Cigarras, formigas e asnos

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Nas últimas semanas, não sei bem por que, ando pensando muito sobre fábulas. Talvez tenham sido as cigarras brasilienses que cantam desesperadas à minha janela. Fato é que me peguei a pensar na moral de cigarras, formigas, asnos e outros bichos.

Depois de muito calcular, me ocorreu que a fábula é um gênero literário muito mal aproveitado. Desde Esopo e La Fontaine, poucos aventuraram-se a contar as lições de moral da bicharada. Não sei se os escritores mudaram, ou mudaram os bichos. Talvez o reino animal viva agora numa espécie de Sodoma e Gomorra zoológica, sem qualquer traço de moralidade que justifique uma fábula sequer.

Pois está claro que a moral dos bichos, tal qual a dos homens, está sujeita ao sinal dos tempos. A formiga de Esopo e La Fontaine, por exemplo, deixou a soberba de lado ainda na década de 1920.  Foi Monteiro Lobato quem narrou a novidade. A formiga boa e moderninha dá valor ao ofício do artista. Acolhe no formigueiro a cigarra cantora para cama e mesa até o fim do inverno.

Já a cigarra, que na primeira história se mostra humilde enquanto padece da própria frouxidão, hoje em dia até esnoba a pobre da formiga, a quem nega entrevistas e biografias. Pensando melhor, talvez tenha sido toda a celeuma em torno de biografáveis que me fez pensar nesses contos com lição de moral.

Afinal, não deixa de ter um conteúdo fabuloso esse imbróglio todo. Relembremos a mula de Tales de Mileto, que deve ter sido a inventora da malandragem. Encarregada de transportar sacas de sal ao mercado, a mandriona dava uma escapadela e mergulhava no rio. Saía do outro lado quase sem peso nas costas. Deixava para trás água salgada qual do mar.

Tales, que não tinha vocação para mulher de malandro, decidiu dar um corretivo na mula. Trocou o sal por carga de lã. Encharcada de água do rio, a lã tanto pesou que quase matou a mula afogada. Conta a fábula que a mula aprendeu a lição e deixou a vida de malandro para a história.

Quem também quase morreu foi o Pastor. Ao contar suas ovelhas, deu pela falta de uma. Rogou aos céus que lhe encaminhasse até o lobo ladrão que a havia roubado. Em troca, sacrificaria a ovelha mais parruda. Qual foi sua surpresa quando descobriu que acusara o bicho errado. Ao pé da montanha, lá estava o enorme leão com a ovelha na boca. Restou ao Pastor só pedir piedade.

Me desculpem o abuso das expressões, mas a história da mula que entrou pelo cano e do Pastor que bateu as botas é ilustração muito clara de tiro que saiu pela culatra. Coisa semelhante aconteceu à nuvem de cigarras, umas maiores, outras pouco expressivas, que tenta impedir a publicação de biografias não autorizadas.

A preocupação dos integrantes do “Procure Saber” era, acima de tudo, ver seus nomes jogados na lama por uma biografia sem censura. Temiam ter verdades inconvenientes escancaradas nas páginas de um livro. Sofriam ao pensar que poderiam despencar do alto conceito público. Saíram à caça do lobo imaginário que roubaria suas ovelhas.

Armados do porrete da democracia, foram à mídia como a mula de Tales ia ao rio e o efeito foi o contrário do esperado. Deram com os burros n’água. Mancharam as próprias biografias sem dedo de escritor algum. Em bom fabulês, entregaram a ovelha mais gorda e foram acabar na boca do leão. Lhes resta apenas pedir piedade.

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