Editorial. Ed. 145

“É preciso confessar que a liberdade é a mais difícil das provas que podemos propor a um povo. Saber viver em liberdade, eis aí um dom que não foi igualmente distribuído entre todos os homens e todas as Nações. Talvez se possa até classificá-los, homens e nações, segundo sua maior ou menor aptidão para serem livres.”

Assim escrevia o francês Paul Valéry no ano de 1938, numa época em que a Europa caía sob o domínio de Hitler.

Pois Valéry é atualíssimo para nós, brasileiros. Nossa veia liberticida é forte. Temos experiência democrática muito frágil, mínima, se pensarmos nossa trajetória como País. A mais longa e a mais plena é esta que vivemos agora, com todas as restrições herdadas e que se acumulam em leis, regras e obrigatoriedades.

Mesmo aqueles que chegaram a lutar por democracia em outros tempos, e que acreditávamos heróis libertários em nossa ânsia de criar mitos, acabam por se revelar tão autoritários quanto seus algozes, engrossando o vozerio contra a liberdade de expressão.

Uma erupção dessa sanha liberticida é o que se vê agora no gesto de artistas populares, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque de Hollanda, que um dia levantaram a voz contra o regime fardado e suas mazelas, entre elas a censura, para exigir censura prévia ao trabalho de biógrafos e historiadores.

Argumentam que pretendem evitar que lhes façam a biografia com revelações que podem manchar a sua imagem, E, para completar a baixeza, alegam que têm o direito a uma parte dos ganhos do autor. É a lei Roberto Carlos, que lhe emprestou o nome por ser o mais empenhado em fazer valer um artigo do Código Civil que lhe permite impedir em juízo que escrevam sobre ele.

É vergonhoso que alguém ainda acredite que a liberdade de expressão, um bem maior, deva ser suprimida para garantir que só escrevam bem de seu caráter e de sua obra. Além de vergonhoso, é uma manifestação de idiotia.  Nosso historiador José Murilo de Carvalho listou cinco razões definitivas para não se ler biografia autorizada:

  1. Porque é press-release do biografado ou dos herdeiros.
  2. Porque é autobiografia terceirizada.
  3. Porque não há punição para falso elogio.
  4. Porque pasteuriza e desumaniza o biografado.
  5. Porque é uma chatice.

Ao escrever sobre as tentações liberticidas, e ao falar sobre as coisas que ela dissipa, Valéry disse: “Entre essas coisas dissipadas, a liberdade. Muitos se resignam facilmente a essa perda”.

Não há dúvida que o dilema que afligia Valéry em 1938 permanece entre nós. Nem todos os povos, incluídos nós, os brasileiros, parecemos igualmente dotados para a liberdade, e muitos homens se resignam demasiado facilmente a perdê-la.

Ou não é isso que acontece hoje com esse movimento que só admite biografia autorizada, com censura prévia?

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