De amores e jogos mais ou menos clandestinos

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Pedro Lauro, o que chegou a deputado federal e jamais conseguiu ser vereador, tinha metas obsessivas: a dos mictórios públicos, a do trem para as praias e a da reabertura dos cassinos como fonte de turismo e de emprego. Ele não pegou os tempos do Cassino Ahú, hoje lugar virtuoso das meninas do Colégio Bom Jesus e ontem área de pecado e devassidão e ponto da única piscina pública da capital. Ali havia, como em toda a região que se estende até Almirante Tamandaré, uma água mineral que levava o nome da fonte e do bairro, Ahú, e foi em cima desse veio alcalino-terroso que se tentava justificar o cassino, uma vez que a lei privilegiava estâncias e fontes hidrominerais. Tanto que em Pontal do Sul um grupo tocou uma urbanizadora, liderada pelo ex-prefeito de Paranaguá, Cominese, da praia com a ideia de implantar ali um ponto de jogos e visível num diagrama de hotel que lembrava em tudo o de Quitandinha. Aquilo deu origem ao poder na região do João Carlos Ribeiro e dá parte a explorar a mais profunda Ponta do Poço.

Ocorre que dona Carmela Dutra, esposa do presidente da República, virtuosa, cortou esse embalo com o ato presidencial do generalíssimo que proibiria jogos e cassinos.

Há muita nostalgia como a encontrada no livro do bioquímico Alceu Schwbe, um dos maiores nomes da cultura popular, que enumerou espetáculos, orquestras e artistas que abrilhantaram o Cassino Ahú, em cuja porta estava o leão de chácara, João Cachorro, um dos poucos dispostos a enfrentar os desafios, por exemplo, do Carlinhos Pereira, campeão de briga de rua e de clube também, protagonista da baderna no maior comício da história do Paraná, o de Getúlio Vargas na campanha de 1950 no Braz Hotel, na qual interveio o Gregório, chefe da guarda pessoal do caudilho sorridente.

 

O bem e o mal

Muita gente vinha de outros lugares distantes para jogar no cassino e havia um serviço social para atender os que perdiam tudo: uma passagem de ônibus de volta ao ponto de origem. Havia os que se suicidavam por haverem desviado grana da tesouraria da repartição: pendurados nos galhos dos plátanos do Passeio Público davam seu último olhar ao represamento do rio Belém.

Assim para muitas famílias o fim do cassino foi o afastamento de uma terrível preocupação das esposas – a de que os maridos perdessem as poupanças e também se atracassem com as coristas da casa.

E foi na perseguição da esposa, de quem há muito desconfiava, que um cidadão nervoso seguiu o táxi que a levaria ao cassino. E estava nervoso e tão inquieto que já na portaria o insondável João Cachorro o conteve por algum tempo. Depois saiu atrás da mulher e nada de encontrá-la nas mesas de jogos, até que resolveu ir aos fundos do palco e lá estava a traidora nos braços do mágico que se apresentaria naquela noite.

— Traidora, você é a vergonha dos nossos filhos!

Dito isso viu uma pistola com a qual se dispôs a lavar a honra. Puxou o gatilho e do cano saíram duas bandeiras, a do Brasil e uma dos ianques, uma espingarda onírica, de fantasia. Desesperado, lançou-se ao chão e o amante, arrumando as calças caídas, passou por cima do corpo do traído. Nessa hora ouviu-se a orquestra com o cantor entoando “Fracasso por te querer assim como quis// fracasso por não saber fazer-te feliz// fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal// por te querer tanto bem e me fazer tanto mal!”.

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