com “alguma negligência em função da ansiedade política”, o que põe em risco as conquistas adquiridas desde o início da estabilização econômica, que começou a ser implantada ainda no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

Em entrevista às rádios Itatiaia e Panorama, Dilma disse que não está de salto alto e evitou comentar as pesquisas recentes de intenção de voto do Datafolha, que a colocam como vitoriosa em primeiro turno numa disputa com o senador Aécio Neves (PSDB) e o governador Eduardo Campos (PSB).

— Acredito que, para as pessoas que querem concorrer ao cargo, elas têm de se preparar, estudar muito, ver quais são os problemas do Brasil. Eu passo o dia inteiro fazendo o quê? Governando. Veja que não é uma questão para qual eu possa destinar toda a minha atenção. Eu respeito todos os contendores, todas as pessoas que pleiteiam, acho todos os pleitos extremamente legítimos. Agora, o meu problema é governar, não é ficar preocupada com quem vai ser candidato. Até porque há indefinições, disse Dilma.

A presidente disse que não está se colocando em posição superior:

— Apesar de respeitar, de achar que ninguém pode subir no salto alto, o meu problema não é salto alto. É o seguinte: não dá para fazer as duas coisas simultaneamente, disse Dilma, que reforçou:

— Eu sou presidenta, fui eleita presidenta de todos os brasileiros e eu tenho nas 24 horas do dia de exercer a Presidência da República. E a Presidência da República é algo bastante complexo. Portanto, eu tenho de trabalhar muito e dar o melhor de mim.

Sobre a colocação da presidente, Marina respondeu:

— Acho que ela deu conselho de professora. Fui alfabetizada aos 16. Se tem uma coisa que gosto é valorizar aquelas que se dispõem a estudar. E que pega coisas com muita consistência. Aprender é sempre bom. Difícil aqueles que acham que não têm mais o que aprender e só conseguem ensinar.

E Marina partiu para o ataque ao governo Dilma. Ela defendeu a permanência das conquistas instituídas durante o governo Fernando Henrique Cardoso, como a estabilidade econômica, e as conquistas sociais do ex-presidente Lula, e voltou a defender a manutenção do tripé econômico que inclui geração de superávit primário nas contas públicas, câmbio flutuante e metas de inflação, que vigoraram nas duas gestões anteriores.

— No que diz respeito à política econômica, temos que reconhecer que as dificuldades mundiais têm a ver com a crise. Mas tem a ver com alguma coisa que vem sendo praticada em função da ansiedade política, a partir do segundo governo de Lula, e sobretudo no atual governo que, no meu entendimento, está fragilizando a política econômica. Tudo que conquistamos foi em função de termos compromisso com a meta da inflação, mas o seu teto está sendo extrapolado – disse Marina.

Para a ex-senadora, a marca do governo Dilma tem sido a do retrocesso, inclusive na área de sustentabilidade, não só na área do meio ambiente, mas também na política:

— A marca do governo Dilma tem sido a do retrocesso. Não gostaria que a presidente tivesse essa marca. Ela cumpriu o seu papel, mas o modelo se esgotou, não tem mais para onde ir, disse Marina.

Para a ex-senadora, o governo Dilma, mesmo com 40 ministérios, não hesita em criar novas pastas para manter fiel sua base política.

— E isso é insustentável.

A ex-senadora também saiu em defesa da autonomia do Banco Central, mas sem institucionalização, por temer que o Congresso Nacional desvirtue as suas funções.

Ex-senadora Marina Silva partiu para o ataque e afirmou que a marca do governo Dilma “é a do retrocesso”

Uma denúncia grave

Marina denunciou que o BNDES está voltado para o benefício de meia dúzia de empresários:

— A gente vê o BNDES sendo utilizado de maneira inadequada, para eleger alguns ungidos, que são os que recebem dinheiro do BNDES. Só para o empresário Eike Batista, foram mais de R$ 9 bilhões, que foram praticamente jogados na lata do lixo. Talvez a preocupação não seja com aqueles que querem manter o tripé da política econômica, para manter o equilíbrio econômico do País e as conquistas sociais. Talvez a preocupação seja com aqueles que estão desequilibrando o que foi conquistado a duras penas, inclusive com políticas muito dúbias, que escolhem meia dúzia para receber o dinheiro do banco, que é público, sem que isso passe por uma discussão no Congresso.

A ex-senadora continuou:

— Corremos o risco de ver o dinheiro do contribuinte sendo dado a um grupo que causa um prejuízo irreparável às finanças públicas. Imagine esse dinheiro sendo dado a jovens empreendedores, a quantidade de oportunidade que poderíamos ter em termos de geração de novos empregos e novos negócios.

Marina disse que a união entre a Rede e o PSB já começa a tornar a presidente refém das forças que a sustentam.

Em Itajubá, em seu discurso para uma plateia de cerca de 400 pessoas, a maioria empresários e industriais, Dilma defendeu sua política econômica, que já tinha sido criticada antes por Marina em reunião com empresários paulistas. Marina disse que, apesar da crise econômica internacional, o País seguirá cumprindo as metas de inflação (4,5% em 2013).

— Pelo décimo ano consecutivo a inflação vai fechar o ano dentro da meta. Nosso compromisso com o rigor fiscal não se alterou como mostra o fato de termos transitado pela mais grave crise da História desde 1929 com as nossas metas de endividamento sob rígido controle. Hoje a nossa dívida líquida do setor público sobre o PIB é uma das menores do mundo, disse Dilma.

A presidente definiu a oscilação do câmbio como positiva:

— Defendemos e praticamos uma política de flexibilidade cambial, o que tem nos permitido também fazer face a esse novo momento em que o mundo transita para uma modificação das políticas monetárias, notadamente da política monetária americana. Isso nos permite procurar sempre dar, dentro da variabilidade cambial, maior estabilidade ao País.

A presidente, que, tanto na entrevista às rádios como no discurso, elencou os investimentos do País em Minas e no setor industrial, disse ainda que o governo tem atuado para reduzir o custo das indústrias.

— Nós temos esse compromisso com a robustez econômica, mas também desenvolvemos paralelamente a esse cuidado toda uma política de redução de custos para a indústria. Reduzimos o custo da energia e desoneramos a folha de pagamentos, afirmou a presidente.

Acompanhada do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, e do ministro da Agricultura, Antonio Andrade, Dilma esteve em Itajubá para a inauguração de uma fábrica de transformadores de corrente elétrica da Balteau. Pimentel é o provável candidato do PT ao governo mineiro. Já o ministro Andrade, do PMDB, era o mais cotado ao posto de vice-governador, que poderá ser ocupado agora por Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar. Ao lado de Dilma, na cerimônia, estava o governador tucano Antonio Anastasia.

Fora da fábrica, um pequeno protesto de metalúrgicos foi comandado pelo sindicato local, filiado à CSP-Conlutas, ligada ao PSOL e ao PSTU. Sobre um carro de som, um dirigente sindical afirmava que a presidente estava ao lado dos patrões em detrimento dos operários. A manifestação não afetou a agenda de Dilma, que passou pouco mais de duas horas na cidade.

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